Publicado em 1956, O Encontro Marcado se tornou um reflexo imediato de toda uma geração torturada. A história acontece na década de 40, em Belo Horizonte. Causou uma identificação notória em muitos jovens, pois apresenta ideias nostalgicamente modernistas e também explora a miséria humana, o que essa geração bem compreendia pois vivenciou o período da Grande Guerra. O livro acabou tornando-se portanto muito popular e comentado na época. Fez tamanho sucesso que tem edições no exterior e foi também adaptado para o teatro.

O livro é marcado por profundas reflexões políticas, ideológicas, psicanalíticas, religiosas e existencialistas. Diálogos com pessoas que aparecem e somem da vida de Eduardo refletem diferentes facetas da mesma moeda. Além, é claro, dos pensamentos do mesmo, que são sempre repletos de dolorosas conclusões sobre tudo de abstrato que o cerca. Valores e instituições são questionados. Tudo aquilo que se mostra sólido e consistente começa a desmanchar aos olhos do leitor.

Acompanha-se a história de Eduardo Marciano desde a infância até a fase adulta. Ainda criança Eduardo tem contato com o suicídio de um amigo e vizinho, Jadir, o que desencadeia uma série de reflexões precoces. Um rapaz muito sensível, acha demasiado cruel viver. Mas segue. A literatura o conquista e apaixonado pela mesma Eduardo decide ser um escritor. As amizades dele são muito exploradas e acontecem interessantes discussões na adolescência entre Mauro, Hugo e o mesmo.

“Tema habitual de Hugo: o efêmero da existência. Nada valia nada, tudo precário, equívoco, contraditório. Vinha escrevendo um livro, uma espécie de ensaio poético, em que procurava traduzir a inutilidade das coisas. Era a palavra-chave, bastava dizer, a certa altura, com um suspiro de desalento: “mas que cooooisa!” e a angústia baixava logo as negras asas sobre os três. “Angústia? Mal sabiamos com que estávamos brincando” diria cada um para si mesmo anos mais tarde.”

“Tema habitual de Mauro: a incidência no tempo e no espaço: a inexorabilidade do fortuito na vida de cada um. Seu pai jamais encontrara com sua mãe. Ele próprio nascera cem anos atrás. Cada gesto, cada palavra, cada pensamento seu refletia-se nos outros, alterava-lhes a vida, comandava-lhes o destino. Ali, sentado no banco da praça, ele estava por uma série de relações ou ilações (gostava dessa palavra) negativas, alterando o curso das coisas, talvez o curso da guerra.”

“Tema habitual de Eduardo: o tempo em face da eternidade. Caminhamos para a morte. O futuro se converte, a cada instante, em passado. O presente não existe. Vivemos a morte desde o nascimento.”

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Existe muito do próprio Fernando Sabino em Eduardo e também traços de outros dos quatro cavaleiros do apocalipse. Intelectuais belo-horizontinos, os cavaleiros eram compostos por: Fernando Sabino, Otto Lara Resende (Hugo), Hélio Peregrino (Mauro) e Paulo Mendes Campos.

Uma mulher, Antonieta, captura o coração de Eduardo. Mas ela é filha de um ministro, o que forma um abismo entre os dois. Terminam o namoro, mas ele sente-se muito triste com a perda e vai procurá-la no Rio de Janeiro, onde ela mora. Hospedado no Hotel Elite, Eduardo tem um segundo contato com a morte que seduz um ser humano. O suícidio de uma mulher, que aparentemente subiu ao lado dele no elevador, o acompanha por toda a história. Eduardo chega a ser insinuado por outros como assassino dessa mulher. Antonieta e o mesmo reatam o namoro.

Antonieta casa-se com Eduardo e este  torna-se um adulto, é perceptível no passar das páginas a amargura gelada que toma conta do personagem. Este torna-se ainda mais perdido, procurando-se em traições passageiras e em porres noturnos. Tem um novo círculo de amigos e são outras as ideias. É frustrado porque não consegue escrever um romance. Chora muito. Tem pensamentos filosóficos acompanhados de cigarros intermináveis. O fim o poço, o fim. Eduardo não consegue ficar bem com Antonieta, o sentimento que reina sobre o lar dos dois é a tolerância. Ele é centrado demais em si mesmo, e tem sempre desculpas para não ficar bem com a mulher.

Antonieta, cansada da falta de perspectiva do marido deixa-o. O que entristece profundamente Eduardo. A vida do mesmo torna-se um furacão, os pensamentos são os piores inimigos que ele poderia ter. A solidão o abraça e os olhos do mesmo permanecem marejados. Chega mesmo a flertar com a morte.

Aos poucos Eduardo torna-se mais maduro e sente-se um pouco mais seguro. Diminui a busca amaldiçoada por si mesmo e aceita o seu ser sem tanta fúria e depressão. “Não és bom nem mau, és triste e humano.” Sem adrenalina, Eduardo passa a viver mais tranquilamente. Aceita a vida como ela se expõe, e apesar de não sentir-se feliz, já não sofre daquela febre juvenil que o impelia a abismos. Resigna-se. Segue em frente. Viaja a procura de si mesmo e apesar de não encontrar-se completamente, passa a conhecer-se um pouco mais.

A última fase de Eduardo no livro, a aceitação, talvez seja o que tanto seduz os contemporâneos da história a apaixonarem-se por ela. O calor da juventude que esfria ano a ano e que afinal seca talvez remeta a muitos a lembrança de seus próprios sonhos abandonados. Tudo isso poderia ter-se passado não somente na cabeça de Sabino, mas na sala da minha própria casa ou com alguém que estudou com você na escola. O personagem principal é tão humano que é impossível não reconhecer-se nele, independentemente da época ou lugar os questionamentos serão sempre os mesmos. A fome de vida da juventude será sempre a mesma. A dor, a solidão, a frustração e a paixão nunca serão demodê. Vale a pena arriscar-se a mergulhar nessas páginas, pois você poderá deparar-se com muitas partes da sua própria personalidade perdidas nesse mar.

Sobre o autor: Ingrid Galboni

Mineira. 18 anos. Estudante de filosofia. Em constante valsa com a vida. Profundamente apaixonada por livros e café. Colecionadora de borboletas, envelopes e outros tesouros. Desenhista. Escreve em busca de si mesma, sabe que está perdida em algum parêntese ou metáfora.