Um dos grandes encontros de personagens da literatura: Tom Sawyer e Huckleberry Finn

Eu e Júlia começamos a ler juntos, à noite, o livro Tom Sawyer, de Mark Twain. Não houve sequer um capítulo, até aquele em que chegamos no momento, em que não nos divertíssemos muito. Certamente um dos melhores momentos até então é o encontro entre o personagem que dá nome à obra e o moleque Huckleberry Finn – que dá nome a outro livro de Twain.

Não fossem crianças de um tempo talvez mais inocente, o diálogo poderia ser julgado como o de dois malucos.

- Olá, Huckleberry!

- Olá! Veja o que acha disto!

- O que é que tem aí?

- Um gato morto.

- Deixe-me ver, Huck. Olhe como está duro! Onde é que o arranjou?

- Comprei-o de um menino.

- O que lhe deu?

- Dei-lhe apenas um cartão azul e uma bexiga que arranjei em um matadouro.

Aqui cabe uma pausa para explicar que os cartões azuis, amarelos e vermelhos são o componente de outro capítulo engraçadíssimo e que a bexiga a que Huck se refere, naturalmente, é o órgão bovino – também humano – onde mais das vezes é armazenada a urina.

- Onde conseguiu o conseguiu o cartão azul?

- Foi o Ben Rogers que me deu um há duas semanas por uma vara.

- E para que serve um gato morto, Huck?

- Para que serve? Curar verrugas.

E a coisa vai ficando cada vez mais divertida com uma conversa que passa sobre os métodos mais interessantes de se curar verrugas e de como obtê-las.

Mas uma coisa tocante do livro é justamente o texto de abertura em que Twain explica:

A maioria das aventuras que aparecem neste livro são o reflexo da realidade; uma ou duas foram criadas por mim, o resto são casos de outros meninos, companheiros meus de escola. Huck Finn existiu. Tom Sawyer também, embora não se trate de um único indivíduo; é a combinação das características de três meninos que conheci.

Acho que é uma forma bonita de se ser imortalizado: anonimamente. E ainda ter um belo nome dividido por outros dois garotos: Tom Sawyer.

É belo saber que esses meninos tiveram seus modestos atos, grandiosos a seu modo, transportados através do tempo pelo trabalho de um escritor. No nobre ofício de transmitir as coisas simples, emociona saber que todos eles existiram. E continuam.

Postado em Livros e Afins.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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