Viagens de Gulliver: vendo as coisas sob uma outra perspectiva

Quando o Paulo esteve em Curitiba pudemos conversar durante algumas horas na Pote de Mel. Um dos assuntos foi, entre muitas outras coisas bem mais divertidas que isso, qual seria afinal a importância da literatura, sobretudo da ficção.

Engraçado isso de desde sempre convivermos com livros e um tema como esse ainda assim vir à baila. De fato, certos temas são inesgotáveis.

Ele contou-me que, na formatura do mestrado da Paula, um dos professores fez um discurso inspirador sobre literatura, concluindo que a ficção serve para nos dar a visão que o outro tem do mundo. Para nos colocar, de certo modo, nas sandálias que pertencem a pés que não os nossos.

Não a visão certa, não a visão errada. Não uma verdade. Apenas isso: a experiência do outro.

É algo modesto e ambicioso a um só tempo.

Modesto porque não se propõe a solucionar o Universo e dar sentido à vida.

E ambicioso porque relatar a experiência alheia exige uma compreensão do alheio. Algo quase sobre-humano a que o escritor se propõe.

Quanto menos de si e mais dos seus semelhantes ele coloca em sua obra, mais se arrisca, mais aposta e mais podemos ganhar caso seja bem-sucedido.

O engraçado é que mesmo a aplicação literal dessa idéia, a de ver as coisas sob outro ângulo – digo, geometricamente – pode dar resultado. E o livro Viagens de Gulliver, de Swift, é uma prova disso. Bastou reduzir o tamanho físico dos personagens em relação ao protagonista para que autor apresentasse coisas tão cotidianas de uma forma que somos incapazes de perceber.

Por exemplo, como os dois liliputeanos interpretaram o relógio do invasor de sua terra ao revistá-lo:

Do bolso direito do cinto pendia grande corrente de prata, com uma espécie maravilhosa de engenho na ponta. Ordenamos-lhe que tirasse para fora o que quer que houvesse na extremidade da corente; parecia ser um globo, metade feito de prata  metade de algum metal transparente; pois do lado transparente vimos caracteres estranhos traçados circularmente, e julgamos poder tocá-los até verificarmos que os nossos dedos eram detidos pela substância lúcida. Ele aproximou dos nossos ouvidos o engenho, que fazia um ruído incessante, como o de uma azenha; e supomos que seja algum animal desconhecido, ou o deus que ele adora: propendemos mais, todavia, para a última opinião, porque nos assegurou que raro fazia alguma coisa sem o consultar.

O tema de mudança de tamanho ou da diferença de tamanho é recorrente na literatura. Posso lembrar agora de Alice no País das Maravilhas – em que a personagem quase se afoga nas próprias lágrimas – ou ainda das lendas do Rei Arthur, que se vê transformado por Merlin em seres de diversas magnitudes e naturezas para melhor compreender o reino que governará. Mas certamente há muitos outros exemplos.

Postado em Livros e Afins.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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