Acordo Ortográfico em tempos de variedade ortográfica: vai dar certo?

Pela primeira vez na história, teremos a chance de acompanhar uma mudança oficial na ortografia do Português que não será obedecida pela maior parte dos produtores da língua escrita.

Em outras épocas, víamos os propagadores da palavra escrita – jornais, editoras de livros e revistas – rapidamente se adaptando às mudanças. E isso, de certo modo, sacralizava e aplicava o que então estava na lei.

E, nessas outras épocas, eram esses os maiores usuários da língua escrita, produzindo tudo o que era lido e, portanto, a norma culta ou algo próximo dela era absorvido com maior vazão. Assim, a expressão da palavra no papel, na maior parte das vezes, era usada através dessa norma culta.

No entanto, a internet ao mesmo tempo em que resgatou a palavra escrita no uso das pessoas comuns – antes dela a cultura estava se tornando ágrafa, como observa o professor Cristóvão Tezza – também a desinformalizou. A variação linguística que se observa na língua falada agora se observa na língua escrita.

Naturalmente, a forma oficial de escrever da Língua Portuguesa – a norma culta – será a adotada em ocasiões e documentos formais (como já é), a exemplo do que acontece na fala. Mas ignorar as outras formas de expressão poderá levar ao que os estudiosos dessa área chamam de preconceito linguistico, que também já acontece na fala. Ignorar que essas e outras formas de expressão escrita surgem e surgirão – e se desenvolverão naturalmente – é, mais que isso, tolice. Algo como tapar o sol com a peneira.

Afinal, hoje, a maior parte dos propagadores da língua escrita não fazem parte de órgãos oficiais. Eles não estão digitando uma circular para o escritório ou produzindo um livro ou uma página de jornal: estão sim nos programas de mensagens instantâneas, nos blogs, nos orkuts, escrevendo como bem entendem e da maneira que consideram mais prática e rápida para passar a sua mensagem.

E isso não vai mudar. O que vai mudar, inevitavelmente, é a língua e a sua dinâmica: pois assim como eu não costumava escutar os discursos de Rui Barbosa quando criança, mas a conversa interessante do homem de quem meu avô comprava batatas, mais das vezes as pessoas leem aqueles que lhes são próximos, por interesse e identificação. Língua é identidade, afinal.

Conversando com alguns amigos neste fim de semana, chegamos à conclusão que há pouco tínhamos algumas pessoas que escreviam dentro da norma culta (não sem algum esforço e numerosos erros) e aquelas que não. Depois do acordo ortográfico, subitamente, todos nós que escrevíamos desse modo ligeiramente correto, subitamente nos vimos passar para o outro grupo.

De repente, quase ninguém mais escreve na norma culta no que diz respeito à ortografia. Como disse alguém, toda mudança na língua é feita para as próximas gerações. E a julgar pela variedade ortográfica que hoje temos na internet, possivelmente, nem para elas.

Postado em Educação.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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