Na semana passada a Câmara Brasileira do Livro divulgou os vencedores das 29 categorias do 54º Prêmio Jabuti (confira a lista clicando aqui).

A premiação final será no dia 28 de novembro. Dessa lista de vencedores divulgada essa semana, os segundo e terceiro colocados de cada categoria receberão um troféu do Prêmio Jabuti. O primeiro colocado de cada categoria receberá, além do troféu do Prêmio, um prêmio de R$ 3.500,00. E os primeiros colocados têm ainda a chance de ganharem como “Livro do Ano Ficção” (à qual concorrem os primeiros colocados das categorias Romance, Contos e Crônicas, Poesia, Infantil e Juvenil) ou como “Livro do Ano Não Ficção” (à qual concorrem os primeiros colocados das demais categorias – excetuando-se as categorias ligadas à produção do livro, como Capa, Ilustração e Tradução, por exemplo).

(O Prêmio Jabuti é o principal prêmio literário do Brasil e teve a sua primeira edição em 1959 e o vencedor da categoria Romance (que sempre foi, inegavelmente, a principal categoria do Prêmio) foi o livro “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado. Ao longo de suas edições, o Prêmio, claro, sofreu diversas mudanças. Mas infelizmente talvez seja possível resumir essas mudanças à mera ampliação do número de categorias, que já são quase 30.)

Então vamos à polêmica

Em cada categoria os livros são avaliados por três jurados, A, B e C, que dão notas de 0 a 10 (com fracionamento de 0,5). Então a partir da soma (ou da média, o que tem o mesmo efeito) dessas notas temos os vencedores. Na categoria Romance os quesitos que os jurados avaliam são: enredo, construção de personagens e estilo. Como são apenas três jurados, um deles pode manipular o resultado – e foi o que aconteceu.

O vencedor da categoria Romance desse ano foi o livro “Nihonjin”, do paranaense estreante Oscar Nakasato. O jurado C (cujo nome será divulgado somente no dia da premiação, 28 de novembro, bem como os nomes dos outros jurados, conforme prevê o regulamento) distribuiu algumas notas 0 para alguns livros, enquanto deu nota 10 para outros. Com isso, Nakasato foi um dos “beneficiados”.

De acordo com essa matéria, do blog Prosa, esse jurado C deu notas entre 0 e 1,5 para cinco dos dez finalistas. Para ver como ele manipulou o resultado, basta ver as notas atribuídas ao livro “Infâmia”, de Ana Maria Machado, que era um dos favoritos ao prêmio. As suas nove notas foram: 10, 10 e 10, de um jurado; 10, 10 e 9,5, de outro jurado; 0, 0 e 0,5 do jurado C. Os livros de Wilson Bueno e Domingos Pellegrini também receberam notas baixíssimas – deixando claro que esse jurado deu boas notas a livros de novos e ainda desconhecidos escritores em detrimento de escritores já consagrados da literatura nacional.

 Repercussão e possíveis mudanças

O curador do Prêmio, José Luiz Goldfarb, descartou a possibilidade de anulação do prêmio. “Não me senti confortável em questionar o voto do jurado C após a apuração. Se crio uma regra e dou a ele as cédulas para votar, não posso questionar a soberania de um voto feito dentro do regulamento. Dar as notas que bem entender é um direito do jurado, ainda que como curador eu não concorde com a estratégia que ele adotou. Não considero o jurado C adequado ao prêmio, ele usou uma falha minha e abusou do poder que tinha. Vou reavaliar sua participação. Mas não posso mudar o resultado. Ele é inquestionável e não pode ser anulado.”, declarou.

Ana Maria Machado disse: “O único que posso dizer é que o grande julgamento é do leitor. É ele que sabe se gosta ou não do personagem. Um jurado é um leitor com poder neste momento, mas é só mais um leitor.”.

Se até o ano passado as notas dadas variavam entre 8 e 10, esse ano o regulamento mudou, permitindo aos jurados darem notas entre 0 e 10. De acordo com José Luiz Goldfarb, a próxima edição deve ter mudanças para evitar problemas como este – que não ocorreu pela primeira vez. A organização tem ainda alguns meses para quebrar a cabeça para encontrar uma maneira melhor de se definir os vencedores. Entre as possibilidades que serão avaliadas estão: a volta do sistema anterior, com notas de 8 a 10 (o que na prática não muda muita coisa, pois ainda permite a um jurado manipular o resultado); ou mesmo a inclusão de um quarto jurado e a exclusão da nota mais baixa (fórmula adotada, por exemplo, para se definir as escolas campeãs dos desfiles de Carnaval).

Histórico recente

Ao longo das edições do Jabuti várias polêmicas já ocorreram com relação aos vencedores: desde influência política determinando a premiação (ou a não-premiação) de determinados escritores até premiações duvidosas, porém permitidas pelo regulamento.

Em 2010, a editora Record chegou a anunciar que não participaria mais do Prêmio Jabuti. O problema apontado pela editora dizia respeito aos critérios para a escolha do Livro do Ano Ficção. Na edição daquele ano o Livro do Ano foi “Leite Derramado”, de Chico Buarque, que havia ficado em segundo lugar na categoria Romance. O problema já havia ocorrido em 2004 e também com Chico Buarque, que venceu o Livro do Ano com “Budapeste”, apesar de nem mesmo ter sido o vencedor da sua categoria. E em 2008 o livro “O Menino Que Vendia Palavras”, de Ignácio de Loyola Brandão, segundo colocado da categoria Infantil, foi considerado o Livro do Ano, desbancando o favoritíssimo “O Filho Eterno”, de Cristovão Tezza, vencedor da categoria Romance.

Em função desses resultados, a partir da edição de 2011 somente o vencedor de cada categoria passou a poder concorrer ao prêmio de Livro do Ano.

 

Mas… e o “Nihonjin”?

Oscar Nakasato é Professor de Literatura e Linguagem na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), em regime de dedicação exclusiva. Tem formação acadêmica (Doutorado em Literatura Brasileira) e até então tinha experiência apenas com poesias e contos. Somente há poucos anos decidiu ir para o caminho dos romances. Escreveu então o livro “Nihonjin”.

Conforme ele disse em uma entrevista para o jornal O Diário, ao terminar de escrever o livro, em 2007, Nakasato o enviou para as 12 principais editoras brasileiras. Foi rejeitado por todas. Nakasato o inscreveu no Prêmio SESC de Literatura e também no Prêmio São Paulo de Literatura. Não obteve sucesso em ambos.

Então surgiu o Prêmio Benvirá. A editora Benvirá faz parte do Grupo Saraiva e o Prêmio teve a sua primeira edição em 2011. A inscrição é aberta para textos que sejam inéditos (ainda não editados e não publicados). E logo na primeira edição foram 1932 textos inscritos. A equipe de editores da Benvirá chegou a 130 textos aprovados após a primeira leitura. Após nova análise, 30 textos. E três editores tiveram o trabalho de selecionar ainda mais, chegando a uma lista final com 10 textos. Essa lista final foi julgada pela comissão formada por José Luiz Goldfarb (sim, ele mesmo, o curador do Prêmio Jabuti), Nelson de Oliveira e Ana Maria Martins e, por unanimidade, o livro de Nakasato foi o vencedor do Prêmio, sendo, em seguida, publicado pela Editora Saraiva, com o selo Benvirá.

Após conseguir finalmente publicar “Nihonjin”, Oscar Nakasato o inscreveu para o Prêmio Jabuti. Em meio a tantos nomes já conhecidos pelo público, ele ficou entre os dez finalistas da categoria Romance e foi, semana passada, enfim anunciado como o grande vencedor. Ele pretende continuar dando as suas aulas normalmente e já está escrevendo o seu segundo romance.

Sobre o autor: Raul Maciel

Estudo Ciências Econômicas e não descobri qual é o meu grande talento (sim, ainda espero ter algum). Cheiro livros, jogo futebol e gosto do ponto e vírgula; ainda que não saiba utilizá-lo. Andando sozinho me policio para não pisar nas linhas da calçada enquanto penso em alguma coisa sobre coisa nenhuma.