Sobre piadas, o fim da inteligência ética e o politicamente correto

Escrevi no Twitter: para termos que escolher entre o politicamente correto e o politicamente incorreto, a inteligência ética deve ter morrido.

A Ética não é um conjunto de regras fechado. Qualquer tentativa de normatizá-la é reduzi-la. Para uma compreensão ética do mundo e de nossas atitudes é preciso inteligência e conhecimento do outro.

Petrificar as condutas humanas é admitir que essa inteligência não existe. Admitir que essa inteligência não existe é impedir que ela se desenvolva através das mesmas amarras que a petrificam.

Essas amarras podem ser de muitas espécies. A mais nauseabunda, hoje, é o que se chama de politicamente correto. Nauseabunda porque aceita como um bem.

A pressuposição de que é preciso uma regra, socialmente aceita – para que eu saiba o que e como dizer e como agir – silenciosamente afirma que eu não sou inteligente suficientemente para ser livre para escolher o que e como dizer e como agir.

Pois cada situação exige um dizer e um agir.

A coerência social muitas vezes não diz respeito à coerência individual. E mesmo a coerência individual de hoje pode não dizer respeito à coerência individual de ontem do ponto de vista ético.

Diferentemente do que se pensa, a Ética nada tem a ver com o que é correto ou incorreto. A Ética escapa a visões de duas cores.

Se eu ajo corretamente porque a ação errada me é vedada – por uma lei, escrita ou não, ou por uma criatura divina -, o agir correto perde seu valor. Se algo me diz o que é correto, de antemão, a minha liberdade é castrada. E a minha inteligência para medir as consequências de meus atos para mim e para o outro que convive comigo, subestimada.

Posso ser menos responsável, nesse caso. Mas menos livre e menos ético.

Um dos primeiros campos em que o politicamente correto irá agir é o humor pois o humor é um dos termômetros da inteligência. Se eu preciso de algo que me diga aquilo de que posso ou de que não posso rir, o humor perde em espontaneidade e liberdade. Perde seu valor ético.

Tenderá ao humor de bordão, em que rio porque adivinho (ou acho que adivinho) o final da piada e me sinto inteligente (sem ser). Aquele do tipo A Praça é Nossa ou Zorra Total.

E será menos o humor em que sou surpreendido e minha inteligência é desafiada por essa surpresa e me faz rir ao, numa fração de segundos, chegar ao entendimento, quando recupero o chão e os liames da lógica. Esta é a razão porque uma piada é inútil ao precisar ser explicada. Eu preciso ser inteligente de fato em maior ou menor grau para adivinhar seu sentido.

A partir do momento em que o seu humor passar a ser policiado pelo politicamente correto pode ter certeza: você não entendeu a piada. Não importa qual seja ela. E isso não tem graça nenhuma.

piada

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Postado em Educação.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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