Livros e afins

Procure no Blog

Submarino.com.br

Trabalho: não precisa ser um castigo

9 de dezembro de 2008 | Publicado na Categoria Trechos de livros comentados | 4 Comentários »

Encontrei este trecho no livro Trabalho: Qual é a Tua Obra, de Mario Sérgio Cortella:

Por que muitas vezes a idéia de trabalho é associada a castigo, fardo, provação? Do ponto de vista etimológico, a palavra “trabalho” (assim como em francês, espanhol e italiano) tem origem no vocábulo latino tripalium, que era um instrumento de tortura, ou seja, três paus entrecruzados para serem colocados no pescoço de alguém e nele produzir desconforto. A origem do Ocidente é o mundo greco-romano. Se pegarmos, por exemplo, o período do século II a.C. até o século V, teremos a formação da sociedade clássica greco-romana com as heranças que o mundo grego havia gerado. Essa sociedade cresceu em sua exuberância a partir do trabalho escravo. Em sociedades assim montadas com base no sistema escravocrata, a própria idéia de trabalho remete à escravidão. Portanto, trabalho é coisa menor, indecente, imoral ou de gente que está sendo punida.

Aqui, vou pular um trecho bem grande. Cortella prossegue:

Etimologicamente, a palavra “trabalho” em latim é labor. A idéia de tripalium aparecerá dentro do latim vulgar como sendo, de fato, forma de castigo. Mas a gente tem de substituir isso pela idéia de obra, que os gregos chamavam de poiesis, que significa minha obra, aquilo que faço, que construo, em que me vejo. A minha criação, na qual crio a mim mesmo na medida em que crio no mundo.

(…)

Todas as vezes que aquilo que você faz não permite que você se reconheça, seu trabalho se torna estranho a você. As pessoas costumam dizer “não estou me encontrando naquilo que eu faço”, porque o trabalho exige reconhecimento – conhecer de novo.

O filósofo Mario Sérgio Cortella tem um texto ao alcance de qualquer um: as pessoas realmente sábias falam de coisas complicadas de maneira simples.

Recentemente, o vídeo de uma de suas palestras – sobre Educação – foi um dos itens mais compartilhados no Google Reader.

Sobre essa história de trabalho, vou me referir ao meu atual: eu me vejo em todos os blogs que produzo. Acho que isso se reflete no fato de que eu não oculto nenhum deles quando me perguntam quais são (só dá um pouco de trabalho enumerá-los, já que são seis).

Tenho enorme prazer em produzi-los e em ter, por eles, reconhecimento (e esso é um substantivo cujo significado muda de pessoa para pessoa): acho que saí do tripalium e passei a frequentar o labor.

Posts relacionados

Tags:, , , , , , ,

4 Comentários para “Trabalho: não precisa ser um castigo”

  1. Thiago woolf - 9 12 2008 às 15:33

    Sensacional.

    Sempre refleti sobre essa questão, ser feliz no trabalho é sinônimo de auto-reconhecimento, é um fragmento importante na construção da individualidade.
    O Mario Sergio Cortella é muito foda principalmente no que se refere a dar nomes aos bois e aos fundamentos da epistemologia eu adoro “café Filosofico” e “Nos Labirintos da Moral” , embora seja muito criticado pelos colegas acadêmicos ( com razão muitas vezes) ele é produziu obras verdadeiramente emocionantes. ( porra, até livros técnicos podem ter uma certa sagacidade da literatura)

  2. Anny(@Annyllinha) - 29 5 2009 às 16:48

    Alessandro:
    Adorei o seu texto.
    Pois é, tabalho não precisa ser castigo. Muito ruim quando alguém pensa assim do trabalho que faz. Aliás, uma boa hora para repensar sobre ele.

  3. Roberto Marques - 19 6 2009 às 9:48

    Trabalhar é mais que ganhar dinheiro. Tem a ver com a saúde física, mental e espiritual. Afeta relacionamentos, a dignidade e a manutenção da vida. Trabalho gera honra. Sem trabalho se mata, se morre.
    Quem trabalha apenas pelo sustento, pelo dinheiro, está como que se prostituindo, adulterando, violentando a sua razão de existir, sua vocação, sua missão no mundo. Passa, então, a odiar seu trabalho e a sofrer da síndrome da “segunda-feira”. O “sonho da aposentadoria” passa a ser a única esperança de libertação de uma vida profissional medíocre e infeliz.
    Quem quiser dar uma guinada na vida, primeiro deve reconhecer que não está fazendo o que gosta. Segundo, começar uma nova profissão à noite ou nos fins de semana. Exercer sua vocação paralelamente a outra atividade que dê retorno financeiro imediato. Assim que puder, dedicar-se integralmente ao seu desígnio.

  4. Paula de Andrade - 16 8 2009 às 21:38

    Hoje é domingo… estou sofrendo da Síndrome da Segunda-Feira! Infelizmente pra mim trabalho não é a “minha obra”. Eu não me reconheço no que faço e tampouco no que crio. É uma tristeza muito grande acordar todos os dias e dizer: TENHO QUE ir trabalhar. E mais triste ainda é reconhecer o trabalho como sendo estranho a você e ver como é difícil se desvencilhar deste caminho. Você se torna dependente do dinheiro que seu trabalho proporciona e falta tempo pra dedicar-se àquilo que realmente traz realização pessoal. A vida é dilemática: alguns têm a oportunidade de realizar uma atividade lhes traz prazer, entretanto financeiramente não são recompensados; enquanto outros, como é o meu caso, tem o retorno financeiro mas são infelizes! Felizes mesmo são aqueles que conseguem conciliar as duas coisas! Acho que isto é uma realização de poucos sortudos! Gostaria de poder compartilhar frustações e sonhos com profissionais que também sentem-se infelizes no trabalho!

Deixe seu Comentário

ASSINE O FEED

... ou receba meus posts por e-mail

Destaque

Arquivos por mês

Direitos autorais

Comentários recentes

Artigos recentes

Categorias