nordestino

Este texto foi enviado para mim por um leitor que pediu para não ser identificado.

“Ó xenti! Tô avexado aqui escutando um mundo de gente falar mal de nós, nordestinos, e nos chamando de burros e ignorantes por causa da eleição da Dilma. Então, resolvi pedir desculpas aí para vocês do Sul se nós fizemos algum mal pra vocês. E também tentar justificar o que nós fizemos e pedir a ajuda de vocês pra nos esclarecer…

“Queria contar pra vocês que aqui existe uma coisa chamada seca. É fenômeno da natureza, nós não temos culpa, sabe… Acho que o pessoal de São Paulo, pelo menos, vai entender, não é? Bem, a maior obra contra a seca feita aqui no Nordeste foi no tempo de Dom Pedro II, que mandou construir um açude enorme. Muitos governos passaram, de vários partidos, com presidentes de estados diferentes, mas o que poderia ser feito para pelo menos amenizar o problema, infelizmente, não foi feito. Com isso, sofremos as consequências, já que a falta de água produz pobreza.

“Mesmo assim, conseguimos ter enormes cidades aqui, a maioria delas no litoral. São cidades grandes, cheias de gente, com economia forte. E nossos estados produzem aqui muitas coisas que mandamos para o Brasil todo, inclusive para o Sul – como o petróleo, por exemplo. Temos enormes polos industriais, com as mais variadas indústrias, que empregam a mão de obra dos nordestinos.

“Bem, eu moro no sertão, e aqui na nossa pobreza a gente não podia se dar ao luxo de fazer muitas coisas. Tenho vários filhos, mas eles não podiam estudar, tinham que trabalhar pra ajudar no nosso sustento. Sei que vocês devem estar pensando que nós não devíamos fazer tanto filho, mas aqui a gente tem uns valores diferentes. Talvez a gente pudesse ter uma TV plana bem grande, ou até um carrinho, mas achamos que um filho vale mais que isso. Hoje, vi uma notícia de que a Europa tá sofrendo com o envelhecimento e a diminuição da população. Coisa triste, né? Aqui, a gente não tem esse problema. Sei que é problema de país rico, então, talvez, se um dia a gente for rico, a gente comece a ter menos filhos, sei lá…

“De uns tempos pra cá, as coisas começaram a mudar. Eu continuo trabalhando na lavoura, indo procurar trabalho onde tem, mas meus filhos agora podem estudar, porque a gente recebe uma tal de Bolsa-família que permitiu que a gente pusesse eles na escola. Vocês precisam ver a alegria deles!

“Meu filho mais velho fez o Enem e conseguiu entra numa universidade pública recém-criada aqui, e está indo muito bem. É o nosso orgulho! Meu filho do meio preferiu fazer um curso do Pronatec, está gostando muito, estuda numa faculdade particular sem pagar nada e logo vai se formar.

“Então, a gente sentiu na pele essas mudanças, sabe… A gente não quer esmola não, a gente aqui acha que é obrigação do governo ajudar a gente, fazer isso que chamam de distribuição de renda. E eu vejo muita gente falando mal, dizendo que nós recebemos a “bolsa-esmola” pra ficar vagabundeando. Ôxe! Acho que só fala isso quem nunca passou fome! Esse dinheirinho é o que garante que a gente possa por comida na mesa e ter mais possibilidade de progredir, de procurar um trabalho que nos ajude a fazer alguma economia.

“Bem, tem um povo dizendo que fizemos mal por votar em um partido corrupto. Não sei como é aí no Sul, mas aqui a gente recebe informação. Tem TV e rádio – aliás, as maiores e mais importantes estão nas mãos de algumas poucas famílias e são ligadas a grandes redes aí do Sul. Mas elas mostraram que o outro candidato andou fazendo aeroporto nas terras do tio, tem ligações com um pessoal dono de um helicóptero que caiu com 500 quilos de cocaína… E que desviou muito dinheiro da saúde em Minas, tá até respondendo na Justiça. E a gente aqui sabe que o partido dele já governou o Brasil e esteve envolvido em muitos escândalos, não foi? Pagaram deputados pra garantir a reeleição, fizeram desaparecer bilhões da privatização, um mundo de coisas assim. Então, infelizmente, acho que a gente não tinha uma boa opção, né? E aqui a gente ficou sabendo também que muitos corruptos do PT foram parar na cadeia! Nossa, o povo aqui achou o máximo, porque nunca a gente tinha visto acontecer isso! Então, ficamos aqui achando que tem alguma coisa diferente acontecendo, que agora os peixes gordos estão sendo punidos, o que é novidade! Pode ser que a gente seja burro e ignorante, mas são essas as notícias que chegam aqui, sabe…

“Depois de tantas décadas sem que ninguém olhasse pra nós, sem que nunca fizessem nada por nós, estamos vendo de perto o quanto o governo pode fazer pelos mais pobres. Claro que a gente sabe que é obrigação do governo fazer isso, e que ele até tinha que fazer mais. Mas a gente fica avexado quando ouve alguém dizer que deviam parar de dar esse dinheiro, e que a gente devia aprender a pescar em vez de ganhar o peixe! Nossa, quem fala isso acho que nunca esteve aqui no sertão! Quem tá de barriga vazia não consegue aprender nada, não. E agora, com a garantia da sobrevivência, a gente pode buscar coisa muito melhor do que apenas lutar pra sobreviver. Ninguém quer ficar vagabundeando pra ficar só com o mínimo da sobrevivência, não! Por incrível que parece, a gente é ser humano também, e o ser humano (acho que aí no Sul deve ser igual, né?) quer sempre progredir.

“Então, pessoal aí do Sul, eu digo pra vocês: se a gente fez coisa de burro e ignorante, por favor, esclareça a gente. Nós talvez sejamos burros e ignorantes, mas garanto que não somos enrustidos, não! Se alguém explicar direitinho porque fomos burros e ignorantes ao votar, a gente aprende!”

photo credit: FlávioCosta via photopin cc

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!