Tradução colaborativa: o que você acha? A opinião de leitores e tradutores
19/10/2009Publiquei um post, incentivado por um email do Raphael Rap, perguntando aos leitores deste blog o que achavam da idéia de tradução colaborativa. Muitos dos comentários foram tão bons que decidi publicá-los em um novo post, a fim de se for o caso continuar a discussão.
A Silvia comentou o seguinte:
Alessandro, eu acho que, na maioria das vezes, tradução colaborativa não dá certo. Porque o tradutor profissional dificilmente aceitará um projeto desses, já que tradução é seu ganha-pão. Eu posso trabalhar como voluntária em diversas áreas, mas nunca em tradução. É minha regrinha de ouro. E traduzir uma obra, literária ou não, dá um trabalho danado e tomaria tempo de outros trabalhos, estes pagos. Não dá.
Acho legal a galera querer oferecer ao público brasileiro essas obras em português, mas um projeto desses raramente terá a qualidade necessária para uma obra literária. De um modo geral, pessoas com mais tempo livre é que aceitam empreitadas assim, e raramente profissionais o fazem. Não estou dizendo que um tradutor amador não possa ser bom, mas se ele for bom mesmo, a não ser que tenha outro emprego ótimo e a tradução seja um hobby, em geral ele se profissionalizará.
Acontece que acho complicado alguém ter a tradução como hobby. Dá muito trabalho e toma muito tempo. :-)
Beijos para você!
A Denise Bottmann disse o seguinte
que questão complicada! uma vez, escrevi ao portal do domínio público, nem lembro bem por quê, e em resposta recebi uma magoada reclamação deles de que os tradutores não colaboram enviando traduções. bom… se você trabalhar umas seis/oito horas por dia, tem-se em média um rendimento de cem laudas por mês de tradução de um livro sem grande complexidade. tem gente que traduz bem mais que isso, claro, mas em tradução de uma obra literária não muito débil mental, mas também não muito cabeluda calcula-se em média 100, no máximo 150 laudas mensais (lauda é menos que uma página impressa normal, 14×21 – o padrão são 2.100 toques contando os espaços). um livro de 300 páginas vc leva uns 2, 3 meses para fazer. e a moça do domínio público reclamou que os tradutores não se ofereciam para fazer traduções? é… complicado.
por outro lado, vejo centenas e centenas de obras traduzidas disponíveis em inúmeros sites de ebooks, e uma boa parte delas não está no portal de domínio público. na verdade, até porque uma boa porcentagem dessas obras para download nem está ainda em dp . mas uma boa parte também do que está no site do mec tampouco está em dp – por exemplo, o shakespeare inteiro que está lá seria, a rigor, “pirata”. por isso acho importante liberarem a reprodução e digitalização de obras esgotadas e abandonadas até para poder regularizar a situação das que já estão circulando para download faz anos e para poder tb enriquecer o acervo no portal. outro complicador é que existem milhares de obras que já são dp e que não foram digitalizadas por ninguém.
é uma zona.
agora, quanto à tradução colaborativa, concordo com a silvia – traduzir não é fácil nem rápido. moçadinha voluntária fazendo às pressas um harry potter para uso pessoal e trocarem os capítulos entre si, acho até simpático e relativamente inofensivo, mas na hora que põem na net é algo piratíssimo, e eu jamais propugnaria isso como prática legítima e defensável. por outro lado, se o original já estiver em domínio público, aí sim, não tem problema. o problema é encontrar uma turminha que se disponha a fazer. e como se faria? por distribuição de número de páginas? haveria alguma uniformização? quem daria a uniformização ou faria o cotejo geral com o original para ver se está tudo ok? aliás, toda tradução, mesmo individual, a gente faz umas duas ou três revisões, um cotejo completo com o original e a finalização do texto antes de dar por pronta. pessoalmente, eu não teria nenhuma objeção em participar de uma tradução colaborativa de obras em dp; pelo contrário, acho algo bem simpático – só não vejo muito bem a viabilidade prática da coisa.
agora, se a questão é aumentar o acervo de obras disponibilizadas na net, a questão principal e que renderia muito mais, em minha opinião, seria mobilizar gente para digitalizar traduções que, elas tb, já estejam em dp ou, em caso de esgotadas, mobilizar gente para conseguir as devidas licenças e conseguir alguma boa alma no site do mec que disponibilize a versão digitalizada lá no portal deles (consegui, por exemplo, licença de reprodução digital da tradução do discurso do método de descartes, feita por jacó guinsburg e bento prado jr., batalhei uns dois meses até conseguir, enviei a versão digital para o portal com a devida autorização dos detentores dos direitos e até hoje o pessoal do mec nem se deu ao trabalho de disponibilizar lá!)
A Denise, não é demais lembrar, está sendo processada pela editora Martin Claret por conta de suas denúncias de plágio contra a empresa e desenvolve um excelente trabalho em seu blog no que diz respeito a plágios de traduções.
A opinião do Thássius sobre a tradução colaborativa:
Quando estou assistindo a uma série, não me importo de ter as legendas traduzidas de forma colaborativa. Normalmente possuem erros, mas são geradas muito mais rapidamente do que as legendas oficiais, digamos assim, traduzidas por empresas contratadas para tal finalidade.
Já quando estamos falando de publicações, não espero menos que a tradução mais bem feita possível. Nessas horas, depender da colaboração não dá. Até porque em alguns casos o tradutor torna-se um co-autor, e acaba sendo involuntário procurar outras traduções que sigam o mesmo estilo. É o caso da Lia Wyler, que traduziu todos os livros da série Harry Potter.
O Ernesto Diniz aprova a idéia, mas com ressalvas:
A área de Tradução está se expandindo e sendo levada pelas ondas das novas tecnologias. Hoje pensar em Tradução é pensar em: tradução literária, técnica, localização, proof reading, legendagem, audiodescrição, interpretação, tradução intersemiótica, consecutiva, adaptação, crowdsourced translations (a tradução colaborativa), etc.
Não vejo problema na tradução colaborativa, com as ressalvas bem feitas pelos colegas aqui nos comentários. Trabalhar profissionalmente como tradutor demanda experiência, paciência, muita vontade de sempre estar aprendendo e, cada vez mais, formação específica. Claro que a questão da formação ainda está num patamar de “situação ideal”, mas o cenário acadêmico, pouco a pouco, vai se moldando aos novos paradigmas e às necessidades de mercado (o que, por um lado, é bom e, por outro, é péssimo).
Como mestrando e pesquisador em Tradução vejo que a pressão da tecnologia e da sociedade é um fato. A tradução colaborativa vai acontecer em cenários específicos e com demandas específicas. Dizer exatamente qual a viabilidade de um projeto desses, hoje, é um pouco complicado. Estamos vivendo as transformações e não sabemos como as novas aplicações técnicas vão se desenvolver na prática.
Existem exemplos que foram citados como a tradução de um livro do Harry Potter feita por fãs da noite pro dia e a legendagem de filmes e séries de tevê. Mas, como em qualquer área, os bons sobrevivem, mas a multidão (o crowdsourced) se levanta quando a necessidade aparece. Não adianta nós tradutores acharmos que haverá uma proteção de mercado. Não haverá. Vide as modificações sofridas pelo Jornalismo, com os blogs e as novas ferramentas online; a Indústria fonográfica, com o mp3; a própria área artística, com o advento do computador.
Hoje estamos sendo desafiados a acompanhar as modificações rápidas, seja qual for a sua área de atuação. Experiência, como disse, é muito importante, mas só isso não garante o ganha pão.
Só pra ficar em dois exemplos: o Google Translation Toolkit (http://translate.google.com/toolkit) e o Google Wave (http://wave.google.com); ambas são ferramentas poderosíssimas (e não-profissionais, ainda, no sentido de uso disseminado e legitimado pelo mercado de tradução profissional) que resultarão em aplicações super refinadas.
Existe também a poblemática da revisão dos textos produzidos (problema experimentado pela Wikipedia também) e da relevância dessas traduções.
Como saber como tudo isso vai alterar a Tradução? O futuro ainda não existe, enquanto isso vamos experimentando com o presente e também com as traduções colaborativas.
Finalmente, o Raphael Rap, que iniciou o debate apresentou alguns argumentos a favor da tradução colaborativa:
Fico feliz pelos vários comentários construtivos que percebi por aqui. Gostaria de refutá-los na medida que acho que as antíteses que apresentarei são realmente válidas. Na realidade são argumentos elaborados por um amigo meu (Teo) e enviados por e-mail.
1. “Já existem profissionais de tradução e eles não vão gostar disso, nem vão apoiar”
Disseram a mesma coisa do software livre, e a gigantesca maioria dos contribuidores é profissional de computação. Alguns usam seu tempo livre, outros ganham dinheiro com isso. Alguns projetos preenchem espaços que o software comercial não alcança adequadamente – o que pode ser a brecha para a tradução colaborativa. Como esses projetos não têm valor comercial, não prejudicariam os profissionais estabelecidos.
2. “Ninguém quer gastar tempo com isso”
Vide software livre, legendas de filmes e seriados…
3. “A qualidade será inferior”
A princípio talvez, pela falta de prática das equipes. Mais uma vez, remete-se a outros exemplos. Ninguém ousa dizer que o código de Linux e Apache não sejam ótimos, mesmo que gente do Canadá à Nova Zelândia mexa no código. Para um exemplo mais próximo, vide as legendas de séries dos grupos de legenders na Web. Muitas são melhores e com melhor tradução que as legendas oficiais. Já comparei algumas com as do Warner Channel. Ambas têm falhas, mas as do Warner são muito piores. Quem traduz as da Web são pessoas que realmente gostam.
4. “É necessário um grande talento artístico pra traduzir”
Depende. Primeiramente, o talento artístico deve existir no autor. O tradutor vai transportar isso pra outra língua. Ele tem que se manter fiel ao espírito original. Dizer que isso é serviço apenas para uma pessoa é mistificar a tradução. De qualquer forma, existem traduções coletivas…
Creio que o debate pode continuar, mas só vamos saber a viabilidade ou não de um trabalho desse tipo depois de muitos resultados bons ou maus.





3 comentários
Bom, eu queria comentar outras coisas, mas pela falta de tempo vou comentar só os últimos tópicos levantados pelo Raphael Rap.
Eu penso que há traduções e traduções, assim como há uma variedade de teorias sobre elas. Uma dessas teorias vai contra essas afirmações que o “O tradutor vai transportar isso pra outra língua. Ele tem que se manter fiel ao espírito original.” Walter Benjamin, em A Tarefa do Tradutor, simplificando muito, defende que a tradução é uma reescrita. Dessa forma, sem dúvida um tradutor precisaria, não de um talento artístico, mas pelo menos uma grande noção literária.
Acho que os outros comentadores estão pensando em coisas diferentes. Há um enorme abismo em traduzir filmes e séries e traduzir literatura, já que a exploração da linguagem nessa ultima é infinitamente maior. Penso que para o caso das legendas, a tradução colaborativa pode ser uma boa, pode agilizar o processo e não teria tantos problemas assim. Por outro lado na literatura, seria complicado traduzir em conjunto sem construir um Frankstein.
Boa pontuação do Arthur Guerra. A Tradução não é simplesmente um transporte textual linguístico e, sobretudo, não existe fidelidade textual. Toda tradução pressupõe uma interpretação feita pelo tradutor, toda interpretação possui uma singularidade (formação do tradutor, domínio da língua para a qual irá traduzir, conhecimento sobre a cultura do texto, etc.). Sendo assim, teremos sempre um espectro de variância dentro de qualquer tradução, mesmo que seja feita por um grupo dos melhores tradutores da Terra.
A citação ao Walter Benjamim é importante. E não só ele fala de reescrita dentro da Tradução. O Andre Levefere também fala em reescrita e em “manipulação” (discussão rica e extensa, não dá pra colocar todos os pontos num comentário), o Even-Zohar fala dos polissistemas e trata a tradução como um trânsito de culturas, políticas, economias (todos os “sistemas”). O Haroldo de Campos já falava em transcriação, transmutação, transluciferação em “Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora”.
Sobre a fidelidade poderia citar Roland Barthes em Rumor da Língua, falar sobre a morte do autor, poderia falar de Umberto Eco e a frase de efeito célebre “a obra é aberta, mas não é escancarada”, poderia citar Deleuze em A Lógica do Sentido, no qual fala (entre tantas outras coisas) sobre Platão e o Simulacro, o poder criativo da cópia. As teorias são muitas e as discussões bastante interessantes.
A Tradução é uma área em franca expansão e especialização. Ser tradutor hoje e acreditar em fidelidade hermenêutica, em preocupar-se apenas com língua sem entender as linguagens, a cultura, a sociedade e todo o continuum envolvido na tradução de um texto (texto sendo entendido como qualquer manifestação discursiva: texto escrito, filme, site, blog, vídeo, música, dança, pintura, etc.), é estar olhando a Tradução apenas de um ângulo.
Sim, os ângulos hoje são quase infinitos. Como dar conta de tudo? O caso não é dar conta de tudo, é perceber a complexidade dos textos (e não a complicação dos textos) e refletir sobre ela e não ficar apenas restrito àquela figura da Tradução clássica, carrancuda e restrita a uma “elite dos escolhidos”. Tradução não é (talvez apenas) arte, nem solicita um dom.
Por isso mesmo acho que a tradução colaborativa é um meio ótimo para repensar (mais um vez) o que é Tradução afinal.
Penso que as pessoas que hoje trabalham com tradução, estão assustadas com a possibilidade de perderem o emprego muito em breve, pois inevitavelmente isso irá acontecer.
Como relojoeiros, ao verem os relógios digitais invadindo…
Li os comentários e ninguem parece ter atentado para isso, preferindo ‘viajar’ como o Ernesto, que mostrou erudição, mas não disse nada.
Não sou tradutor profissional, mas por saber ler em francês e inglês, ocasionalmente faço uma tradução ou outra e disponibilizo para quem quiser ler. Traduzo por que gosto e penso que outros que não podem ler em outra lingua, irão gostar, e só. Não pretendo seguir na profissão moribunda, nem na carreira de autor literário.
Penso que o autor gostaria também de saber que tem alguém lendo seu trabalho, em outra lingua. Quem sabe quando algum dia este autor for publicado no Brasil, aquela pessoa vá comprar um livro seu, por ter gostado da versão que fiz. Quem sabe?
E francamente, em um pais como o nosso, quantas pessoas sabem ler ? E destas, quantas sabem ler em outro idioma? Valorizo a quem se propõe a traduzir o que quer que seja, mesmo de forma amadora.
É tática de guerrilha, me disse certa vez um colega de faculdade, que só tinha livros xerocados como material para estudos.
Quem sou eu para dizer que não.
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