paz

Esse é um conceito que tem me incomodado um pouco ultimamente. Sempre que há relatos de situações em que houve violência, há quem comente que precisamos de mais paz nos relacionamentos, nas interações. Concordo com essa afirmação, mas de que paz estamos falando? Usualmente as pessoas pensam na paz como a ausência de conflito. Essa compreensão, se pegarmos a origem da palavra, não está totalmente equivocada. Mas então fica a seguinte pergunta: como anular o conflito em contextos de diversidade? Afinal de contas as pessoas são diferentes uma das outras, se constituíram enquanto cidadãos e sujeitos de formas distintas e tem opiniões diferentes sobre os mais variados temas. Quando essas opiniões diferentes se encontram, o que fazer? E quando dessas opiniões devem originar-se uma ou mais decisões, qual deve prevalecer? Com que critérios?

Fazer essas perguntas significa levantar questionamentos sobre direitos, deveres e, sobretudo, sobre humanidade, ou melhor dizendo sobre a condição humana: aquilo que nos dá direitos e deveres na vida social. Conviver uns com os outro nos obriga a fazer algumas concessões, mas onde está escrito que é sempre o mesmo conjunto de pessoas que deve fazer essas concessões? Sim, porque olhar ao longo da história nos permite perceber que, em nome da paz, muitos são oprimidos e poucos são privilegiados.

É aí que entra o segundo significado de paz: “sentimento de tranquilidade, de calma”. Esse sentimento somente é possível quando há segurança. Em tempos atuais, isso significa políticas públicas efetivas e respeito mútuo. Ou seja, para que todos sintam-se em paz, é necessário desenvolver o mínimo de empatia para conseguir abstrair-se do próprio umbigo e perceber que a outra pessoa é tão ser humano quanto eu, dotada de direitos, necessidades e deveres; dotada de razão e sensibilidade; e, por fim, de que a minha liberdade de escolha e de ação termina quando estas tendem a desintegrar a liberdade de ação e de escolha do outro.

Eventualmente haverá conflitos. Sim. Por que as pessoas são diferentes umas das outras. Em algum momento elas discordarão em ideias e posicionamentos. Mas o que impede, além da ilusão de superioridade, de que uma possa escutar a outra, analisar e avaliar os argumentos e, se for caso, ambas as partes abrirem mão de suas ideias originais para crescimento de ambas? Para que isso possa ser uma realidade é imprescindível que possamos nos juntar à uma caminhada mais intensiva rumo à Utopia, na luta por uma sociedade onde de fato todas as pessoas tenham acesso irrestrito ao atendimento de suas necessidades básicas (físicas e afetivo-cognitivas), à Educação, à Saúde, à Segurança, à Profissionalização, ao Trabalho digno e à efetiva participação política. Pois somente diante de uma realidade como essa todas as pessoas terão igual condições de debater e decidir, independentemente de sua identidade de gênero, de sua orientação sexual, religiosa ou política, de sua identidade étnica ou cultural, ou mesmo de sua idade. Porque, no final das contas, não existe paz se o tripé Justiça, Igualdade e Autonomia não estiver devidamente equilibrado.

photo credit: hapal cc

Sobre o autor: Carine Fernandes

Uma eterna aprendiz metida a mulher, psicóloga, mãe, esposa, filha, tia, sobrinha, neta, amiga, companheira e colega de trabalho, não necessariamente nesta ordem, imersa em conjecturas sobre a existência humana.