Conheci o projeto por intermédio de Bráulio Calvoso, pessoa super antenada com questões de História, Antropologia, Linguística e Socioambientalismo. A partir dele, eu vi  vídeos relacionados e fiquei super intrigada a respeito de quem estaria por trás de um trabalho como este. E em que consistiria o projeto. Entrando em contato com Marcos Lombello, pude conversar sobre o projeto e, de tão interessante, resolvi trazer para vocês conhecerem também.

A música une as pessoas, aproxima corações, mentes. E, neste caso em especial, supera a barreira da língua para aproximar pessoas, trocar experiências, construir histórias, vivências. Abaixo, nas palavras do Marcos Lombello, você pode testemunhar um belo trabalho que com certeza ira inspirá-lo de diferentes modos.

Marcos Lombello & Guangtou

Quem é Marcos Lombello

Sou brasileiro, nascido em Petrolina-PE, mas morei em vários lugares do Brasil, e também morei e estudei nos Estados Unidos. O local do Brasil onde morei mais tempo foi Salvador-BA, por isso quando me perguntam de onde eu sou, eu respondo sem pensar: Sou de Salvador.

Vim morar na China em setembro de 2002, a convite de meu irmão que já estava morando aqui, e logo fui convidado para dar aulas da área de Negócios e Administração na Universidade Normal de Quanzhou. Inicialmente fui contratado para lecionar para os alunos de um programa conjunto com a instituição australiana TAFE, em 2003. O programa acabou em 2006, mas devido à boa avaliação do meu trabalho, fui convidado para continuar lecionando sob supervisão direta dos departamentos locais. Já trabalhei para quatro departamentos diferentes, e já cheguei a ser eleito pelos alunos “o professor mais popular da universidade”. Mais sobre a minha história e meu trabalho aqui na China pode ser visto no vídeo China ao Vivo #1.

O projeto de aproximação cultural (Projeto Amizade ChinaBrasil) começou gradualmente, de forma quase espontânea, a partir do interesse demonstrado pelos alunos da universidade e pelos músicos e fãs de música locais. Eu sou o iniciador deste trabalho, e provavelmente o seu principal mentor, mas hoje contamos com um bom número de voluntários, tanto chineses quanto brasileiros. Para entender melhor o Projeto China-Brasil e a sua evolução, recomendo o nosso vídeo institucional.

Lombello & Shirley He

Lombello & Shirley He

Em que consiste o projeto

O trabalho começou de forma gradual, a partir do interesse manifestado pelos alunos e pelo público nos bares e casa noturnas onde eu me apresento esporadicamente. Somos um grupo de voluntários brasileiros e chineses que buscam a realização de ações coordenadas que aproximem os nosso povos através da cultura e das artes.

Nossos objetivos são os seguintes:

  • Contribuir para o estreitamento da relação entre os povos brasileiro e chinês.
  • Criar oportunidades de trabalho para artistas brasileiros na China.
  • Criar oportunidades de trabalho para artistas chineses no Brasil.
  • Divulgar a arte e a cultura do Brasil na China.
  • Divulgar a arte e a cultura da China no Brasil.
  • Proporcionar condições para a geração de novas oportunidades de negócios bilaterais.

O nosso público-alvo a longo prazo seria todos os brasileiros e chineses, através de etapas que se concentram em grupos específicos de tamanhos crescentes, de forma gradual. No início estamos atingindo os brasileiros que moram ou tem interesses na China, e os chineses que moram e tem interesses no Brasil, estudantes universitários em nossa área de trabalho, intelectuais, artistas, diplomatas, professores, enfim, multiplicadores e aperfeiçoadores de ideias que já tem alguma afinidade com os elementos do projeto.

O objetivo está sendo alcançado com dificuldade. Continuamos buscando patrocinadores e investindo do próprio bolso. Já contamos com muitos simpatizantes e colaboradores, mas a dura realidade é que, sem patrocínio, nossa capacidade de investimento fica muito limitada, e fica quase impossível passar para o próximo estágio, que seria o de produzir arte que atinja o grande público.

Lombello & Danny Calado

Lombello & Danny Calado

A importância de levar a cultura brasileira para o exterior

É por meio do conhecimento mútuo que nascem as grandes amizades. Esse conhecimento deve ser profundo o suficiente para evitar julgamentos precipitados e mal-entendidos. Pouco se sabe sobre o Brasil aqui na China, e aquilo que se imagina muitas vezes são distorções da realidade. Existe interesse em relação ao Brasil no que tange os negócios e a geo-política, mas o que se faz em relação à divulgação de nossas artes está muito longe do ideal. É através da arte que se conhece a alma de uma povo, a sua essência cultural.

Da mesma forma, no Brasil existe uma montanha de preconceito em relação à China e aos chineses. Pessoas desinformadas focam nas diferenças para justificar uma atitude hostil, preconceituosa, e até mesmo racista. Para que brasileiros e chineses possam se compreender melhor, é preciso adaptar, interpretar e explicar as nossas manifestações artísticas. Isso, a médio e longo prazo, tende a aumentar os níveis de felicidade de brasileiros e chineses. É a inexorável Ação Globalizante, expressão por mim cunhada e que explicarei em breve.

Imagine, por exemplo, um mundo onde os chineses aprendam a nossa criatividade e capacidade de improvisar, e a gente aprenda com eles a tolerância e o comportamento pacífico. E nessa utopia possível, chineses de mente aberta e com jogo de cintura venham aos milhões fazer turismo em um Brasil pacífico, seguro e hospitaleiro. Parece sonho? É de sonhos que se constrói o futuro possível. Há 15 anos, imaginar que um professor brasileiro pudesse lecionar por mais de dez anos na universidade pública chinesa parecia impossível. Hoje, é exatamente o que eu faço.

Por que China?

Eu tenho um irmão que mora aqui há mais tempo. Foi ele que me convidou. Eu sempre tive vontade de conhecer a China, mas a minha vinda especificamente para cá aconteceu porque meu irmão já estava aqui. Eu era professor em Esperantina-Piauí, dando aulas na universidade, segundo grau e primeiro grau. Naquele tempo, o salário de professor no Brasil era ridículo, vergonhoso. Aqui na China eu passei a ganhar bem melhor, portanto a motivação mais forte, inicialmente, foi econômica.

Depois fui me familiarizando com esse mundo que é a China, a sua imensidão milenar, a sua redundância de mistérios e deliciosos absurdos, e percebendo a emanação de possibilidades artísticas, culturais, tecnológicas, o potencial virtualmente inesgotável de opções de vertentes de trabalho que gera um resultado positivo duradouro para a própria civilização, cuja intensidade embora diluída ainda representa ao menos um precedente que torna possíveis outros projetos semelhantes.

O Brasil valoriza seus modelos culturais?

Acho que não existe uma resposta que possa valer para todos os modelos culturais e para todas as regiões do Brasil. Muitos de nossos modelos culturais e suas manifestações são valorizados em diversos níveis de abrangência geográfica. Isso nem sempre é uma coisa boa. Quando imaginamos que ‘cultura’ é sempre uma coisa boa, estamos cometendo um erro até mesmo de semântica. ‘Conhecimento’ sobre cultura, suas origens e suas manifestações não faz mal a ninguém, mas imaginar por exemplo que a cultura impregnada de elementos machistas, de culto à violência, de materialismo exacerbado, do hedonismo inconsequente, seja sempre uma coisa a ser preservada. Na verdade a cultura também precisa evoluir e ser aperfeiçoada, para uma vida mais feliz.

Por outro lado, fico feliz de perceber que manifestações culturais genuínas, como a capoeira, o baião, o samba de roda, o teatro mambembe, maracatu, etc., sobrevivem aos ataques da modernidade vazia, e se mesclam e se fortalecem em direção ao globalismo.

Como os artistas são escolhidos

Existem três aspectos a serem considerados para que artistas sejam beneficiados pelas ações do Projeto China-Brasil:

  1. Talento e originalidade, sem ficar engessado por modelos anacrônicos, elitistas, de arrogância acadêmica. Quem tiver capacidade e paixão para produzir algo bonito, no seu sentido mais amplo, já se enquadra nessa categoria;
  2. Presença em seu trabalho de material que possa traduzir a arte brasileira para o público chinês e vice-versa;
  3. Potencial para atrair atenção positiva do público e dos patrocinadores, podendo assim atingir os resultados desejados de maior aproximação e intercâmbio entre os nossos povos.

*As informações, vídeos e imagens foram gentilmente cedidas por Marcos Lombello. Conheça o ProjetoAmiadeChina-Brasil

Sobre o autor: Roberta Fraga

Crio seres imaginários, escrevo contos, costuro histórias.