Sobre parar de publicar livros; e uma tragédia
23 de setembro de 2009 | Publicado na Categoria mercado editorial | 12 Comentários »Pelo menos 97% dos lançamentos de livros no Brasil – e talvez no mundo – acontece em nome de gente que quer apenas – e não mais – ter uma noite de autógrafos.E isso com direito a um vaso de flores na mesa e uma fila de rostos conhecidos com a sua obra nas mãos a espera de um garrancho numa das páginas iniciais.
Sim, eles sempre chamam seus livros de obra.
A porcentagem redonda, que estimei no primeiro parágrafo, se deve mais ao meu otimismo que à minha precisão.
Mas, ao dizer isso, sou tão original quanto um pingüim de geladeira.
Paulo Polzonoff Jr já tinha revelado isso em seu divertido livro O Cabotino. Que não, não teve noite de autógrafos: devo dizer antes que o coral vocalize suas tercinas.
Ivan Lessa, em algum momento de seu texto de resoluções de ano novo para 2007, também recomendou que se parasse de lançar tantos livros. Eles estão ficando mais iguais, mais chatos e maiores a cada dia.
A recomendação do escritor, aos iniciantes sobretudo, é: blogue.
Cada vez que deparo um livro ruim lançado por alguma lei de incentivo à cultura – municipal, estadual ou federal – penso que de um jeito ou de outro financiei aquilo e penso em entrar na tal fila, mas para pedir meu dinheiro de volta.
De qualquer forma, pelo menos uma pessoa será enganada nessa transação: ou o leitor que compra algo que não esperava ou desejava ler e o escritor que acha que cada venda corresponde a um livro lido e a um leitor satisfeito.
E, nos dois casos, me vem a imagem da mesinha, o orgulhoso autor por trás dela, caneta em punho, um vaso com flores xexelentas, a fila.
A minha recomendação ao escritor iniciante é consonante com a de Lessa: blogue. Mas não estou sendo irônico quando digo isso.
E, sim, esqueça a noite de autógrafos. Isso é uma bobagem que as vinícolas inventaram para vender mais vinho barato.
Você como escritor iniciante precisa ter uma coisa em mente. O seu objetivo como escritor. Preciso repetir que não é uma noite de lançamento?
Também espero que você não ache que é ganhar dinheiro logo no primeira edição.
O seu objetivo é chegar a seu leitor.
É isso.
Se essa abstração chamada de “o seu leitor” é formado por um público de dez ou dez mil pessoas, isso não importa em um primeiro momento.
Para chegar até ele, você antes precisa de um meio de fácil e barata propagação. A internet é esse meio. Em sua imensa abrangência geográfica, a única fronteira é a língua.
Como editor do caderno de cultura de um pequeno jornal de Curitiba tive a chance de conhecer diversos escritores que atulharam suas garagens com edições – bancadas por leis de incentivo – e que lá ficaram, com exceção de alguns volumes distribuídos a tias e à imprensa. O que dá na mesma.
O leitor que tanto se identificaria com os escritos – bons ou maus – dessas pessoas, mas que vivia no Acre, jamais saberá que eles existem. Esses livros não chegarão lá. Quanto mais ao seu leitor que vive em uma das esquinas de Nova York. Distribuição é uma coisa complicada.
No entanto, inventaram duas coisas muito bacanas da qual talvez você já tenha ouvido falar: internet e mecanismos de busca. E você pode obter os benefícios delas até mesmo de graça, sem apelar para o bolso do contribuinte, mendigar uma edição em uma grande editora ou pagar do próprio bolso uma publicação sofrível.
A internet serve, no seu caso, para disponibilizar o conteúdo – seu livro. O mecanismo de busca serve para que o leitor, ora veja só, encontre justamente o que está procurando. E, se ele for o seu leitor, adivinhe o que ele encontrará.
Essas duas coisas, trabalhando juntas – de uma forma tão estupidamente lógica que me dá vergonha de explicar – já me trouxeram algumas alegrias.
E algumas tristezas. Há algum tempo eu passei a publicar meus contos em um site chamado Cracatoa Simplesmente Sumiu. Em pouco tempo, uma leitora brasileira que, então, morava no Japão passou a se corresponder comigo.
E até mandou-me alguns livros de lá de presente, uns de arte erótica e uns mangás meio pornôs.
Por minha vez, enviei-lhe mais livros. Sim, eu gosto de livros, é óbvio. Também não acho, de verdade, que se deva parar de publicá-los, ora bolas. Ela havia pedido duas ou três obras brasileiras que não encontraria por lá de jeito nenhum.
E o contato tão legal com essa leitora me deixou muito feliz, pois não aconteceria se eu tivesse publicado minhas crônicas e contos pelas vias gutemberguianas.
Eu só a encontrei porque publiquei na internet. E, assim, atingi meu objetivo como autor de algo. Um objetivo nem excessivamente humilde nem excessivamente glorioso. Um objetivo na medida.
No último e-mail que trocamos, ela avisou que iria para a Indonésia. Cheguei até a receber um postal de lá, dias mais tarde, agradecendo pela pequena remessa de livros.
Foi o ano do tsunami. Nunca mais tive notícias dela. Se eu tivesse publicado um livro em vez de publicar em um blog, essa tragédia teria sido apenas mais uma tragédia de telejornal. Agora ela é uma tragédia minha.

Só para saberes…
Absolutamente fascinante! Sem dúvida que o que fazes tem dimensão para chegar ao Japão, Indonésia e muito mais, mas compreender como isso acontece, como o mundo se interliga, é impressionante!
Cara,
Que bárbaro! Esse seu post, como sói acontecer por aqui, trouxe-nos a marca da sua inteligente, da perspicácia no desenvolvimento de uma temática tão relevante, mas ele também teve a nota aguda da comoção, e que também podemos experimentar, nesses nossos tempos, por meio dessa experiência de internautas. Fiquei, de verdade, comovido.
Alessandro, você resumiu com perfeição de que modo a internet pode agregar ao trabalho de escritores. Quem estiver disposto a deixar de lado o desnecessário “glamour” e atuar de forma prática, na internet, através de um blog, verá que a coisa funciona bem assim mesmo, e quando se der conta, seu blog/projeto está assumindo proporções jamais imaginadas.
Sonhar com noite de autógrafos é a mesma coisa que gostar mais da vernissage do que da sujeira do atelier, gostar do palco e não das aulas e dos ensaios, sonhar mais com a cerimonia de casamento do que o dia a dia com o conjuge. Acontece e muito. Conheci meia dúzia de pessoas que sem vernissages/ estréias/ noites de autógrafo/ cerimônia simplesmente não se dariam ao trabalho.
Em termos de público, você tem toda razão. Mas em termos de vaidade, é diferente. Falta o olho no olho, os elogios (sinceros ou não), a média com os amigos. Por isso que a vaidade é o pecado favorito do Diabo (no Advogado do Diabo).
Concordo que os incentivos culturais são pífios e apropriam estupidamente do dinheiro do contribuinte. Mas creio que a qualidade de um livro é um lance bem relevante. Só de pensar que pelo menos 20 pessoas do circulo pessoa do escrito vá ler, já é algo. E ninguém é um Saramago da vida. Também acho razoável que não se estimule tanto o crescimento da blogosfera, assim – tem dois lados, que não vem ao caso.
Forte Abraço!
Noite de autógrafos?
Prefiro respeito e reconhecimento!
Escrever além de ser a vida do escritor apaixonado pela escrita também é o prazer de ter seu dever cumprido em enviar a felicidade às pessoas através dos seu sentimentos!
Dizer o que de um texto brilhante? Só resta bater palmas.
Atesto a veracidade e concordo. Quando publicava um blog de contos no blogspot recebi comentários de donos de livrarias solicitando que enviasse meus contos para as editoras. Um comentário dizia: “Eles publicam cada lixo hoje que a gente precisa rezar para vender”.
Vai direto ao encontro do que você relata aqui. Tenho planos e sonhos de escrever um livro, não nego, mas comecei com blogs e não parei mais… A resposta do leitor é imediata e até dá para ganhar “um qualquer”. (rs)
Realmente, tem quem escreva somente sonhando com a vida supostamente glamourosa de escritor. Como o João Ubaldo Ribeiro conta em sua crônica O conselheiro come (http://www.almacarioca.com.br/cro68.htm): pensam que ele ganha 1 milhão de dólares por mês, tem iates e carros de luxo e come 9 entre 10 estrelas de cinema. E como já comentei aqui, escritores enviam originais para a sua casa na esperança de serem publicados e também ganharem 1 milhão de dólares por mês, ter iates e carros de luxo e comer 9 entre 10 estrelas de cinema.
Mas que história a da leitora que foi pra Indonésia. Que pena se ela morreu no tsunami.
Brilhante esse post. Clareza total, visão do futuro (e do presente), esperteza no seu raciocínio. Estou no processo de revisão do meu primeiro livro, e ainda não mandei para nenhuma editora nem sei se mandarei. Pra quê? A internet hoje vai possibilitar com mais facilidade o meu objetivo: alcançar algum leitor interessado no que falo, claro. Senão não se escreveria. Em parte já vou fazendo isso de algumas outras formas, em vídeos ou áudio e disponibilizando por aí. Por enquanto acho que é assim.
Glup!
Engoli o pigarro, pensei sobre e lembrei-me da coleção de livros chatos que recebi por aí.
Poesias de rimas fáceis, auto-ajuda que leva à perdição, textos sem nexo que me dão sono.
Vou sim à internet, lá ao menos não vou jogar meu dinheiro fora.
A arte de escrever demanda muito tempo e conhecimento e sem que nem todo mundo está disposto a ler o que escrevemos.
Tenho meu blog e lá escrevo o que penso, o que acho e o que quero. Visita quem quer, gasta seu tempo quem gosta e sai a maioria, mas os que ficam me entendem.
Alessandro:
A sua tragédia brasileira/indonésia agora está dividida…
Estudo literatura e criei meu blog de contos há 2 anos para me disciplinar e escrever um livro de contos “gutenberguiano”, para chegar aos leitores(R$ nem pensar!).
Administrar o ego-eis o problema.
Saudações literárias de Jackson.