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Um dos grandes encontros de personagens da literatura: Tom Sawyer e Huckleberry Finn

3 de maio de 2007 | Publicado na Categoria Livros e afins | 19 Comentários »

Eu e Júlia começamos a ler juntos, à noite, o livro Tom Sawyer, de Mark Twain. Não houve sequer um capítulo, até aquele em que chegamos no momento, em que não nos divertíssemos muito. Certamente um dos melhores momentos até então é o encontro entre o personagem que dá nome à obra e o moleque Huckleberry Finn – que dá nome a outro livro de Twain.

Não fossem crianças de um tempo talvez mais inocente, o diálogo poderia ser julgado como o de dois malucos.

- Olá, Huckleberry!

- Olá! Veja o que acha disto!

- O que é que tem aí?

- Um gato morto.

- Deixe-me ver, Huck. Olhe como está duro! Onde é que o arranjou?

- Comprei-o de um menino.

- O que lhe deu?

- Dei-lhe apenas um cartão azul e uma bexiga que arranjei em um matadouro.

Aqui cabe uma pausa para explicar que os cartões azuis, amarelos e vermelhos são o componente de outro capítulo engraçadíssimo e que a bexiga a que Huck se refere, naturalmente, é o órgão bovino – também humano – onde mais das vezes é armazenada a urina.

- Onde conseguiu o conseguiu o cartão azul?

- Foi o Ben Rogers que me deu um há duas semanas por uma vara.

- E para que serve um gato morto, Huck?

- Para que serve? Curar verrugas.

E a coisa vai ficando cada vez mais divertida com uma conversa que passa sobre os métodos mais interessantes de se curar verrugas e de como obtê-las.

Mas uma coisa tocante do livro é justamente o texto de abertura em que Twain explica:

A maioria das aventuras que aparecem neste livro são o reflexo da realidade; uma ou duas foram criadas por mim, o resto são casos de outros meninos, companheiros meus de escola. Huck Finn existiu. Tom Sawyer também, embora não se trate de um único indivíduo; é a combinação das características de três meninos que conheci.

Acho que é uma forma bonita de se ser imortalizado: anonimamente. E ainda ter um belo nome dividido por outros dois garotos: Tom Sawyer.

É belo saber que esses meninos tiveram seus modestos atos, grandiosos a seu modo, transportados através do tempo pelo trabalho de um escritor. No nobre ofício de transmitir as coisas simples, emociona saber que todos eles existiram. E continuam.

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19 Comentários para “Um dos grandes encontros de personagens da literatura: Tom Sawyer e Huckleberry Finn”

  1. Cristina L. - 3 5 2007 às 13:59

    São meus livros preferidos da infância/pré-adolescência. Mais do que os do Monteiro Lobato (aliás, não li todo o Sítio até hoje). As aventuras de Huck e Tom eram levadas a sério, eram verdadeiras, davam medo, criavam suspense, eu tinha pesadelos e era apaixonada pelos dois. Outro dia li que as histórias estão sendo censuradas nos EUA por causa de suposto conteúdo racista. Balela. Minha filha vai ler quando tiver idade e tenho certeza de que vai adorar. E vai entender o contexto histórico da escravidão e dos sofrimentos pelos quais as crianças passam enquanto vivem suas vidinhas de aventuras.

  2. Alessandro Martins - 3 5 2007 às 18:45

    Oi, Tina! Só essa semana eu descobri o que estava perdendo. É bem a cara de uma época como a nossa proibir um livro como esse – americanos ou não. Acho que somos – estou generalizando – voltados para apenas para nosso tempo e nossa localização geográfica e social. Não somos capazes de contextualizar uma narrativa em outra situação que não a nossa. É o fim da imaginação e da memória e o culto do aqui e do agora. Af… surtei. Eu, de minha parte, estou achando o livro ótimo. Beijos! Apareça mais!

  3. Thássius Veloso - 3 5 2007 às 18:55

    Ahhh! O que houve por aqui? Ainda é o Alessandromartins.com?

  4. Alessandro Martins - 3 5 2007 às 19:00

    Fiz uma m… no tema anterior, não consegui arrumar e resolvi mudar tudo. Este é provisório até eu ter tempo de escolher um tema, sentar com calma e fazer tudo… sugere algum? Ou acha que eu devo voltar ao anterior… confesso que aquele era meio complicado de lidar… cheio de arquivos e tal. Ah, sim. Me lembre de fazer back up do tema sempre que for mexer nele… af. Estou meio p… ainda por ter feito uma besteira dessas.

  5. Kritiker - 3 5 2007 às 19:37

    Esses foram os livros que mais gostei na infância!

  6. Mário - 3 5 2007 às 20:35

    Muito bom isso. Acho, Alê, que os escritores naturalmente partem da realidade para construir uma personagem. Lembro que a Mônica do Maurício de Souza (sei que não é propriamente um escritor, mas cabe aqui onde estamos falando de cosntrução de personagens) é a própia filha dele. Outro dia li uma entrevista em que ele afirma que todos os seus personagens são reais, baseados em pessoas e alguns em mais de uma pessoa. Interessante você abordar exatamente isso porque, em muitos livros, tenho observado que os autores basearam seus personagens e pessoas reais do seu dia a dia. Mal comparando, estou lendo A DIVINA COMÉDIA do Dante Alighieri, na versão em prosa, e o editor esclarece que muitas personagens foram construídas a partir de inimigos políticos de Dante e colocadas no Inferno com outro nome (risos). Valeu o post e fiquei ainda mais empolgado para ler Mark Twain.

  7. João Varella - 3 5 2007 às 21:22

    Não li Tom Sawyer, mas The Adventures of Huckleberry Fin é excelente e tem mais exemplos de excelente literatura como esse. A relação de Huck com o escravo fugitivo (que me foge o nome agora) sai um pouco do aspecto lúdico para um aspecto realista. Huck começa a reconhecer que ESTE escravo pode fazer quase tudo que um branco normal faz…

    Em relação ao post acima, acredito que TODO autor se baseia em sua experiência para escrever tudo. Alguns de maneira explícita. Outros nem se dão conta disso.

  8. Henderson - 3 5 2007 às 23:44

    Tom Sawyer é um clássico. Li a muito anos, uma velha edição caindo aos pedaços da Editora Brasiliense, com tradução de Monteiro Lobato ! As Aventuras de Huckleberry Fin também é excelente, tão bom quanto Tom Sawyer. Leitura altamente recomendada para todas as idades.

  9. Alessandro Martins - 4 5 2007 às 9:20

    Pelo visto começou bem, não, Kritiker? Aquele lance do Topblogsbrasil é quente? O que acha?

    Abraços!

  10. Alessandro Martins - 4 5 2007 às 9:23

    Na pós em que estou fazendo, no primeiro módulo, Mário, ficamos horas falando sobre o quanto dos personagens de Graciliano Ramos eram ele e o quanto não eram. Isso grosso modo. Mas creio que, embora a ficção e a imaginação pura tenha seu papel, é impossível criar algo sem partir do já existente… Abraços!

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