charlie chaplin tempos modernos

Já nas primeiras páginas de Walden, publicado em 1845 por Henry David Thoreau, que ora começo a ler, encontro estas linhas:

“A maioria dos homens, mesmo neste país relativamente livre, vivem tão ocupados com as falsas preocupações e as lides desnecessariamente pesadas da vida que não consegue colher seus frutos mais delicados. Os dedos, pelo excesso de trabalho, ficam demasiado trôpegos, trêmulos demais para isso. Na verdade, quem trabalha não tem tempo livre para uma autêntica integridade dia a dia; não tem tempo de ser nada além de uma máquina. Como lembrará de sua ignorância- o que é indispensável para crescer – quem precisa usar seu  conhecimento com tanta frequência?”

Um parágrafo adiante, ele continua:

“É muito evidente a vida mesquinha e furtiva de muitos de vocês, pois minha visão se aguçou com a experiência; sempre com as contas no limite, tentando dar início a alguma coisa, entenado dar fim às dívidas, atoleiro muito antigo que os latinos chamavam de aes alienum, o cobre alheio, pois algumas de suas moedas eram feitas de cobre; e assim morrendo, e sendo enterrados por causa desse cobre alheio; sempre prometendo pagar, prometendo pagar, amanhã, e morrendo hoje, endividados; tentando conseguir favores, arranjar clientes, de mil maneiras, exceto crimes que deem cadeia; mentindo, bajulando, agradando, contraindo-se numa casca de civilidade ou expandindo-se numa atmosfera de tênue e vaporosa generosidade, para convencer o vizinho que lhes deixe fazer seus sapatos, ou adoecendo para economizar alguma coisa para uma futura doença, alguma coisa para guardar num baú velho, ou num pé de meia escondido entre os vãos de massa da parede ou em mais segurança, entre os tijolos do prédio de um banco; não importa onde, não importa se muito ou pouco.

Aí já vamos vendo que nos escravizamos por conta das dívidas. O já velho adágio de O Clube da Luta em que o cara arranja um emprego de que não gosta para poder pagar as coisas de que não precisa para impressionar pessoas que não lhe dizem respeito.

Mais um trecho:

Já é ruim ter um capataz do sul; pior é ter um do norte (nota minha: Thoreau era antiescravagista); mas o pior mesmo é quando você é o seu próprio feitor. 

Em seguida, uma das citações mais famosas de Thoreau com as frases, menos conhecidas, que se seguem:

A grande maioria dos homens leva uma vida de calado desespero. O que se chama resignação é desespero confirmado. Da cidade desesperada você vai para o campo desesperado e tem de se consolar com a coragem das martas e dos ratos almiscarados. Um desespero estereotipado, mas inconsciente, se esconde mesmo sob os chamados jogos e prazeres da humanidade. Não há diversão neles, pois esta vem depois da obrigação. Mas uma característica da sabedoria é não fazer coisas desesperadas.

Há mais de 100 anos, Thoreau já diagnosticava a natureza das ocupações humanas na nossa época e nossas desesperadas tentativas de nos divertirmos para compensar os períodos em que deveríamos estar, supostamente, vivos.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!