milton conferência2  Não é novidade que no cenário da literatura nacional, Milton Hatoum (61) é disparado um dos maiores nomes de autores da atualidade e isso já vem se consolidando desde a década de 90 no Brasil e no mundo. Este ano, o escritor amazonense foi convidado para abertura do maior festival de literatura do país,  a 11° edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) e apesar dessa ter sido a sua terceira participação no evento, nada seria como antes.

Na conferência de abertura,  Milton Hatoum falou sobre o homenageado do ano, Graciliano Ramos, que mesmo tendo seu  primeiro livro publicado apenas aos 41 anos, produziu obras memoráveis e de um linguagem articulada entre o culto, o popular e o clássico, marca esta do autor.

Hatoum abordou os livros São Bernardo, Vidas Secas, Memórias do Cárcere, entre outros,  falou da complexidade de escrever sobre  o escritor alagoano e da personalidade dele( Graciliano Ramos era avesso a solenidades). E uma das falas que mais chamou atenção dos ouvintes  foi a aproximação da realidade do Brasil de 1930 e 2013.

Depois de fazer história na abertura do evento,encantando o público com seu jeito meio tímido, humilde, porém sereníssimo ao tratar de uma dos maiores gênios da literatura brasileira, Milton Hatoum foi convidado a fazer o encerramento da Festa. O escritor amazonense fechou os trabalhos com a leitura do trecho final de sua crônica “Estádio novo, miséria antiga”, que critica a demolição de um estádio em Manaus para a construção de um outro, por conta da Copa do Mundo de Futebol.  Esta crônica foi publicada em 2012. Segue o trecho:

milton conf

“Construam obras colossais e faturem montanhas de ouro! Superfaturem tudo: desde a demolição até a pintura dos camarotes da CBF e patrocinadores! Joguem no entulho e nos esgotos a céu aberto a dignidade e a esperança do povo brasileiro. Enterrem de uma vez por todas a promessa de cidadania! Caprichem na maquiagem urbana e escondam (pela milésima vez) a miséria brasileira, bem mais antiga que o futebol. E quando a multidão enfurecida cobrar a dignidade que lhe foi roubada, digam com um cinismo vil que se trata de uma massa de baderneiros e terroristas. Digam qualquer mentira, mas aí talvez seja tarde. Ou tarde demais”.

O autor de Dois irmãos foi aplaudido de pé pelos ouvintes e deixou claro que é um intelectual à altura de qualquer outro e de qualquer parte do país. Sabe a que veio e para onde vai. Salve Milton!

Em agosto volta a Manaus para lançar seu mais novo livro de crônicas, chamado Um solitário à espreita.  Sem dúvida, será um outro sucesso. (Farei a resenha/crítica do mesmo e publicaremos em breve).

Sobre o autor: Bruna Chagas

Jornalista. Cursou Letras na Universidade Federal do Amazonas(UFAM). Possui a síndrome da “Era de Ouro” e é apaixonada por filmes clássicos, cinema francês, Literatura e rock and roll. Adora Teatro, Ópera, Arquitetura, Artes plásticas, Moda, Dança e, acima de tudo, ama escrever. Atua em produção cultural e jornalística. É colunista e proprietária do Primeiras Impressões e do site Viva Cultura! Foi colaboradora do Blog 7em1 e Colunista no CineSplendor. Atualmente é Produtora Executiva na Tv Amazonas(afiliada Globo)