Na leitura, a mágica está atrás do truque

Minha avó costumava ler para mim. Ela precisava de dois copos. Longe e perto. Ambos muito pesados. Lembro-me deles tão bem como me lembro do cheiro do armário em que ela os guardava, ao lado de uns copos que só eram usados ​​aos domingos.

Também me lembro que, quando ela não os usava na primeira hora da manhã, enquanto preparava o café da manhã para mim, minha impressão era que faltava uma parte de seu rosto.

Foi minha primeira sensação de obscenidade, pois para mim, de certa forma, ela estava nua. A obscenidade, em geral, não é uma coisa nua, mas o que nos deixa nus.

Quando chegou a hora de ler, ela pegou o que tinha moldura marrom – o que estava fora – e colocou o que tinha moldura escura e acinzentada. O fechamento.

E leia para mim.

 

Eu mentiria para você se dissesse que me lembro de algum dos livros que nos fizeram companhia nessas tardes. Eu nem consigo imaginar quais eram. Como também não me lembro dessa história que sempre me é contada e que agora, pegando emprestada da memória de outras pessoas, eu te conto.

Engraçado como as coisas escorregam para fora da sua cabeça, como a água que escapa dos seus dedos deixando apenas pedras preciosas. Você morre de sede, mas pelo menos há algo para se olhar.

O fato de minha avó abrir aquelas páginas e, daquela sujeira no branco do papel, extrair aquelas coisas que ela me falava, mostrando de vez em quando as fotos, certamente me encantou.

Afinal, como poderia ser isso?

É por isso que uma daquelas tardes, quando minha avó estava ocupada com outras coisas, fui pega com pesados ​​óculos de aro escuro, precariamente equilibrados no meu nariz, com um livro na minha frente.

Para mim, o que tornou a leitura possível foram os óculos, porque, sempre que ela ia ler, ela os pegava, como se cumprisse um ritual.

O que – aprendi rapidamente – foi um erro.

Pouco tempo depois fui alfabetizada, como toda criança deveria ser, e em pouco tempo eu mesma decifrei as manchas no papel – que conheci por meio de cartas. E eles não estavam apenas nos livros, mas no mundo ao seu redor. E, como toda criança naquela fase, li todos os sinais e sinais que pude enquanto o carro estava funcionando. Alto. Para o deleite inicial, o tédio intermediário e depois o desespero daqueles que me levaram para passear.

O fato é que ler, quer dizer, o ato mecânico de ler é um truque. Eu vi o artista tirando um coelho da cartola e tive vontade de aprender. Achei que os óculos iriam me ensinar a ler instantaneamente.

Mas, na leitura, a verdadeira magia está por trás dos truques. O que importa não é o coelho saindo da cartola, mas o que ele diz depois que sai.

Os truques, aprendi juntando letras com letras com a tia Marise. A vontade de fazê-los surgiu quando vi minha avó de óculos.

E mágico, quem gosta de ler – ou ouvir – sabe do que estou falando.

Mas eu suspeito – ainda suspeito – que aqueles óculos pesados ​​de aro escuro eram um ingrediente secreto e indispensável neste feitiço.

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