"Slow Blog", o jornalista Gay Talese e a parábola dos touros em cima do morro

Bruno Alves refletiu em seu blog sobre a escolha entre escrever primeiro ou pesquisar mais sobre um assunto. Obviamente, na velocidade com que as coisas acontecem na internet há uma série de pontos favoráveis à rapidez com que se publica uma nova informação, principalmente no que diz respeito à formação de uma sólida rede de links.

Mais por considerá-la engraçada do que por julgá-la perfeitamente apropriada, contei-lhe uma parábola:

Um touro mais velho e um touro mais novo olhavam diversas vacas do alto de um morro.

- Ei – disse o touro mais novo – Vamos descer lá correndo e pegar uma vaca.

- Não – disse o touro mais velho – Vamos descer andando e pegar todas.

De fato, ela não se aplica com exatidão, como observou o Bruno Alves em sua resposta ao comentário.

Na verdade, considerando as características dos blogs, o touro mais velho se contentaria, e muito, em pegar apenas a melhor vaca e pegá-la o mais pegadamente possível, se é que me faço entender.

De qualquer forma, vacas são vacas e assuntos são assuntos. Não quero procurar chifres em cabeça de cavalo.

O fato é que comecei a ler o livro-reportagem Honrados Mafiosos, do jornalista estadunidense Gay Talese. Ele é um dos seguidores do jornalismo literário que teve como um dos fundadores o brasileiro Joel Silveira.

Na introdução do livro, Talese conta como foi o início desse trabalho, feito em cima da personalidade de Bill Bonanno, filho de um dos chefões da máfia – então decadente – na década de 60, em Nova York.

Foi em 7 de janeiro de 1965, em um tribunal. Tudo o que Talese sabia sobre a máfia era o que os policiais e os outros jornalistas ali em torno diziam: assassinatos, crimes e homens grotescos com apelidos esquisitos.

Eu estava mais interessado em saber como os homens da máfia passavam as horas ociosas qeu sem dúvida dominavam seus dias, em conhecer o papel de suas mulheres, seu relacionamento com os filhos.

Continuei a escutar o que diziam os jornalistas e os detetives, mas divagava. Quase que obedecendo a um impulso, separei-me do grupo e caminhei em direção a Bill Bonanno e seus advogados. Enquanto eu me apresentava, disse rapidamente que seu cliente nada tinha a dizer. Respondi que não desejava nenhuma declaração, admitindo que a ocasião era imprópria para uma entrevista, mas algum dia, eu disse, daí a meses ou anos, eu gostaria de conversar com ele e discutir a possibilidade de escrever um livro sobre sua juventude.

Enquanto os outros jornalistas que estavam ali permaneceriam apenas na superfície daquele dia de julgamento, Talese – um dos grandes nomes do jornalismo mundial – apostava na profundidade, ainda que essa profundidade chegasse apenas dali a meses ou anos.

Eu imagino quantos contatos desse tipo, feitos – nas palavras do autor – por um impulso, foram necessários com outros personagens que preferiram permanecer em silêncio, para conseguir um personagem que quisesse falar. Cada um dos que preferiu falar ajudou-o a escrever alguns de seus bons livros.

Algumas vacas vão embora, mas uma fica. Eventualmente é a melhor. Às vezes, o melhor é andar devagar e ter paciência. Às vezes é melhor ser lento que rápido. Tem a ver com digestão e absorção dos nutrientes.

Há algum tempo surgiu uma reação à fast food chamada slow food. Eis o que nos diz a apresentação em português do site dessa associação:

O Slow Food é uma associação internacional sem fins lucrativos; foi fundada em 1986 como resposta aos efeitos homologantes da fast food e do ritmo frenético da fast life. Envolve actualmente mais de 80.000 pessoas em 104 paises à volta do mundo. O Slow Food une ética e prazer. O Slow Food celebra a diferença dos sabores, a produção artesanal de alimentos, os pequenos produtores, as propostas sustentáveis para a pesca e para a criação de animais. O Slow Food restitui a dignidade cultural à alimentação.

A idéa de aproveitar a vida de uma maneira mais desapressada tem se estendido no entanto a outras áreas da produção humana. Não vejo por que não estendê-la também aos blogs, celebrando-se assim a diferença de pensamentos, opiniões e visões de mundo.

Proponho por isso o Slow Blog, por uma comunidade de blogs mais lentos e mais prazerosos e com um menor compromisso com a velocidade e com a crista da onda.

Postado em Escrita , Outros.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

Deixe seu comentário