Uma boa razão para o acordo ortográfico e por que ele é mal feito

O leitor Ricardo Diogo, voluntário do projeto Gutenberg, deu um bom motivo para as mudanças advindas do acordo ortográfico firmado entre os países falantes da Língua Portuguesa e que devem acontecer em 2008. Mas um motivo para que elas fossem, ao menos, bem feitas.

O projeto Gutenberg, caso você ainda não o conheça, coloca online livros que já entraram em domínio público em diversas línguas para os leitores baixarem gratuitamente.

Com a palavra, Ricardo Diogo:

Sou voluntário do Project Gutenberg (www.gutenberg.org/pt) no qual, por questões de direitos autorais, apenas podemos utilizar edições anteriores a 1923. A ortografia de então é, em muitos casos, absolutamente diferente da moderna e temos de a a[c]tualizar.

Um Português uniforme permitiria poupar horas de trabalho pois deixaria de ser necessário fazer uma versão Brasileira e outra Portuguesa dos ebooks.

O Acordo Ortográfico facilita, mas está longe de ser perfeito (muito longe!). Vão manter-se as diferenças, por exemplo: académico/acadêmico, anatómico/anatômico, cénico/cênico, cómodo/cômodo, fenómeno/fenômeno, género/gênero, topónimo/topônimo, Amazónia/Amazônia, António/Antônio, blasfémia/blasfêmia, fémea/fêmea, gémeo/gêmeo, génio/gênio, ténue/tênue.

Na prática, continuará a ser necessário fazer uma versão BR e outra PT. É uma perda de tempo e de recursos.

Pessoalmente preferia que, nos casos em que a pronúncia BR e PT divergem, se grafasse uniformemente: acadèmico, anatòmico, cènico, còmodo, fenòmeno, gènero, topònimo, Amazònia, Antònio, blasfèmia, fèmea, gèmeo, gènio, tènue.

Seria muito fácil de fixar: sempre que o “o” ou o “e” acentuados aparecem antes de “m” ou “n”, levariam acento grave.

Tenho quase a certeza que daqui a 20 anos estaremos a assinar um novo Acordo só por causa disto.

E assim caminha a humanidade, meus caros. Sempre fazendo as coisas pela metade. Isso, por sinal me faz lembrar de um belo poeminha do francês Jacques Prevért, autor infelizmente não tão conhecido:

O Gato e o Pássaro

Uma aldeia ouve desolada
O canto do pássaro ferido
É o único pássaro da aldeia
E foi o único gato da aldeia
Que o devorou por metade
E o pássaro deixa de cantar
O gato deixa de ronronar
E de lamber o focinho
E a aldeia faz ao pássaro
Um funeral maravilhoso
E o gato que foi convidado
Segue atrás do pequeno caixão de palha
Onde o pássaro morto vai estendido
Levado por uma menina
Que não pára de chorar
Se soubesse que isso te deixava tão triste
Disse-lhe o gato
Tinha-o comido inteiro
E depois contava-te
Que o tinha visto partir a voar
A voar até ao fim do mundo
De onde tão longe que é
Nunca ninguém volta
Seria para ti um desgosto mais pequeno
Unicamente tristeza e saudades

Nunca se devem deixar as coisas a meio.

Postado em Livros e Afins.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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