Sabe quando pegamos um texto bem escrito, daqueles em que as palavras parecem estar em seu lugar exato, sem sobras ou faltas? Sabe quando o prazer da leitura chega a superar o interesse pelo assunto?

Talvez esse seja o texto de um grande autor.

Ou talvez seja o trabalho de um grande revisor – esses anônimos que tornam tudo mais claro e bem escrito.

Em um dos contos do livro Beatriz, Cristovão Tezza fala sobre o trabalho de correção do ponto de vista de um revisor. Depois de ler esse livro não apenas passei a olhar com muito mais admiração para os revisores, como também senti uma vontade imensa de estudar português para entender a arte destes magos do bem escrever.

Um trecho do livro em que ele descreve sua personagem que é também revisora, Beatriz, trabalhando:

Um dia ruim desde o começo ela diria depois ao refazê-lo passo a passo ao policial gentil. Começou com uma falsa boa notícia – alguém lhe deixou na portaria uma dissertação de mestrado para ser revisada, e que ela desse um preço pelo serviço. Uma obra de engenharia, o texto e a correção, Beatriz diria azeda ao relembrar – tudo sobre concreto armado, e as frases eram vigas tortas e intermináveis. Para aproveitar o dia, tomou o lápis e começou a reescrever tudo, quebrando senteças a golpes de pontos e virgulas, colocando sujeitos onde não havia, ligando verbos a substantivos, plurais a plurais – ainda bem, lembrou, que aquilo estava impresso em espaço dois, com uma boa faixa de escape, a letra firme e redonda se espiralando miúda em colchetes aqui e ali, encaixes acolá, uma troca de adjetivo, uma concordância adiante, um adendo a margem. Já estava na página 27 quando ergueu o telefone para ouvir a voz do dono, um engenheiro apressado que foi direito ao assunto: Quanto custa? Ela deu o preço, o dobro que o normal, mas o texto exigia, frase a frase – o que talvez o engenheiro não percebese é que ao fim de tudo ele seria Mestre, autor de um belo trabalho de cálculo sobre pedras, vergalhões, cimento e areia, mas a contrapartida do solo, tudo de modo que os seres humanos letrados conseguiriam ler, mas Beatriz ficou inibida, como sempre, para proclamar as próprias qualidades, que afinal ele já deveria saber pelos outros ou não teria deixado aquilo com ela. Não, é muito caro.

(…) o filho da mãe é engenheiro, essa revisão não tem preço; e restava-lhe agora um problema ético: já havia corrigido por conta própria 27 páginas – não podia cobrar, porque o bilhete do homem deixava claro que ligaria antes para saber do orçamento. Devolver com a parte corrigida para aquele jegue ver o que perdeu? Sentir a diferença entre um texto estropiado e um texto bem escrito, nítido, conciso, luminoso? Ou apagar tudo com a borracha, para que aquilo voltasse ao seu lugar no mundo, a escuridão intocada do texto ruim e de seus sentidos secretos e inescrutáveis, lá no fundo da caverna do que ele quis dizer(…)”

Cristovão Tezza, no livro Beatriz

Sobre o autor: Marcela Ortolan

Andarilha convicta, leitora apaixonada, behaviorista radical. Acredita que o mundo é grande demais para que apenas uma arte tenha o seu monopólio.