Notável este trecho de A Alma Imoral, de Nilton Bonder. Não vejo outro recurso em, sendo um traidor e um transgressor, reproduzi-lo integralmente:

Nos comentários rabínicos, um pequeno “ato falho” tem interpretação interessante. Quando Moisés se aproxima do faraó para pedir-lhe que liberte seu povo, o faraó do Egito faz um desafio: “Mostre-me algo que te surpreenda.” Os rabinos logo perguntam: “Não deveria ser: ‘Mostre-me algo com que eu me surpreenda’?” E logo respondem, esclarecendo que o faraó era homem muito esperto e vivido e que sua pergunta era correta. Se Moisés é alguém que deve ser respeitado, tem de mostrar que é alguém que se surpreende, e não alguém que surpreende os outros.

Surpreender-se é, na realidade, a maior prova de poder de um ser humano. Surpreender os outros é fazer uso de nossos truques já dominados; surpreender a si mesmo é ser um mago diante daquele que nos julgávamos ser.

O herói do corpo é aquele que surpreende os outros e os seduz. Seus poderes são fazer uso do passado e de suas mágicas. O que já foi feito, dito, visto, falado e escutado passa a ser o instrumento para surpreender os outros. Já o herói da alma é aquele que surpreende a si mesmo e seus poderes são o que ainda não foi feito, dito, visto, falado ou escutado. O futuro e a possibilidade de não-convencionalidade são o instrumento de poder desse herói. Trair a nós mesmos e nos surpreender conosco é algo de grande força. Enquanto o corpo se deleita com as conquistas de sedução, a alma o faz nas conquistas do assombramento pela surpresa.

Os maiores pecados para a moral não são as tentações do corpo, mas os pecados da alma. As seduções da estética, da pureza, do absoluto, do autoritarismo e da certeza são conquistas da moral e da tradição do corpo. São, no entanto, os pecados – tal como a transgressão de Adão e Eva é apresentada – que elavam a alma.  Isso não é satânico, mas a perspectiva da alma. Porque as surpresas do relativo, das misturas, dos erros, das espontaneidades ou dos pecados fortalecem a alma e lhe ofertam seu nutriente mais importante: a evolução.

Estou surpreso.

Por outro lado, eu sou um cara que consegue fazer cócegas em si mesmo.

Acho que é um bom começo.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!