Tenho conta no Twitter, mas desde antes já acompanhava, seguia os pensamentos de uma ou outra pessoa que tem algo pra falar. Claro, quanto mais se fala maior o risco de se dizer alguma bobagem. No que diz respeito aos livros eletrônicos, indepentende de qual seja a plataforma – e-readers ou tablets – normalmente é Umberto Eco que está a frente do ranking de besteiras ditas. Vargas Llosa, entretanto, deu mostras de que quer se empenhar em tomar a vaga do colega italiano. Leiam a inspiração desta entrada aqui.

Vargas Llosa e a banalização da literatura

Extraído do curto texto, logo no começo temos:

O escritor peruano Mario Vargas Llosa acredita que a literatura criada “diretamente para os tablets” pagará o mesmo preço que a televisão, pois se banalizará e cairá na frivolidade.

Eu me pergunto o que ele quer dizer por banalização da literatura. Se ele quis dizer “ter mais pessoas lendo”, como isso pode ser ruim? Mas não, posso estar a distorcer palavras, como ainda semana passada disseram que faço: pode ser que ele tenha pensado em textos piores sendo escritos, por causa da escolha da plataforma.

Pode ser que e, a isso, só consigo dizer: – “Por favor, né?”

Afinal, não precisamos de tablets pra que sejam publicados textos ruins, não; tampouco pode se dizer que estes não têm seu valor para quem o lê.

Tem mais.

Ao contrário do que dizem “com tanta certeza os defensores do livro eletrônico”, o escritor peruano não acredita que “o suporte seja insensível ao conteúdo”.

Ok, vamos voltar ao tempo dos escribas. Esse é o tipo de argumento que permite que qualquer um seja tão chato quanto queira; não se pode dizer o mesmo do livro produzido em série, industrializado? E por acaso também no tempo dos escribas o livro não era um artigo de luxo justamente porque era tão difícil colocar as mãos em um? Evidentemente que um livro bonito tende a estimular a leitura mas, por outro lado, também tende a estimular o fetiche pelo pacote, tornando quem o tem em mãos em uma pessoa insensível ao real conteúdo. A menos que você goste de livros com desenhos, mas acho que se está me lendo é porque passamos dessa fase (ou quase, sou doido por quadrinhos, mas quadrinhos não são livros). Pois é, até meu argumento pode soar falacioso, então vamos ao que importa deste trecho: leia, independente do suporte do texto.

“Por que a televisão banalizou tanto os conteúdos, quando é um instrumento extraordinário para chegar a grandes públicos, mas foi incapaz de se transformar em um transmissor de grandes ideias, de grande arte ou literatura?”

A literatura, caro pensador, é a arte da palavra. Quando a TV nasceu, a palavra já era apenas pequena parte de sua expressão, porque só aparecia de quando em quando, escrita, em filmes mudos. TV, cinema, é movimento de imagem.

Vargas Llosa disse não se opor ao entretenimento e afirmou existir boas séries televisivas, “mas ler (Marcel) Proust ou (James) Joyce não é o mesmo que assistir a uma série”.

Pretendo parar por aqui (ufa), mas separar a suposta alta cultura do entretenimento é dos golpes mais baixos e feios que existem. Eu conheço um bocado de pessoas que se entretêem através de bons livros, bons filmes. Perguntem ao @dfregolente, por exemplo, se acaso ele não saiu da sessão de O Anticristo entretetido (e angustiado). E, de qualquer forma, que raios de comparação é essa: séries televisivas x clássicos da literatura?? Trocou as bolas e deixou claro ignorar que alguns clássicos da literatura foram escritos principalmente para entreter, sendo publicados em jornais – e não diretamente em formato de livro.

Em suma: deixa o preconceito de lado, vai lá e experimenta ler em um tablet ou e-reader e depois volta aqui, pra opinar. Afinal, e discorde de mim (por favor), livro não é chapéu pra ter que ser bonito.

É o texto que a gente leva pra vida inteira.

Sobre o autor: Otávio Dias

Velho, implicante, desvairado: concordância nominal não é prioridade de minha pessoa. Tampouco o é sacar meandros da língua; desvendar