Pelo menos 97% dos lançamentos de livros no Brasil – e talvez no mundo – acontece em nome de gente que quer apenas – e não mais – ter uma noite de autógrafos.E isso com direito a um vaso de flores na mesa e uma fila de rostos conhecidos com a sua obra nas mãos a espera de um garrancho numa das páginas iniciais.

Sim, eles sempre chamam seus livros de obra.

A porcentagem redonda, que estimei no primeiro parágrafo, se deve mais ao meu otimismo que à minha precisão.

Mas, ao dizer isso, sou tão original quanto um pingüim de geladeira.

Paulo Polzonoff Jr já tinha revelado isso em seu divertido livro O Cabotino. Que não, não teve noite de autógrafos: devo dizer antes que o coral vocalize suas tercinas.

Ivan Lessa, em algum momento de seu texto de resoluções de ano novo para 2007, também recomendou que se parasse de lançar tantos livros. Eles estão ficando mais iguais, mais chatos e maiores a cada dia.

A recomendação do escritor, aos iniciantes sobretudo, é: blogue.

Cada vez que deparo um livro ruim lançado por alguma lei de incentivo à cultura – municipal, estadual ou federal – penso que de um jeito ou de outro financiei aquilo e penso em entrar na tal fila, mas para pedir meu dinheiro de volta.

De qualquer forma, pelo menos uma pessoa será enganada nessa transação: ou o leitor que compra algo que não esperava ou desejava ler e o escritor que acha que cada venda corresponde a um livro lido e a um leitor satisfeito.

E, nos dois casos, me vem a imagem da mesinha, o orgulhoso autor por trás dela, caneta em punho, um vaso com flores xexelentas, a fila.

A minha recomendação ao escritor iniciante é consonante com a de Lessa: blogue. Mas não estou sendo irônico quando digo isso.

E, sim, esqueça a noite de autógrafos. Isso é uma bobagem que as vinícolas inventaram para vender mais vinho barato.

Você como escritor iniciante precisa ter uma coisa em mente. O seu objetivo como escritor. Preciso repetir que não é uma noite de lançamento?

Também espero que você não ache que é ganhar dinheiro logo no primeira edição.

O seu objetivo é chegar a seu leitor.

É isso.

Se essa abstração chamada de “o seu leitor” é formado por um público de dez ou dez mil pessoas, isso não importa em um primeiro momento.

Para chegar até ele, você antes precisa de um meio de fácil e barata propagação. A internet é esse meio. Em sua imensa abrangência geográfica, a única fronteira é a língua.

Como editor do caderno de cultura de um pequeno jornal de Curitiba tive a chance de conhecer diversos escritores que atulharam suas garagens com edições – bancadas por leis de incentivo – e que lá ficaram, com exceção de alguns volumes distribuídos a tias e à imprensa. O que dá na mesma.

O leitor que tanto se identificaria com os escritos – bons ou maus – dessas pessoas, mas que vivia no Acre, jamais saberá que eles existem. Esses livros não chegarão lá. Quanto mais ao seu leitor que vive em uma das esquinas de Nova York. Distribuição é uma coisa complicada.

No entanto, inventaram duas coisas muito bacanas da qual talvez você já tenha ouvido falar: internet e mecanismos de busca. E você pode obter os benefícios delas até mesmo de graça, sem apelar para o bolso do contribuinte, mendigar uma edição em uma grande editora ou pagar do próprio bolso uma publicação sofrível.

A internet serve, no seu caso, para disponibilizar o conteúdo – seu livro. O mecanismo de busca serve para que o leitor, ora veja só, encontre justamente o que está procurando. E, se ele for o seu leitor, adivinhe o que ele encontrará.

Essas duas coisas, trabalhando juntas – de uma forma tão estupidamente lógica que me dá vergonha de explicar – já me trouxeram algumas alegrias.

E algumas tristezas. Há algum tempo eu passei a publicar meus contos em um site chamado Cracatoa Simplesmente Sumiu. Em pouco tempo, uma leitora brasileira que, então, morava no Japão passou a se corresponder comigo.

E até mandou-me alguns livros de lá de presente, uns de arte erótica e uns mangás meio pornôs.

Por minha vez, enviei-lhe mais livros. Sim, eu gosto de livros, é óbvio. Também não acho, de verdade, que se deva parar de publicá-los, ora bolas. Ela havia pedido duas ou três obras brasileiras que não encontraria por lá de jeito nenhum.

E o contato tão legal com essa leitora me deixou muito feliz, pois não aconteceria se eu tivesse publicado minhas crônicas e contos pelas vias gutemberguianas.

Eu só a encontrei porque publiquei na internet. E, assim, atingi meu objetivo como autor de algo. Um objetivo nem excessivamente humilde nem excessivamente glorioso. Um objetivo na medida.

No último e-mail que trocamos, ela avisou que iria para a Indonésia. Cheguei até a receber um postal de lá, dias mais tarde, agradecendo pela pequena remessa de livros.

Foi o ano do tsunami. Nunca mais tive notícias dela. Se eu tivesse publicado um livro em vez de publicar em um blog, essa tragédia teria sido apenas mais uma tragédia de telejornal. Agora ela  é uma tragédia minha.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!