Use o telefone público como um mafioso

Duas coisas são certas nessa vida. Garotos e garotas adoram brincadeiras com códigos e mafiosos sempre detestaram vândalos que destroem telefones públicos.

Quanto à primeira afirmação, aí está a língua do pê que não me deixa mentir.

Quanto à segunda, recorro ao livro Honrados Mafiosos, de Gay Talese, do qual falei recentemente. Para fugir dos telefones grampeados, os mafiosos recorriam a um interessante expediente.

Possibilitara ao velho Bonanno, por exemplo, utilizar o telefone de sua casa, que era censurado, para ligar para a casa de seu filho, cujo telefone também era censurado, e travar com ele conversa muito familiar em dialeto siciliano na qual inseria dois números que indicavam que desejava falar em particular com ele. O primeiro número indicava o local da cabina aonde Bill deveria ir, e o segundo estabelecia a hora em que ele deveria estar lá. Então, pouco antes da hora marcada, Joseph Bonanno ia a uma cabina, discava para o filho na outra cabina e conversavam livremente, sem se preocuparem com censuras.

Quando Bonanno foi raptado, por exemplo, o filho lembrou que fora instruído pelo pai a comparecer em uma determinada cabina, toda quinta-feira, às oito horas, até que ele entrasse – um dia – em contato. A tática, de fato, teve utilidade a certa altura.

Por isso, meus caros vândalos – caso algum leia este blog -, antes de quebrarem um orelhão pensem que você pode estar comprando briga com gente graúda.

O bom funcionamento de cabinas públicas era de importância vital para ele e os outros homens, e Bill sabia o quanto, vez por outra, eles ficavam furiosos com telefones enguiçados e como juravam vingança contra os vândalos que estragavam os telefones públicos. Sempre que descobriam um aparelho que estivesse mudo, avisavam à companhia telefônica e mais tarde voltavam à cabina para verificar se o aparelho havia sido consertado, e para ter certeza de que o número não fora mudado. Se tivesse, anotavam o novo número numa lista particular que guardavam nos carros – contendo não só os números dos telefones e as localizações das cabinas, como também um número de identificação que distinguia uma cabina da outra.

Lembro de uma série muito bacana da década de 80 chamada Stingray. O camarada, um sujeito misterioso, ajudava as pessoas. Ao ajudá-las, elas ficavam devendo favores que ele utilizava para ajudar outras pessoas. Em cada episódio ele ajudava alguém com o favor devido por outro personagem, além de usar suas impressionantes habilidades de sujeito misterioso. Uma delas era ter decorado um livro inteiro. Assim, a mocinha para se comunicar com ele precisaria apenas dizer várias seqüências de dois números, um que correspondia à página do livro e o outro que correspondia ao número de ordem da palavra na página. Ainda que o telefone estivesse grampeado, ninguém entenderia nada a não ser que tivesse o mesmo livro que ela.

Por que estou falando sobre todas essas coisas? Sei lá. Primeiro porque garotos e garotas adoram brincadeiras com códigos. Aí está a língua do pê que não me deixa mentir. E segundo porque nunca se sabe quando o telefone de sua casa estará grampeado. Um dia desses, ainda que de brincadeira, essas coisas poderão ser úteis.

Postado em Livros e Afins.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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