O jovem escritor sofre de uma ansiedade que, naquele momento inicial, não tem um nome certo… E nem um destino. Ele apenas se imagina escritor, sem mesmo pensar no processo. E vive do desejo de que todos admirem igualmente o que ele admira no mundo e que rejeitem o que ele rejeita.

Saibam (saibamos) jovens (ainda me incluo) escritores que, ao escrevermos um texto, no momento do ponto final, ele passa a não nos pertencer mais. O texto é de quem o lê. A emoção nasce nova a cada novo leitor; cada um, a partir de suas aptidões de leitor, passa a ver o livro de uma forma inteiramente particular. É por isso que grande parte dos filmes sobre livros deixam aquela sensação de ficarem aquém da história.

O escritor imagina um livro, mas escreve outro. O roteirista, com base no livro, imagina um filme, o diretor vê outro, os atores atuam outro, o público vê outro e, no final, alguém diz: não tem nada a ver com o livro. Claro, naturalmente, é uma adaptação! E quem vai entrar na cabeça do escritor e imaginar seus anseios mais obscuros e secretos metamorfoseados em  prosa e verso?

Passei por uma dessas esses dias… E não tenho argumentos e nem palavras para descrever com exatidão a experiência de ver, em cena, a vida da minha criação em texto. Isso já valeu tudo que já tentei até hoje em termos de escrita: ver o movimento da imaginação a partir de um conto que escrevi, despretensiosamente, há anos.

Eu me lembrei do documentário José e Pilar (aliás, recomendo) em uma cena na qual, Saramago depois de um período doloroso e duvidoso de internação num hospital, assistiu a uma seleta sessão de seu filme Ensaio sobre a Cegueira, dirigido por Fernando Meirelles. A cena mostra um Saramago fragilizado e que, com a licença poética da minha memória, disse emocionado ao Diretor: “obrigado por viver e ver isto”! E, em retribuição, o Diretor beijou ternamente o Escritor na cabeça, respondendo “eu é que agradeço”.

Eu me senti assim: grata! Longe de mim, eu me comparar a Saramago em pessoa e grandeza de obra. Nem teria cabimento! Mas não posso me furtar da existência e comparação de sermos, eu, hoje, e ele, naquele momento, pais vendo seu filho nascer. E quanto a isso vivemos a mesma emoção, diversa em intensidade e importância, mas idêntica em essência e inspiração.

Deixo aqui este testemunho aos jovens escritores. Não desanimem! A mola do escritor é a inquietação. Inspiração é consequência de externalizar um mundo de emoções, represado em cada coração e cada pena.

A propósito do filme, é baseado num conto meu de realismo fantástico chamado “Z”. A partir dele foi criado o roteiro Fragmentos, de Antonio Balbino. E a partir daí, magia, como se vê na sinopse e nas imagens registradas por Dani Azul, com texto de Patricia Del Rey, atriz e personificação.

FRAGMENTOS

Zumbido? Zumbi? Zig-zag? Zzzzzzzzzzzzzz. A ausência que transparece. Dizer sempre o mesmo? Talvez o silêncio seja mais expressivo que mil palavras. Costurada. Serrada. Porque o mundo quer que eu fale, senão há ninguém disposto a me escutar? Um gato. Z tem um gato. Arame e papel machê. Tem cheiro de terra. Vontade de abraça-lo. O quarto de Z já está quase pronto. Flores. Tentáculos. Entrelaçado. Um emaranhado de nós.  Tento ficar em silêncio. Escrever é criar uma barreia de concentração.  Seja Z. Apenas uma letra com mil significados. Lembro-me do meu quarto encharcado. Da água que caia e molhava. Ficção ou verdade?

Texto: Patricia Del Rey

Fotografia: Dani Azul

Fragmentos é um curta-metragem dirigido por Antonio Balbino baseado no conto “Z” de Roberta Fraga.

O filme ainda não está pronto. São muitas etapas a serem cumpridas. Assim que for possível, dividirei com vocês!

E aos jovens (e iniciantes) escritores eu partilho esse gostinho como recado de que não desanimem de traduzir (e fantasiar) esse mundo complicado.

Sobre o autor: Roberta Fraga

Crio seres imaginários, escrevo contos, costuro histórias.