Acordo Ortográfico em tempos de variedade ortográfica: vai dar certo?
6 de janeiro de 2009 | Publicado na Categoria Educação | 6 Comentários »Pela primeira vez na história, teremos a chance de acompanhar uma mudança oficial na ortografia do Português que não será obedecida pela maior parte dos produtores da língua escrita.
Em outras épocas, víamos os propagadores da palavra escrita – jornais, editoras de livros e revistas – rapidamente se adaptando às mudanças. E isso, de certo modo, sacralizava e aplicava o que então estava na lei.
E, nessas outras épocas, eram esses os maiores usuários da língua escrita, produzindo tudo o que era lido e, portanto, a norma culta ou algo próximo dela era absorvido com maior vazão. Assim, a expressão da palavra no papel, na maior parte das vezes, era usada através dessa norma culta.
No entanto, a internet ao mesmo tempo em que resgatou a palavra escrita no uso das pessoas comuns – antes dela a cultura estava se tornando ágrafa, como observa o professor Cristóvão Tezza – também a desinformalizou. A variação linguística que se observa na língua falada agora se observa na língua escrita.
- Em um rápido artigo, Mario Amaya destrincha 5 formas ortográficas ainda não oficialmente codificadas
Naturalmente, a forma oficial de escrever da Língua Portuguesa – a norma culta – será a adotada em ocasiões e documentos formais (como já é), a exemplo do que acontece na fala. Mas ignorar as outras formas de expressão poderá levar ao que os estudiosos dessa área chamam de preconceito linguistico, que também já acontece na fala. Ignorar que essas e outras formas de expressão escrita surgem e surgirão – e se desenvolverão naturalmente – é, mais que isso, tolice. Algo como tapar o sol com a peneira.
Afinal, hoje, a maior parte dos propagadores da língua escrita não fazem parte de órgãos oficiais. Eles não estão digitando uma circular para o escritório ou produzindo um livro ou uma página de jornal: estão sim nos programas de mensagens instantâneas, nos blogs, nos orkuts, escrevendo como bem entendem e da maneira que consideram mais prática e rápida para passar a sua mensagem.
E isso não vai mudar. O que vai mudar, inevitavelmente, é a língua e a sua dinâmica: pois assim como eu não costumava escutar os discursos de Rui Barbosa quando criança, mas a conversa interessante do homem de quem meu avô comprava batatas, mais das vezes as pessoas leem aqueles que lhes são próximos, por interesse e identificação. Língua é identidade, afinal.
Conversando com alguns amigos neste fim de semana, chegamos à conclusão que há pouco tínhamos algumas pessoas que escreviam dentro da norma culta (não sem algum esforço e numerosos erros) e aquelas que não. Depois do acordo ortográfico, subitamente, todos nós que escrevíamos desse modo ligeiramente correto, subitamente nos vimos passar para o outro grupo.
De repente, quase ninguém mais escreve na norma culta no que diz respeito à ortografia. Como disse alguém, toda mudança na língua é feita para as próximas gerações. E a julgar pela variedade ortográfica que hoje temos na internet, possivelmente, nem para elas.

isso mesmo, Alessandro. sempre que os “donos” da língua aprontam uma das suas, é bom lembrar que a norma culta é apenas uma das partes da língua, e não sua totalidade. ainda bem.
abs.
olá
gostaria q vc revelasse quais livros te marcaram em 2008, talvez os Top5. o q me diz?
1 abraço
“Depois do acordo ortográfico, subitamente, todos nós que escrevíamos desse modo ligeiramente correto, subitamente nos vimos passar para o outro grupo.”
Exatamente. É engraçado admitir mas meu orgulho foi ferido por causa disso… rs… apesar da vontade de dizer “eu estudei por anos para saber escrever assim, não faz sentido mudar agora” vou me conformar com a possibilidade de estar vivendo algo relativamente “histórico”… xD
Mas assim como minha vó escrevia êles eu vou escrever idéia, isso é fato.
Isso me lembrou Marcos Bagno…
JLM,
confesso que tenho uma certa dificuldade de fazer esse tipo de lista. Não sou tão sistemático e, como só leio o que gosto, fica complicado. Pelo menos eu acho…
Abraços do Alessandro.
Daniel,
no mais, por mais que eu esteja esperneando, acho que a melhor coisa é se adaptar… acho que vou fazer isso aos poucos, num ritmo bem orgânico.
Abraços!