Acreditar no teu próprio pensamento

Há apenas duas coisas realmente úteis que aprendi dos seis meses que fiz o curso pré-vestivular, em 1992.

À parte disso, o curso garantiu que eu passasse no exame da Universidade Federal do Paraná e alguns dos professores eram verdadeiros show-men, arrancando gargalhadas da plateia enquanto transmitiam aqueles conhecimentos que seriam esquecidos dali a meses. De qualquer maneira, se o vestibular fosse um sorteio ou uma loteria, na prática, o resultado para a sociedade seria o mesmo e muito possivelmente para os estudantes seria melhor.

Mas voltemos às duas coisas realmente úteis que aprendi.

A primeira foi a respiração quadrada (mais tarde, aprendi que essa respiração acrescida de outros elementos é chamada de chaturanga pránáyáma). Foi ensinada pelo professor Kolb, de matemática. Disse ele que deveríamos usá-la antes de iniciar as provas do vestibular, quando já estivéssemos sentados à mesa para responder às questões. Ela consiste a atribuir um mesmo período, mais ou menos longo, a cada uma das fases da respiração: 4 tempos para inspirar, 4 tempos com os pulmões cheios, 4 tempos para  expirar e 4 tempos com os pulmões vazios.

A segunda foi aprendida através de uma daquelas citações que você encontrava no final de cada um dos capítulos das apostilas.

No caso, era uma citação de Ralph Waldo Emerson, de quem no momento leio o livro Ensaios:

Acreditar no teu próprio pensamento; crer que o que é certo para ti, no teu coração, o é também para todos os homens – isto é o gênio. Expressa tua convicção latente e ela será o juízo universal; pois sempre o mais íntimo se converte no mais externo, e nosso primeiro pensamento nos é devolvido pelas trombetas do Juízo Final. A voz da mente é familiar a cada um; o maior mérito que atribuímos a Moisés, Platão e Mílton é o de terem reduzido a nada livros e tradições, e dito o que pensavam eles próprios, não o que pensavam os homens. Um homem deveria aprender a distinguir e contemplar esse raio de luz que brilha através de sua mente, vindo do interior, melhor que o brilho do firmamento de bardos e sábios. E, no entanto, ele expulsa o seu pensamento, sem lhe dar importância, apenas porque é seu. Em toda obra de gênio, reconhecemos nossos próprios pensamentos rejeitados; são-nos devolvidos com uma certa majestade alienada. As grandes obras de arte não nos oferecem lição mais impressionante do que essa. Elas nos ensinam a aceitar, com bem-humorada inflexibilidade, nossas impressões expontâneas, especialmente quando todo o clamor das vozes esteja do lado oposto. Senão, um estranho dirá amanhã, com magistral bom senso, precisamente aquilo que pensamos e sentimos todo o tempo, e seremos forçados a receber de outrem, envergonhados, nossa própria opinião.

Irônico que essa apologia ao pensamento independente tenha sido um dia encontrada justamente numa das maiores expressões de tudo aquilo que contraria essa ideia: um curso pré-vestibular, que prepara adolescentes como gado para o abate que perdura do sucesso ou não do vestibular até o fim de suas vidas profissionais e aposentadoria; não exatamente através do que ensina, mas principalmente pelo modo como ensina e pela finalidade com que ensina, uma estrutura que representa os ideais mais ultrapassados de auto-realização enganosa.

Mas os cursos pré-vestibulares são apenas uma das muitas instituições aceitas em que essa característica social aparece. É compreensível, no entanto. Parágrafos adiante, no mesmo ensaio, que se denomina A Confiança em Si Próprio, encontramos:

Em todo lugar, a sociedade é uma conspiração contra a virilidade de cada um de seus membros. A sociedade é uma companhia mercantil em que todos os sócios concordam, para melhor assegurar o pão a cada acionista, em empenhar a cultura e a liberdade de quem o come. A virtude mais estimada é a conformidade. A confiança em si próprio é objeto de aversão. (…) Quem seja homem tem de ser inconformado.

Penso que, não é à toa que, ao sair de um curso de terceiro grau, diz-se de uma pessoa que ela está formada. De fato, quase que a totalidade delas entrou em uma forma, adquiriu um formato e não mais se inconforma.

0 resposta para “Acreditar no teu próprio pensamento”

  1. Grande Alessandro,

    Este excerto, "…conspiração contra a virilidade de cada um de seus membros….", explica um insight que tive sobre a quarta norma ética, brahmáchárya, a não dissipação da sexualidade.

    Pensando em latu sensu, a repressão da sexualidade a dissipa e fere, portanto, a norma ética segundo interpretação da Nossa Cultura.

    Ah, queria te recomendar uma extensão para wordpress: Facebook Comments for WordPress, http://we8u.com/facebook-comments/.

    Integrando o Facebook com o WordPress pode arrecadar mais visitas.

    Abraços,

    Lauro

  2. Alessandro Martins disse:

    Boa ideia essa de integração com o Facebook… vou tentar! Abraços!

  3. mathieufr disse:

    Divino, divino!

    Fernanda Mathièu
    @MathieuFernanda http://literaturacafeinada.wordpress.com/

  4. Se precisar de ajuda, pode contar.
    Já fiz no http://Relembre.me.

    Abraços,

    Lauro

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