Sobre as vantagens de ser mortal e a procrastinação

Todo o mundo vai morrer. Um de cada vez, aos punhados ou todos ao mesmo tempo. Quem sabe?

Pelo menos por enquanto, para efeitos estatísticos, temos uma data de validade que chamamos de expectativa de vida. Alguns vão embora muito depois de ela ter expirado e outros, antes.

Neste fim de semana, vi um programa apresentado por Pedro Bial, na Globo News, sobre esse tema, a imortalidade. A certa altura, perguntava o repórter às pessoas da rua se elas gostariam de ser imortais.

Não tive a chance de responder, mas se me perguntassem diria que não.

Não gostaria de ser imortal. Gosto de projetos com prazo.

Machado de Assis tem uma frase (se algúem souber reproduzi-la com maior precisão, faça a gentileza) que diz que os prazos longos são mais frequentemente perdidos pois confundem-se facilmente com a eternidade.

Se, havendo a morte, temos a procastinação, que dirá sem ela. O mundo não andaria.

Porém, Jorge Luis Borges, em seu conto O Imortal, consegue dizer o que penso de maneira mais elegante:

A morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por dissolver-se como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do inditoso. Entre os Imortais, ao contrário, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outro que no passado o antecederam…

Os gestos humanos, por serem tão fugidios e irrecuperáveis na linha do tempo, são desse modo preciosos, irrecuperáveis, únicos.

Assim, o pior da procrastinação não é a procrastinação em si, mas o fato de ela impossibilitar essa dimensão de preciosidade aos gestos pelos quais optamos e que substituem aqueles que, por um motivo ou outro, deveríamos estar executando. Pois, enquanto fazemos o que escolhemos, as obrigações assumidas e adiadas nos tomam os pensamentos em forma de preocupação.

Bastaria, porém, executar a tal tarefa evitada, a fim de extingui-la, ou esquecê-la simplesmente, dedicando-se não só com o corpo, mas também com a mente, àquela pela qual se optou: dormir, ver uma série na tevê, assistir a um filme, ler um livro, sair com os amigos ou seja lá o que for. Dessa forma, não existiria sequer um segundo sem importância na vida de alguém. Os gestos de um desocupado dedicado a sua desocupação são mais plenos e brilhantes que o de um procrastinador atarefado (não estou falando sobre qual deles tem um padrão econômico melhor).

A procrastinação, assim, está entre as grandes tolices humanas: continuamos mortais e temos a inclinação mental de imortais. Resolvemos ficar com o pior dos dois mundos. Com a banalidade que há nos gestos daqueles que nunca morrerão e, ao mesmo tempo, com a morte.

Com a morte, que, até o momento, não é exatamente algo pelo que você possa optar ou não.

Postado em Variedades.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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