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Uma das coisas mais interessantes nos livros de Michael Ende é que sempre há histórias dentro de histórias. Parece ser o caso desse outro livro dele que começo agora a ler, Momo e o Senhor do Tempo.

Você deve lembrar que eu já falei sobre esse autor quando estive lendo A História Sem Fim.

Momo vive em um antigo teatro de arena, a céu aberto e ali, naquela pequena cidade onde estão essas ruínas, ela conhece diversos outros habitantes do lugar. Entre eles, um guia turístico muito mentiroso, porém bem criativo.

Uma das histórias que ele conta é muito bacana e gostaria de dividi-la com você. Eis o que ele disse a algumas turistas:

“Até na sua bela e livre América, minhas senhoras, naturalmente todos sabem que o notoriamente cruel tirano Marxentius Communis, cognominado O Vermelho, concebeu o plano de alterar o mundo inteiro conforme sua vontade. Entretanto, apesar de todos os seus esforços, os homens continuaram sempre os mesmos e não se deixaram modificar. Ora, na velhice, Marxentius ficou louco. Naquele tempo, como as senhoras sabem, não existiam psiquiatras para ajudar a curar essa doença. Então não havia o que fazer a não ser deixá-lo entregue a seu delírio. Foi no auge da loucura que ele teve a idéia de abandonar o mundo tal como era e criar um outro mundo totalmente novo.

Para isso, mandou construir um globo exatamente do tamanho do antigo, contendo uma cópia exata de tudo o que existia nele: casas, árvores, montanhas, oceanos. A humanidade toda foi forçada, sob pena de morte, a trabalhar nessa empresa gigantesca.

Começaram por construir a base sobre a qual iria ser colocado o novo globo. E os restos dessa base são o que as senhoras estão vendo aqui.

Depois começaram a construir o próprio globo, uma esfera imensa, do tamanho da Terra. Quando, afinal, ficou pronta essa esfera, foi copiado tudo o que havia no velho mundo, com imensa dificuldade.

Naturalmente, era preciso obter grande quantidade de material, e o único lugar onde se podia consegui-lo era na própria Terra. Então a Terra foi ficando cada vez menor, enquanto crescia o novo globo. Afinal, para completar o novo mundo, tiveram de usar até o último restinho do velho mundo. Naturalmente, também toda a humanidade teve de se mudar para o mundo novo, já que o velho tinha sido todo usado. Quando Marxentius Communis compreendeu que, apesar de tudo, as coisas eram as mesmas que sempre tinham sido, enrolou-se em seu manto e saiu em majestosa atitude. Ninguém sabe para onde ele foi.

Então, senhoras, esta depressão em forma de funil, hoje em ruínas, outrora formava a base do globo de Marxentius Communis, que repousava sobre o mundo anterior. Portanto, as senhoras devem tentar imaginar tudo ao contrário.”

As duas finas senhoras americanas empalideceram, e uma delas perguntou:

– E que aconteceu com o mundo de Marxentius Communis?

– A senhora está em cima dele – respondeu Gigi – Este mundo é o novo globo.

As duas velhas senhoras deram um grito assustado e saíram correndo.

Essa história faz lembrar um famoso conto do argentino Jorge Luis Borges que você encontra no livro A História Universal da Infâmia.

Eis um trecho:

Naquele império, a Arte da Cartografia alcançou tal Perfeição que o mapa duma Província ocupava uma Cidade inteira, e o mapa do Império uma Província inteira. Com o tempo esses Mapas Desmedidos não bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o Tamanho do Império e coincidia com ele ponto por ponto. Menos Dedicadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes decidiram que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedades entregaram-no às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa habitadas por Animais e Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Geográficas. (Via Infografando)

Não sei se com você se dá o mesmo, mas raciocínios que dizem respeito a quantias ou tamanhos incomensuráveis envolvem-me em curiosa angústia. Na verdade é um sentimento um tanto inexplicável, como na história – também de Borges – do homem que lembrava de tudo, até mesmo da forma das nuvens de determinada tarde de um ano longíquo. Até mesmo das nervuras de uma folha.

Aparentemente, nossa mente abarca o inabarcável, mas essa possibilidade pode assustar. Pois diante do inabarcável, é inevitável na comparação tornarmo-nos infinitamente pequenos.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!