Blog

Há algum tempo venho me sentindo um pouco decepcionado com os blogs e com as redes sociais de um modo geral.

Uma sensação, misto de decepção e desmotivação muito similar à que sentia quando decidi deixar o jornalismo.

Sinto que é hora de mudanças. Talvez já tenha passado da hora até.

Sabe quando você está numa ilha e vê todos os bichos indo para os lugares altos?

Algo, tipo um tsunami ou outro tipo de cataclismo, está para acontecer.

Estou me sentindo assim. Não quero ter que subir em uma árvore insuficientemente grande na última hora.

No tempo em que se amarrava blog com linguiça

Quando eu comecei a editar blogs mais seriamente, por volta de 2005, esta mesma expressão “editar blogs mais seriamente” bastaria para me internarem numa insituição de repouso.

Blogs ainda eram considerados coisa de adolescentes ou de adultos desocupados. Bem, ainda tem gente que me considera um desocupado. Não os culpo. Boa parte do tempo eu pareço desocupado.

Assim, naqueeeeeeele tempo (faz menos de dez anos!) éramos lidos por meia dúzia de amigos que nos conheciam e mais uma outra meia dúzia que ainda não nos conheciam pessoalmente, mas que se identificavam com que escrevíamos.

Alguns desses, eles mesmos tinham blogs. Trocávamos links, discutíamos amistosamente em nossos posts e indicávamos os artigos uns dos outros.

Havia uma proximidade e a proximidade gerava naturalmente, sem forçação de barra, uma certa relevância: éramos relevantes para nossas nêga, usando essa expressão popular.

Você era relevante não porque você era importante de um modo geral, como o Obama, mas porque você era importante de um modo restrito para aquelas pessoas específicas, como o padeiro da esquina.

Você era importante para aquelas pessoas porque era possível desenvolver um diálogo com elas. A autoridade era alicerçada pela familiaridade que havia e porque era discutível, falível até. Era um relacionamento entre pessoas que sabiam que estavam se relacionando com outras pessoas.

Já. Agora. Neste instante

Ao mesmo tempo, a atualidade (no sentido cronológico e imediato da palavra) das informações que você postava não chegava a ser tão relevante.

O que importava era o quanto a importância do que você postava poderia durar e o quanto havia de verdade nela, verdade numa interpretação mais pessoalmente significativa desse substantivo nada absoluto. O agora era, então, mais longo. Aliás o conceito do longo-agora é algo bastante interessante e que deveríamos começar a aplicar.

O agora está cada vez mais curto e as pessoas que frequentam a internet estão obcecadas por se sentirem atualizadas, seja lá o que isso signifique, no sentido imediatista do termo. Obcecadas pelo que não é #old. E o #old está cada vez mais no calcanhar dessa gente toda.

Tudo é #old no instante seguinte

Em 2011 eu participei de um evento de mídias sociais, com público típico desse meio e isso foi a metáfora ao vivo desse fenômeno online. Eu seria mediador de uma mesa redonda da qual participariam pessoas importantes do mundo dos blogs.

Antes mesmo que eu terminasse minha primeira participação já podia ler tweets criticando minha pergunta e até meu modo de vestir! Eu, de repente, me vi #old. Enquanto observava aquela plateia com seus rostos plácidos e inocentes esfregando os dedinhos nas telas de seus tablets e celulares.

Um mês depois, participei de uma edição do TED onde fui ouvido por adultos. Estes, no entanto, interessados em agoras mais longos.

A distância das duas experiências foi gritante: o primeiro grupo dizia “o que você pode fazer por mim, para me entreter, para me atualizar?”; o segundo grupo dizia “o que eu posso fazer para ajudar?”.

Hello, Clarice…

De onde estou olhando – e dizer isso é um tanto temerário já que dizem que o mundo é nosso espelho – vejo pessoas navegando na internet e produzindo conteúdo, mas incapazes de perceber a figura do outro, incapazes de empatia nas mídias sociais e por extensão nos blogs. Começam a agir como psicopatas, ávidos por uma hemorragia de dados irrelevantes.

Basta imaginar que um dos editores de blog mais celebrados dos últimos tempos, foi laureado, agraciado e ovacionado porque hackeou a página de um clube de futebol, plantando a notícia falsa da venda de um atleta. Sinceramente, só isso diz muito dos valores a que tem servido a egrégora das mídias sociais.

Neste momento, passa uma daquelas moitas de cidade fantasma do velho oeste

Aos poucos, os blogs se tornaram cada vez menos uma área de diálogo. Os comentários foram rareando. As interações vão ficando mais utilitaristas e muitos contatos estão esquecendo que estão interagindo com pessoas, incapazes de sequer agradecer uma resposta útil que porventura você envie. Diversos blogs, inclusive, já abriram mão dos comentários, uma área que durante dez anos foi sagrada.

Aí você dirá que a interação migrou para as redes sociais. Pode ser. No entanto, cada vez mais é difícil interagir com público realmente identificado com seus temas nas fan pages do Facebook, para ficarmos em um exemplo. Não vejo nada concreto que diga isso, mas talvez, no futuro, no Google Plus isto mude, mas mesmo o êxito dessa rede é uma incógnita.

O Facebook, ainda por cima, mais do que nunca tornou-se sovina com o direcionamento de links externos. Mesmo uma página com quase 400 mil fãs como a do Livros e Afins têm dificuldade para trazer algumas poucas visitas a partir de lá. Tenho certeza de que não sou o único editor a sentir isso.

Mais uma vez, o Google Plus pode representar uma mudança nesse sentido. Mas, em todo o caso, duvido.

Duvido porque a questão não é a ferramenta. Mas o modo como nos relacionamos.

Mas como a ferramenta faz parte da equação tenho dado início a um plano B através da mudança de ferramentas.

O que estou fazendo

Não pretendo abandonar meus blogs.

Ainda.

Eles ainda são uma fonte enorme de conteúdo para os leitores, de prazer para mim e de remuneração para meu trabalho.

No entanto, fazia tempo que eu não me entusiasmava tanto com algo quanto estou entusiasmado com o lançamento de minha newsletter. Em menos de três semanas já tenho 300 leitores realmente interessados no que eu tenho para dizer. Mesmo com milhares de acessos em meus blogs, não sei se, neles, ainda me dirigo a alguém.

Essas 300 pessoas que assinam a minha newsletter – e estou com uma taxa de abertura e cliques altíssima – são destinatários de fato. Ter um destinatário ajuda em muito na vontade de escrever, na qualidade dos textos. E o mais legal: os leitores respondem. Eles sentem que você está se dirigindo a eles.

Coisa que, nos blogs, não está acontecendo mais, o que gera uma leitura superficial e sem valor, na média.

Escrevi este texto enorme para dizer que minha vontade é que, no futuro, pudesse me comunicar e expressar minhas ideias usando apenas a newsletter (e algumas outras formas estratégicas que estou bolando agora mesmo).

Se você o leu isto tudo até o final e ficou interessado, é você o tipo de leitor que estou procurando para dialogar.

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Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!