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Sobre a obrigatoriedade da leitura

26 de outubro de 2008 | Publicado na Categoria Educação | 28 Comentários »

Tudo o que é obrigatório é um pé no saco.

Veja o que diz Pierre Bayard, autor de Como Falar de Livros Que Não Lemos sobre isso:

Quase todo mundo defende que uma pessoa precisa ler muito, mas nem todos lêem? Por quê?

É justamente essa obrigação de ter que ler que nos impede de chegar aos livros. Sacralizamos tanto os livros, o fato de ler e ter que guardar todas as informações e detalhes dos textos, que acabamos morrendo de medo das palavras e, então,… não lemos. Prefiro evitar todo tipo de “dever” ou “obrigação” sobre esse assunto. A leitura é um ato de liberdade. Não há como impor regras a ela.

A propósito, a visão que o autor do artigo em que foi publicada a entrevista tem dos livros e da leitura é muito próxima da minha.

Sei que livros são bons. Para mim e para você que vem até aqui ou assina meu feed.

Mas nem todos os livros são bons e, mesmo os bons, não são bons para todo o mundo.

Existem muitos caminhos para o desenvolvimento pessoal.

Para mim e para você, leitura é essencial.

Mas leitura não é essencial em absoluto. Eu tento respeitar o caminho – ou o descaminho – alheio.

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28 Comentários para “Sobre a obrigatoriedade da leitura”

  1. Michelle Müller - 26 10 2008 às 7:26

    Alessandro….

    Importante estas tuas colocações, não gosto de arrogância literária, quando um sujeito se acha superior porque gosta de lê e tem fácil acesso ao letramento… a leitura está para além disso, como alfabetizadora de classes populares, sei bem como é difícil a leitura estar entre as necessidades de uma família que mal tem onde morar ou o que comer!

  2. Elisa Kerr - 26 10 2008 às 9:24

    Alessandro,

    Ler é importante, mas tem ser por prazer. Pode-se acostumar uma criança com a leitura desde bebezinho. Acostumei meus filhos a lerem ainda lendo para eles no berço. Qualquer leitura, desde imagem até infanto-juvenil. Minha preocupação era a de despertar para um hábito saudável. Meus dois filhos acostumaram a ler, o de 9 anos gosta de HQ´s e livros de aventura, enquanto a de 13 anos gosta de livros mais densos e acima de sua idade. Esse hábito passei, também, para minha ajudante domiciliar. Sempre presenteei seus filhos com livros e mandava os que meus filhos liam para que os dela pudessem ler. Deu certo!

  3. Elisa Kerr - 26 10 2008 às 9:53

    Michelle,
    Compreendo suas dificuldades, pois também trabalho com essa classe social. Mas isso não nos isenta da responsabilidade de despertar, nesse grupo, o interessa pela leitura. Temos que fazer nossa parte, mas isso não quer dizer que vamos alcançar nossos desejos e sonhos às vezes utópicos. Há muito mais por trás dessas dificuldades de leitura; não é apenas a fome e a falta de teto que os impossibilitam de aprender a ler e escrever. Mas a indiferença de nossas políticas governamentais e assistencialista, que os considera incapazes de conquistar seus próprios sonhos, e por isso eles precisam ganhar coisas do governo. E assim passam a interiorizar essa incapacidade de produzir, de trabalhar e de aprender. Esse ciclo vicioso acaba com qualquer possibilidade e aprendizagem do ser humano. É por isso que faço minha parte com muito amor e dedicação, pois somos gabaritados para trabalhar dentro da sala de aula, e essa luta está além das paredes dessa sala. É uma luta política.

  4. JLM - 26 10 2008 às 10:26

    A Elisa disse oq eu penso, Alessandro.

    Prazer é tudo. Temos de sentir q fazemos oq gostamos para fazer bem feito e com gosto. Até pra ficar com gosto de quero mais. Escolher o trabalho q gostamos, o lazer q gostamos, as pessoas q gostamos. Mas quase ninguém faz isso. Trabalha no q dá, se diverte no q dá, se associa (não com quem dá, senão soa mal) com quem está próximo. E com a leitura não é diferente.

    Vc fazer algo q não te dá prazer é algo impensável para mim. Eu procuro, qdo não sou obrigado, a pautar as minhas escolhas pelo q penso ou gosto. Eu leio pq me divirto, sinto prazer, viajo, me transformo com isso. Sei q se outros fizessem o mesmo tb aconteceria isso com eles.

    Mas não como uma obrigação, pq o efeito é o contrário. Por isso q já na adolescência aprendemos a não gostar de ler. A escola faz isso.

    1 abraço.

  5. Bruno Alves - 26 10 2008 às 12:25

    No meu tempo, criança começava a freqüentar a escola a partir dos cinco anos; só a partir dessa idade é que ela ia aprender a ler e escrever. Cheguei ao jardim de infância já sabendo ler e escrever, graças ao meu pai, que me ensinou usando histórias em quadrinhos. Leitura nunca foi um martírio prá mim; quando o professor de literatura obrigava a gente a ler os clássicos nacionais, a maioria dos alunos chiava, pagava a outro prá ler e por aí vai; eu achava maravilhoso e foi aí que descobri autores como o Machado, o Manuel Bandeira e o Aluísio Azevedo, meus preferidos. Então, tudo se resume a isso: o incentivo à leitura deve vir desde cedo, para que ela se torne um prazer.
    Elisa e Michelle, parabéns pelo trabalho de vocês para estimular a leitura nas classes populares!

  6. Sergio Grigoletto - 26 10 2008 às 14:06

    Bem, ando brincando com uma série de gadgets do futuro lá no blogue. A não se que humanidade retorne à esse estágio, ler é sim, absolutamente fundamental para o indivíduo.
    Falam (e fazem) uma tal inclusão digital para uma massa semi-analfabeta e não acredito que o enorme tesão em torno da conectividade ignore essa massa.
    Seria o mesmo que imaginar que pacotes de arroz seriam vendidos em boutiques, unicamente. Seria para poucos.
    E, concordo que leitura não pode ser obrigação. De início, dou a atual geração de iletrados como perdida, serão geradoras de outros ignorantes.
    E onde deveria entrar o papel do estado, para interromper o ciclo.
    Leitura como disciplina na grade escolar, é necessário, é urgente.
    Leitura, se não for encarada como atitude educacional para a vida (como fizeram na escola, com o escovar de dentes) nenhum progresso teremos.
    O que acho importante demais, é que o tema esta cada vez mais ganhando adeptos.
    Que bom.

  7. Elisa Kerr - 26 10 2008 às 14:35

    Sergio,
    Ainda pouco falei a Michelle como mestranda que leciona em Educação de Jovens e Adultos. Mas agora quem vos fala é uma professora de artes da rede municipal. Estou querendo assumir a sala de leitura de minha escola (a secretaria da educação da cidade de São Paulo incluiu leitura na grade curricular, uma aula por semana). Fala sério, quando pensa na postura que tenho que assumir para entrar na sala de aula… (postura de general). Ah!Isso não combina com incentivo, despertar, alcançar objetivos etc. Se o professor quer conseguir falar algo na sala de aula, ele tem que dar uns gritos. Recuso-me a isso! Mesmo assim de vez em quando tenho que apelar. Pense e me dê uma idéia, aceito sugestões, como incentivar esses alunos a lerem nessa sala. Teatro, fantoche, vídeos, isso tudo já é praticado. Ter que voltar o sarau para a família, isso sim. Essas crianças não têm apoio da família e se a família não ajuda pouco se pode fazer. Para sobreviver a essa frustração é necessário ter em mente que se um aluno despertou para a leitura já ganhei o ano. Como não posso salvar todos que estão se afogando, penso em um de cada vez. Quem sabe assim tiro todos, os que estão se afogando, de minha sala do mar!

  8. frost - 26 10 2008 às 15:30

    Alessandro,

    Eu não sou uma “autora”, mas um autor, homem, varão. :)

    Sérgio,

    Por que a leitura deve ser obrigatória na escola? Qual o benefício que um menino de 13 anos extrai da leitura de Memórias Póstumas de Brás Cubas? Você leu Vidas Secas no segundo ano do ensino médio? E Grande Sertão: Veredas? Macunaíma? Se você leu todos esses livros quando era moleque, você fez uma análise interdisciplinar de seus textos? E, se fez, por que não leu outras coisas? Por que não leu Paulo Coelho? E por que deu preferência à literatura nacional?

    Eu não encaro a leitura como atitude educacional para a vida. A leitura é só um processo. Pode ser bom ou ruim, dependendo dos fins desejados por aquele que lê.

    Eu não acho que eu deva incentivar ninguém a ler, e, para dizer a verdade, é esse tipo de arrogância (do tipo “temos que liderar os iletrados para os caminhos maravilhosos da leitura”) é que afasta as pessoas dos livros.

  9. Alessandro Martins - 26 10 2008 às 16:39

    Michelle,

    não deixe de acompanhar a discussão. Seu comentário teve uma quantidade de interações…

    Abraços!

  10. Alessandro Martins - 26 10 2008 às 16:40

    Elisa,

    obrigado por tantas contribuições ao debate…

    ;-)

    Só enriqueceu o post!

    Beijos do Ale.

  11. Alessandro Martins - 26 10 2008 às 16:41

    JLM,

    valeu pela participação JLM. Fique atento pois a continuidade do debate está interessante…

    Abraços do Alessandro.

  12. Alessandro Martins - 26 10 2008 às 16:42

    Bruno, obrigado pelo comentário. Fique atento pois o debate teve continuidade, caso já não esteja acompanhando. Abraços do Alessandro.

  13. Alessandro Martins - 26 10 2008 às 16:44

    Sérgio,

    não há dúvida que ler é importante. Mas eu não espero que ler desenvolva o senso de liberdade do indivíduo se o processo que induz à leitura não seja permeado por essa liberdade. Mas eu não preciso dizer a você o quanto isso é complicado. Em famílias como as nossas em que a leitura é incentivada isso é simples… mas nas outras…

    Abraços do Alessandro.

  14. Alessandro Martins - 26 10 2008 às 16:45

    Frost,

    alguma coisa me fez confundir o seu sexo no texto. Já está corrigido :-)

    Obrigado por ter passado aqui e enriquecido a discussão.

    Abraços do Alessandro Martins.

  15. JLM - 26 10 2008 às 17:43

    “Pense e me dê uma idéia, aceito sugestões, como incentivar esses alunos a lerem nessa sala.”

    Elisa, minha modestra sugestão seria a leitura (para o educador) do livro Como um Romance, do francês Daniel Pennac, q aborda pq alguns gostam de ouvir histórias qdo crianças e um pouco mais tarde invertem para o extremo de dizer q odeiam ler. Apresenta também a solução (simples) para isso. Achei bastante esclarecedor.

    1 abraço.

  16. Michelle Müller - 26 10 2008 às 21:08

    Elisa…

    Báh guria com certeza não nos isenta mesmo… aqui faço um trabalho árduo e intenso, mas acredito que minha posição ficou simplista demais :-) aqui onde trabalho e faço uma pesquisa sobre os espaços de leitura, percebo uma tendência de simplificação muito grande das condições para a formação do leitor, é um rol extenso de desculpas que se usam para justificar que um aluno de classe popular não goste de ler, e as duas que citei são as mais comuns, mas chegam a absurdos como que eles não tem capacidade de compreensão tão desenvolvida ou que não tem capacidade de dar o devido valor a uma obra literária, e são contra estes preconceitos que luto, não posso compactuar com uma biblioteca que guarda os livros novos e em bom estado em armário fechados aos quais os estudantes não tem acesso, mas isso é como tu disse um questão de políticas públicas, pois essa reprodução atende aos interesses daqueles que sabem que cidadão com compentência de leitura crítica é cidadão ativo e com poder de resignificar a sociedade!
    Sabes que é até curioso o que tu falastes sobre o incentivo aos teus filhos para a leitura, hoje fiz um post no blog sobre as atitudes que tomo com meu filho, aqui tem funcionado, meu pequeno adora…
    Adorei o debate que está sendo feito aqui…
    Ale, parabéns por levantar esta questão!!
    estrelinhas coloridas….

  17. Michelle Müller - 26 10 2008 às 21:23

    Bruno,

    Obrigada, mas sabes que só faço o meu papel mesmo, é minha profissão e a faço com muito prazer e seriedade! Acredito estar contribuindo para a formação de cidadão mais críticos e consicientes de sua cidadania! :-)

  18. Michelle Müller - 26 10 2008 às 21:23

    Elisa…

    Na classe de 1º ano este ano foi desenvolvido um trabalho lindo de incentivo à leitura que consiste na retirada de livros pelos alunos para levarem para casa e realizarem a leitura em família, a professora enviou um informativo explicando para os pais da importância da leitura para o processo de letramento e alfabetização, e todos colaboraram, após a leitura os alunos tinham um espaço (literal e temporal) para indicarem ou não a obra aos colegas e porque, neste projeto vimos crianças despertarem para leitura de maneira livre, pois mesmo não havendo obrigatoriedade todos queriam participar, enriquecer a capacidade argumentativa e a oralidade! Foi muito gratificante acompanhar este processo. Fica como uma sugestão, claro que nunca podemos esperar que um projeto seja adequado para realidades bem diferentes, mas mesmo assim é bom compartilhar estas experiências!
    estrelinhas coloridas pra ti…

  19. Michelle Müller - 26 10 2008 às 21:39

    Frost,

    Realmente não vejo o porque de um guri de 13 anos ler “Memórias póstumas de Brás Cubas” se não foi por vontade dele, penso que não se incentiva à leitura por imposição, o que já é contrataditório, pois a leitura é libertadora! E tu falas o porque ela tem que ser obrigatória na escola, pois bem obrigatória no sentido de ter que estar presente sim, pois ela é imprescindível para que se desenvolva no educando habilidades e compentências que serão importantes em todos os aspectos da vida. Mesmo que ele não adquira o hábito da leitura, ela tem de estar presente na escola sim, pois ela é essencial para todo o processo educacional, e se o aluno não ler ele não poderá fazer uma leitura interdisciplinar dos textos, uma coisa leva a outra, concordo contigo que as práticas educacionais que a maioria de nós foi submetida são equivocadas, mas não podemos atribuir esta culpa a leitura e sim aos agentes que fazem dela algo vazio e sem significado…
    estrelinhas coloridas

  20. elisakerr - 26 10 2008 às 23:15

    Michelle,
    Já que vc está fazendo uma pesquisa sobre salas de leitura, vou pedir ajuda. Se acaso vc cruzar com algo que fale sobre o espaço da biblioteca, me de um toque, estou precisando. Deixe o endereço de seu blog aqui, quero visitar.
    Obrigada pela dica, vou usar.

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