coração partido

Entre o tipo que gosta de uma boa leitura e o que gosta de uma boa figura, sempre fui mais do segundo. Livro nunca foi meu forte. Pelo contrário. Lia só que era realmente obrigado na escola porque teria prova sobre o dito cujo. Mesmo assim, fazia aquela leitura de imersão, passando um dia inteiro lendo ‘malemá’ pra conseguir fazer o teste de forma razoável.  Meu negócio era gibi, na infância. Do Chico Bento, pra ser mais exato.

Culpa da Moreninha.

Acho que o livro do Joaquim Manuel de Macedo me traumatizou pra uma vida inteira. Eu tinha o quê? Uns 12 anos quando minha professora de Português mandou a gente ler esse livro para uma prova? Por mais curtinho que seja, não acho que é uma leitura pra “ganhar” um garoto de 12 anos que gostava mesmo era de empinar pipa, jogar bola e andar de bicicleta. Sim, porque no máximo, o que eu tinha nesta época era um Master System e não existiam redes sociais.

Precisei de 20 anos pra tomar gosto pela leitura. E não me envergonho disso. Na verdade, me envergonhava sim. Me sentia um tanto quanto ignorante por não conseguir ler um livro inteiro. Sempre que começava, parava pela metade. Foi então que alguém me deu a dica para começar com livros de contos. E nada melhor que as boas e velhas Comédias da Vida Privada do Veríssimo pra uma leitura descompromissada e agradável, pra ver se me fisgava. E meio que me fisgou.

“Meio que”, já que era descompromissada demais pra eu me engajar na leitura.

Tudo foi mudar mesmo, agora, aos 32 anos de idade, mais precisamente em novembro do ano passado. Não sei se foi pela capa amarela chamativa, pelo título ou por ver uma amiga lendo que eu comprei “Se Vivêssemos Em Um Lugar Normal” do autor mexicano radicado no Brasil, Juan Pablo Villalobos. Foi uma leitura tão gostosa, tão engraçada, que eu me pegava rindo em voz alta no meio de estranhos, pagando mico de maluco. Emendei a leitura em “Um Chinês de Bicicleta”, do argentino Ariel Magnus. A ambientação em Buenos Aires, cidade que tanto amo, também ajudou muito no “devoramento” do livro.

Foi quando decidi que não deixaria mais espaços de tempo entre um livro e outro, pra não haver aquele relaxamento e eu desistir de uma nova leitura.

Comprei um leitor de e-books, o mais simples da marca top of mind que já é top of mind demais pra eu fazer propaganda por aqui. Eu gosto do cheirinho de livro novo, mas gosto mais de não ter meus braços cansados segurando um livro grosso no banco do ônibus.

Deus, como é bom esse negócio!

O e-reader facilitou muito minha vida e deu ânimo pra ler cada vez mais. Já estou no 9º livro em 6 meses. Pra quem sempre leu muito, isso não é nada, mas pra quem nunca leu nada, isso é, no mínimo uma grande revolução.

A sensação de aprendizado também é única. Só com “1808”, do Laurentino Gomes, acho que aprendi mais sobre história do Brasil do que em todo meu tempo de escola. E mesmo em livros de ficção, algum bom aprendizado a gente sempre tira. É uma sensação gostosa. Um inchaço cerebral bom. Melhor que pensar naquele condomínio que dobrou de valor em 2 anos.

Foram 32 anos de ostracismo literário, mas ainda sou novo. Tenho tempo de recuperar as páginas perdidas. Quem sabe ainda não escrevo o meu?

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Sobre o autor: Bruno Pereira da Silva

Um seminerd publicitário, fotógrafo e empresário da Santa Querupita, escritor do Lado B do Cassete, apaixonado por cultura pop dos anos 80 e 90, que sabe de tudo um pouco e muito de nada.