Um trecho de Cioran que lembrou-me um amigo

Não sou partidário do pessimismo de um Cioran ou da falta de perspectiva apresentada por um Beckett, embora admire o modo sedutor com que expõem suas idéias.

No entanto, foi lendo um perfil de Beckett feito por Cioran, no livro Exercícios de Admiração que pude ver de relance o retrato de um amigo, um irmão. Mais que isso, pude ver o retrato de nossa amizade.

Com os escritores que não têm nada a dizer, que não têm um mundo próprio, só se fala de literatura. Com ele, muito raramente, na verdade quase nunca. Qualquer assunto quotidiano (dificuldades materiais, preocupações de todos os tipos) o interessa mais – na conversação evidentemente. O que não consegue tolerar, em todo caso, são perguntas como: você acredita que tal ou tal obra esteja destinada a durar? Que tal ou tal merece o lugar que tem? Entre X e Y, qual sobreviverá, qual é a maior?

Sempre admirei como, apesar de vivermos envolvidos por livros, ainda que de modos diferentes – ele mais apaixonadamente que eu -, nossas conversas raras vezes enveredaram para a literatura e, quando isso acontecia, havia algum motivo prático para tal.

Na verdade, as pessoas se surpreenderiam sobre o tipo e a variedade de assuntos sobre os quais conversávamos.

Postado em Outros.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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