viajar com pouca bagagem

Esta passagem de Walden, livro de Thoreau, bem poderia ser interpretado metaforicamente, mas certamente a interpretação primeira é a literal, que fala do quanto carregamos de peso, físico mesmo, em nossas vidas, representado pelas coisas úteis e inúteis que compramos ao longo da vida e das quais não conseguimos nos desfazer.

Que dizer, então, das coisas imateriais, estas cujo processo de desapego é ainda mais difícil, sutil e cheio de armadilhas?

Se você é observador, sempre que encontrar um homem você verá que tudo o que ele tem, coitado, e muito do que finge não ter, vai se arrastando atrás dele, até seus utensílios de cozinha e todos os trastes que ele guarda e não queimará, e o sujeito vai parecer atrelado àquilo, avançando a duras penas. Digo que o homem fica entalado quando ele passa por uma fresta ou por um portão, e a carga com a mobília não consegue passar. Não consigo deixar de sentir dó quando ouço algum homem de ar asseado e composto, aparentemente livre, todo lépido e animado, falando de sua ‘mobília’ como se estivesse ou não estivesse no seguro. ‘Mas o que vou fazer com minha mobília?’ E eis aí minha alegre borboleta emaranhada numa teia de aranha. Mesmo aqueles que faz tempo que parecem não ter nenhum móvel, se você indagar um pouco mais, vai descobrir que têm alguma coisa guardada no celeiro de alguém. Vejo a Inglaterra de hoje como um velho cavalheiro viajando com uma montanha de bagagens, quinquilharias que acumulou em muitos anos de casa e não tem coragem de queimar; mala grande, mala pequena, chapeleira, pacote. Jogue fora pelo menos os três primeiros. Hoje em dia, ultrapassaria as forças de um homem sadio levantar a cama e sair andando, e com certeza aconselho ao doente que deixe a cama e saia correndo. Quando encontrei um imigrante cambaleando sob uma trouxa que trazia tudo o que tinha – parecendo um cisto que lhe havia crescido na nuca -, fiquei com pena dele, não porque era tudo o que tinha, mas porque tinha tudo aquilo para carregar. Se eu tiver de arrastar a armadilha de meus pertences, vou cuidar que seja leve e não me belisque numa parte vital. Mas talvez seja mais sábio nunca pôr a pata nela.

Impossível não lembrar desta cena do filme Labirinto:

Quer viajar com menos bagagem? É possível. Veja este post da Claudia Regina: viajar sem bagagem.

Leia também: minhas coisas cabem em duas caixas.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!