Toda unanimidade é burra

Quando Nelson Rodrigues disse que “toda unanimidade é burra”, talvez ele não soubesse, mas estava apenas repetindo um conhecimento muito antigo.

Em primeiro lugar, a frase do dramaturgo está em um artigo maior que não consegui encontrar integralmente, apenas um trecho (se você encontrar, me avise): “Na hora de odiar, ou de matar, ou de morrer, ou simplesmente de pensar os homens se aglomeram. (…) A opinião unânime está a um milímetro do erro, do equívoco, da iniqüidade. (…) Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”

No entanto, comecei a ler o livro A Alma Imoral, de Nilton Bonder e já começo a encontrar trechos interessantes:

Toda lei que não deixa em aberto a possibilidade de sua execução, justamente por sua obediência, é uma arbitrariedade. Uma curiosa postulação do Talmud enfatiza este conceito através da desqualificação da unanimidade. O que à mente moderna e democrática pareceria um modelo é percebido pelo Talmud como um desastre potencial para os interesses humanos. Segundo o Tratado de Sanhedrin, em casos de julgamento de penas capitais – quando se faziam necessários 23 juízes -, caso houvesse unanimidade na condenação do réu, o julgamento era desqualificado e este liberado. O sentido de tal lei, expressão da alma e obviamente subversiva, é a desconfiança de que um processo possa ser tão bem conduzido que não paire qualquer dúvida quanto a uma leitura diferente da situação. A unanimidade expressa uma acomodação à verdade absoluta que é insuportável à vida e que tem grande potencial destrutivo.

E, a seguir um trecho conclusivo de que gosto muito:

É a alma que detecta isso, são seus interesses que ficam prejudicados nessa unanimidade. A opinião pública, os dogmas, as convenções, a moralidade e as tradições podem muitas vezes querer representar uma unanimidade que os desqualifica como determinadores do que é justo, saudável ou construtivo.

Se você gostou desse tema, talvez também goste de 12 Homens e uma Sentença, um filme de Sidney Lumet:

Doze jurados devem decidir se um homem é culpado ou não de um assassinato, sob pena de morte. Onze têm plena certeza que ele é culpado, enquanto um não acredita em sua inocência, mas também não o acha culpado. Decidido a analisar novamente os fatos do caso, o jurado número 8 não deve enfrentar apenas as dificuldades de interpretação dos fatos para achar a inocência do réu, mas também a má vontade e os rancores dos outros jurados, com vontade de irem embora logo para suas casas.

Com Henry Fonda, é um dos melhores filmes a que assisti neste ano. Uma aula sobre argumentação, negociação, ética, atuação e, no mínimo, um alerta para prestarmos um mínimo de atenção às vozes discordantes.




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