Quando compartilhei essa tirinha em uma rede social, algumas pessoas – ao serem instadas a comentar – disseram que se tratava de uma alegoria sobre o amor das mães.
Certamente, não conheciam o tipo de humor proposto por Quino com sua genial Mafalda.
Muito antes do surgimento da internet, o cartunista já tinha a percepção de que a educação teria que ir além de seus conteúdos, cada vez mais disponíveis a qualquer um que quisesse acessá-los, de acordo com desejos e necessidades de aprendizado.
Ninguém aprende a ler simplesmente por aprender. Há um desejo por trás do aprendizado. Certamente, o professor deve estar atento a que desejo é esse – sempre diferente em cada aluno – já no momento de ensinar a juntar bê com a.
Mas podemos ir mais longe, como no caso desta palestra:
Se você não estiver com paciência para assistir a quarenta minutos de palestra, o que ela basicamente quer dizer é o seguinte trecho de uma outra palestra dada por Mario Sergio Cortella:
Pensemos em uma criança que entrou este ano na primeira série do Ensino Fundamental no mês de fevereiro, nas redes estaduais ou municipais de ensino, com seis para sete anos de idade para ser alfabetizada por nós. Essa criança que entrou agora, no mês de fevereiro, na primeira série do Ensino Fundamental, que uma parte de nós aqui fez com o nome de primário, uma outra, como ensino de primeiro grau, – atenção! – antes de assistir a qualquer aula nossa, independente da camada social a que ela pertença, já tinha assistido a cinco mil horas de televisão. Calcula-se que uma criança assista em média a três horas de TV por dia, a partir dos dois anos de idade. Isso significa mil horas por ano. Portanto, dos dois até os sete anos de idade, quando ela entra formalmente no nosso sistema para alfabetização, já assistiu a cinco mil horas de televisão. Ela assistiu ao “Discovery”, ao “National Geographic”, viu filme pornográfico e propaganda, assistiu ao noticiário, viu os atentados em Nova York, o juiz do jogo Coréia e Espanha na Copa do Mundo de 2002, viu tudo o que se tem… Aprendeu uma série de coisas do nosso cotidiano. Aí, no primeiro dia de aula, ela entra na escola, senta na nossa sala e fica quietinha, e nós começamos a aula dizendo: “A pata nada.” Quase que ela se levanta e diz assim: “Leve-me ao seu líder!”.
Risos.
Ele continua.
Do que eu estou falando aqui? Estou falando de algo que tem um peso forte no nosso cotidiano. Cuidado, então, professores. Muitas vezes, nós estamos lidando em educação, seja em que nível for, desde o Ensino Fundamental até o de pós-graduação, dizendo: “A pata nada.” A mudança, nessa velocidade, exige de nós alguns requisitos. Também estamos, nessa velocidade, perdendo uma coisa fundamental: a paciência. A vida tem sido uma correria tão grande que a gente não tem mais paciência para conhecer, para aprender, para maturar, para cuidar. Isso exige, até, uma capacidade de olhar o futuro, mas, especialmente, de ter clareza do plano que se deseja seguir. Às citações literárias que o professor Chalita fez, de autores que eu aprecio, gostaria de acrescentar mais um autor nesse rol, que é Lewis Carroll, pseudônimo do grande matemático inglês do século XIX Charles Dodgson e que escreveu uma das obras mais significativas da História Contemporânea, que é Alice no País das Maravilhas. Se você leu, você lembra. Se você leu, leia de novo. Não leu? Leia, porque isso é psicanálise pura, antes do Freud até. Alice está perdida. Parece até com algumas pessoas no campo educacional… Parece que se governa o trabalho pedagógico a partir de algumas coisas de Alice. A história tem duas personagens de que eu gosto demais. Uma é o coelho. Parece a gente: “Tô atrasado. Tô atrasado.” Está sempre olhando para lá e para cá. Mas, tem uma segunda personagem que é magnífica, que é um gato. Aparecem só o sorriso ou só o rabão do gato. Ele fica no alto das coisas. Tem uma hora que Alice está andando por lá, perdida, e de repente vê o gato no alto da árvore. Ela se vira para ele e pergunta: “Você pode me ajudar?” Ele responde: “Claro.” Ela fala: “Pra onde vai essa estrada?” O gato diz (vejam que pergunta inteligente): “Pra onde você quer ir?” Alice responde: “Eu não sei. Estou perdida.” E então o gato conclui: “Pra quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve.”
Num mundo em que muitos dos caminhos (não todos) estão visíveis e acessíveis, um dos papéis da Educação é não fazer as escolhas de que caminhos dentre esses seguir e, sim, ensinar a escolher por conta própria.










