Publiquei a opinião de um leitor sobre o fato de que um livro com uma tradução plagiada seria mais barato que a própria fotocópia do caro livro com a tradução original.
A Denise Bottmann contra-argumentou:
um tipo de argumento complicado.
1. já demonstrei com vários exemplos que a história de “preço baixo” da martin claret, tanto em termos absolutos quanto em termos relativos, é um mito.
2. além do mais, essa ideia de que estudante duro ou pessoal com pouca grana tem mais é que dar graças a deus por poder comprar coisa de quinta categoria é realmente nefasta. “pobre tem mesmo é que se lixar”, parece-me ser o pressuposto oculto por trás desse tipo de raciocínio miserabilista. ainda bem que várias editoras sérias, íntegras e honestas oferecem livros a preços acessíveis e estão aí para desmentir esse nexo estudante-sem-grana / livro-falsificado.
3. a questão de fundo passou batido: não por acaso a martin claret começou a florescer na trilha do plágio em 1999, na esteira da reacionaríssima lei 9610 de 1998, proibindo qualquer tipo de xerox. daí a importância da revisão em curso da lei do direito autoral, para flexibilizar o acesso das pessoas aos bens intelectuais. isso significa liberar novamente o xerox, permitir a digitalização e a cópia digital e – um grande avanço – o licenciamento compulsório de obras esgotadas ou fora de circulação.
4. não vejo como cidadãos honestos abaixarem a cabeça e aceitarem um gato falsamente barato por lebre possa em algum momento resultar em saldo positivo. pelo contrário, o único saldo que vejo são artigos, ensaios, dissertações, teses analisando as soluções conceituais de “pietro nassetti” para problemas colocados no original grego de aristóteles ou as soluções de “leopoldo holzbach” na passagem de kant sobre a verdade x a veracidade (aliás, casos que também já tratei no blog). não vejo como tais desserviços poderão resultar em algum conhecimento sólido. e não vejo como tais empulhações intelectuais poderão sequer remotamente contribuir para a credibilidade do trabalho intelectual sério. em suma, não vejo como de erva daninha poderia frutificar o trigo para o pão do intelecto.
5. se o comentário do leitor acima não é uma defesa do plágio, o que é, então? como já disse alguém, plágio não tem defesa, tem cúmplice.
Ao que o leitor, que assina como Borboleta, respondeu:
Compreendo os argumentos e o fundo de indignação da Denise.
Todavia, discordo quanto a alguns pontos.
Primeiramente, no caso específico das obras citadas (’Crítica da razão pura” e “República”), não há perda de valor quanto à tradução, visto que a tradução é praticamente literal, não ocorrendo nem as famosas “inversões de período’, o que ocorre,por vezes, é a substituição de algum termo de ligação entre as frases; na realidade, no caso da “República”, por exemplo, o que poderia se objetar é a simplificação da paginação lateral das obras, as quais, todavia, ainda assim permitem a identificação universal das passagens dos textos. Quanto a outras obras, não sei e não posso opinar, mas quanto às acima citadas garanto: não há perda que inviabilize a utilização das mesmas no âmbito da academia.
Quanto à impossibilidade de universalização do “argumento”, não objeto sobre isso. Todavia, relembro que não pretendi o apresentar como argumento – “por isso, não uma defesa do plágio” – mas, fazer uma “constatação” empírica que, quer queira quer não, é inegável. Por exemplo, nas disciplinas que ministro sobre Platão, apesar de trabalhar precisamente os livros VI e VII, preciso de que os alunos tenham o texto “in totum”, uma vez que necessito de recorrer a argumentos que se desenvolvem por todo o livro. Além disso, é necessário que o texto seja um boa tradução, até para que se possa desenvolver o trabalho final sobre o mesmo; assim sendo, nem adianta vir com a edição dos Pensadores, porque, para a academia, não presta mesmo. A edição que adoto, como tradução base, é a da Maria Helena da Rocha Pereira; diante disso, os alunos se encontram diante de três possibilidades: comprar a tradução da Calouste (em média 105 reais), comprar a cópia plagiada da Martin Claret (em média 9 reais), recorrerem às fotocópias (em média 30 reais). Ora, não precisa muito discurso para advinhar a opção mais em voga… por outro lado, acreditar que seja uma “opção” dos alunos adquirirem a edição da Martin ao invés da Calouste é no mínimo desconhecer a realidade, no máximo, uma ingenuidade. Claro que haveria outras possibilidades: não ter nenhuma tradução para acompanhar o curso, adquiririr outras traduções “de quinta categoria” e trabalhar com elas, ou, então, usar, por exemplo, alguma tradução confiável e acessível como, por exemplo, da Flammarion, boa, com estudos introdutórios e com custo médio de 30 reais (mas, nesse caso, infelizmente, a educação secundária não permite que os alunos cheguem no primeiro ano de curso lendo em francês).
De qualquer modo, mais uma vez reitero, minha “opinião”, sobre as “duas obras especificadas”, não é um “argumento” a favor do plágio, mas, apenas uma constatação. Quanto a qual seria a solução, se uma flexibilização da lei do direito autoral frente à fotocópia ou outra qualquer, não sei e nunca pretendi opinar sobre o assunto. Respeito todos aqueles que desejem nortear sua conduta prática a partir de suas concepções morais, sejam embasadas em raciocínios éticos ou legalistas. Por outro lado, respeito também aqueles que optam por remediar os entraves monetários que poderiam inviabilizar seu acesso aos textos adquirindo uma edição plagiada. Se fosse o caso da edição ser ruim, ou uma cópia de quinta categoria, eu teria motivos suficientes para não recomendá-las; mas, no caso presente, onde as traduções, de uma perspectiva de sua fidelidade ao original grego, são tão aceitáveis como as originais, sinceramente não posso em nada me opor.
No mais, se, apesar das contingências, a senhora Denise acredita que a única possibilidade para a regulação moral das ações consiste na universalização categórica dos juízos – “plágio não tem defesa, tem cúmplices” – então, nesse caso, declaro-me culpado pelo crime de cumplicidade.
Mas, de qualquer maneira, mais uma vez reitero, meu argumento não visa ser uma defesa ao plágio, mas apenas a constatação empírca deste caso específico,portanto, sua universalização não seria algo aceito por mim.
E você? O que faria no lugar de um professor de Filosofia?









