momo e o senhor do tempo

Recomendo muito a leitura do livro Momo e o Senhor do Tempo, de Michael Ende. Nele, um grupo de homens cinzentos invadem uma cidade a fim de convencer a todos de que cada pessoa vêm utilizando seu tempo de forma errada.

Se todos focarem no trabalho e em ganhar dinheiro, ao fim (da vida?), terão economizado tempo o suficiente para coisas “supérfluas” como cuidar das pessoas a quem se ama, fazer o que realmente se gosta ou se divertir.

A única que não se deixa contagiar por essa filosofia é a menina Momo que, de repente, se vê sozinha. Mesmo nessas condições, ela não desiste de seu modo de vida “vagabundo”.

Os homens cinzentos então tentam um último golpe contra ela. Presenteiam-na com uma boneca, que será sua grande amiga, caso a aceite. Ela fala, anda, dança, brinca. Faz tudo, mas é um autômato.

Porém, ela tem muitos acessórios e, para comprá-los, Momo precisa dedicar seu tempo a fazer coisas de que não gosta. As roupinhas da boneca, a cozinha da boneca, o carrinho da boneca, o telescópio da boneca (não lembro dos acessórios todos pois não estou com o livro aqui).

Finalmente, ela percebe que todas aquelas coisas são bugigangas de que ela não precisa e que nunca virá a precisar. Que aquelas necessidades de acessórios são apenas uma invenção para que ela precise ceder seu tempo para os homens cinzentos, a fim de adquiri-las. Claro, são revestidas de toda a sedução que os gadgets e acessórios modernos têm.

Essa passagem lembrou-me muito o início do filme O Clube da Luta, quando O Narrador contabiliza os móveis inúteis que vinha comprando para seu apartamento a fim de dizer que ele era alguém: necessidades inventadas (o de que mais lembro é a mesa de café yin-yang). Então ele tinha que trabalhar em algo de que não gostava para ganhar objetos de que não precisava.

Sempre que me dou conta que estou meio vagabundo (um ranço de culpa judaico-cristã talvez) e que deveria ter uma “carreira respeitável”, penso que poderia estar vivendo uma realidade terrível: vendendo meu tempo para os homens cinzentos. E, nessa hora, tiro uma soneca de quinze a trinta minutos antes de escrever um texto como este.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!