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“Slow Blog”, o jornalista Gay Talese e a parábola dos touros em cima do morro

12 de junho de 2007 | Publicado na Categoria Livros e afins, O prazer de escrever | 11 Comentários »

Bruno Alves refletiu em seu blog sobre a escolha entre escrever primeiro ou pesquisar mais sobre um assunto. Obviamente, na velocidade com que as coisas acontecem na internet há uma série de pontos favoráveis à rapidez com que se publica uma nova informação, principalmente no que diz respeito à formação de uma sólida rede de links.

Mais por considerá-la engraçada do que por julgá-la perfeitamente apropriada, contei-lhe uma parábola:

Um touro mais velho e um touro mais novo olhavam diversas vacas do alto de um morro.

- Ei – disse o touro mais novo – Vamos descer lá correndo e pegar uma vaca.

- Não – disse o touro mais velho – Vamos descer andando e pegar todas.

De fato, ela não se aplica com exatidão, como observou o Bruno Alves em sua resposta ao comentário.

Na verdade, considerando as características dos blogs, o touro mais velho se contentaria, e muito, em pegar apenas a melhor vaca e pegá-la o mais pegadamente possível, se é que me faço entender.

De qualquer forma, vacas são vacas e assuntos são assuntos. Não quero procurar chifres em cabeça de cavalo.

O fato é que comecei a ler o livro-reportagem Honrados Mafiosos, do jornalista estadunidense Gay Talese. Ele é um dos seguidores do jornalismo literário que teve como um dos fundadores o brasileiro Joel Silveira.

Na introdução do livro, Talese conta como foi o início desse trabalho, feito em cima da personalidade de Bill Bonanno, filho de um dos chefões da máfia – então decadente – na década de 60, em Nova York.

Foi em 7 de janeiro de 1965, em um tribunal. Tudo o que Talese sabia sobre a máfia era o que os policiais e os outros jornalistas ali em torno diziam: assassinatos, crimes e homens grotescos com apelidos esquisitos.

Eu estava mais interessado em saber como os homens da máfia passavam as horas ociosas qeu sem dúvida dominavam seus dias, em conhecer o papel de suas mulheres, seu relacionamento com os filhos.

Continuei a escutar o que diziam os jornalistas e os detetives, mas divagava. Quase que obedecendo a um impulso, separei-me do grupo e caminhei em direção a Bill Bonanno e seus advogados. Enquanto eu me apresentava, disse rapidamente que seu cliente nada tinha a dizer. Respondi que não desejava nenhuma declaração, admitindo que a ocasião era imprópria para uma entrevista, mas algum dia, eu disse, daí a meses ou anos, eu gostaria de conversar com ele e discutir a possibilidade de escrever um livro sobre sua juventude.

Enquanto os outros jornalistas que estavam ali permaneceriam apenas na superfície daquele dia de julgamento, Talese – um dos grandes nomes do jornalismo mundial – apostava na profundidade, ainda que essa profundidade chegasse apenas dali a meses ou anos.

Eu imagino quantos contatos desse tipo, feitos – nas palavras do autor – por um impulso, foram necessários com outros personagens que preferiram permanecer em silêncio, para conseguir um personagem que quisesse falar. Cada um dos que preferiu falar ajudou-o a escrever alguns de seus bons livros.

Algumas vacas vão embora, mas uma fica. Eventualmente é a melhor. Às vezes, o melhor é andar devagar e ter paciência. Às vezes é melhor ser lento que rápido. Tem a ver com digestão e absorção dos nutrientes.

Há algum tempo surgiu uma reação à fast food chamada slow food. Eis o que nos diz a apresentação em português do site dessa associação:

O Slow Food é uma associação internacional sem fins lucrativos; foi fundada em 1986 como resposta aos efeitos homologantes da fast food e do ritmo frenético da fast life. Envolve actualmente mais de 80.000 pessoas em 104 paises à volta do mundo. O Slow Food une ética e prazer. O Slow Food celebra a diferença dos sabores, a produção artesanal de alimentos, os pequenos produtores, as propostas sustentáveis para a pesca e para a criação de animais. O Slow Food restitui a dignidade cultural à alimentação.

A idéa de aproveitar a vida de uma maneira mais desapressada tem se estendido no entanto a outras áreas da produção humana. Não vejo por que não estendê-la também aos blogs, celebrando-se assim a diferença de pensamentos, opiniões e visões de mundo.

Proponho por isso o Slow Blog, por uma comunidade de blogs mais lentos e mais prazerosos e com um menor compromisso com a velocidade e com a crista da onda.

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11 Comentários para ““Slow Blog”, o jornalista Gay Talese e a parábola dos touros em cima do morro”

  1. André - 12 6 2007 às 11:04

    Bem, acho que me enquadro nessa onda de Slow Blogs, hehe.

    Informações meticulosas e beeem detalhadas são minha paixão.

    Se eu fosse um boi, iria analisar qual a vaca que tem o leite de melhor qualidade, verificar suas informações nutricionais e também a procedência, porque afinal, quero uma prole de qualidade também :)

    Resposta: Na verdade, acho que é uma questão de identificação… cada autor se identifica com um estilo de publicação. Esse é o meu. Não curto muito fazer comida no McDonalds, mas claro que de vez em quando, mesmo sendo vegetariano, como lá… nossa… essas analogias estão ficando cada vez mais complexas…

  2. Diego - 12 6 2007 às 11:27

    Ale,

    Já pensei muito nisso também, e creio que a regra não é uma regra. Cada caso é um caso, e todo assunto deve ser analisado cuidadosamente. E porque não escrever um artigo de primeiríssima mão, mesmo que superficial, e depois de algum tempo um mais profundo e detalhado?

    PS: estou com um artigo sobre o Slow Food e o Slow Europe salvo nos meus rascunhos há um bom tempo… em breve! :)

    Resposta: Opa! Tem um artigo sobre Slow Europe guardado? É bem o estilo do Slow Europe… aposto que vai ficar mais algum tempo na adega…. rs.

    Na verdade, também acredito que há espaço para as duas tendências. Eu mesmo já devo ter dado pelo menos uma notícia em primeira mão por aqui ou em segunda talvez. Porém, me cansa um pouco essa obrigatoriedade do compromisso com o agora e com o veloz.

    Há outro lado ainda… informações que podem ser dadas com maior velocidade podem ser aprofundadas, mas a recíproca não é verdadeira. Bem… mas isso pode ser uma falácia…

    Abraços meu caro!

  3. k - 12 6 2007 às 12:15

    cada caso é um caso, como disse o diego. acredito na velocidade exata, no ponto ótimo. algumas coisas, se ditas depois, soam mofadas. mais porque realmente não havia muito ali de conteúdo. não porque foi contada antes ou depois.

    no entanto, qdo a coisa tem profundidade (e perceber isso é um talento… é olhar para o que rodeia o foco central, sentir o cheiro de algo mais), o que se segue pode ser uma dança, um passo pra cá, outro pra lá. e o assunto da matéria reage a essa dança. é uma conquista, uma sedução. e, como a graça de seduzir está exatamente no jogo e no respeito às regras, isso não pode ser rápido. vc afasta a dama se pisar no pé da moça.

    e sempre aparece um seduzido que resolve um belo dia mostrar os bastidores. os poderosos têm vaidade. gostam de ser valorizados.

    Resposta: Repito a resposta que dei ao Diego, concordando com você, K! Há espaço para as duas abordagens realmente… o que chama a atenção, no entanto, é o compromisso exagerado que há com apenas uma delas.

    De repente, me deu vontade de falar sobre o caso Cicarelli… ;-)

    Beijos!

  4. Djabal - 12 6 2007 às 16:55

    Quem é que tem tempo para ouvir uma balada de um velho marinheiro? Essa é a pergunta que precisa ser respondida. Quase ninguém. Aprofundar a matéria é praticamente hipnotizar o leitor, fazer com que ele siga o seu pensamento em suas palavras, sem ter o direito de se desviar o caminho. A tarefa não é fácil. O Gay Talese é um dos que consegue fazer isso, o Joel Silveira também. Eles descem a ladeira e pegam todas as vacas; fico com essa impressão. Parabéns pela história e a analogia. Ótimas.

    Resposta: Como dizia o Gabriel Garcia Marquez, pegar um coelho é mais fácil que pegar um leitor… Abraços!

  5. Silvia S. - 13 6 2007 às 10:21

    Alessandro, você abordou um assunto pra fazer a gente pensar, pra variar. Caiu bem para mim porque eu preciso definir uma forma de colaborar melhor com os blogs que me convidaram para postar (além do “Faça a sua parte”, tem o “Futuro do presente”), pois não estou dando conta de escrever com alguma peridiocidade para eles. As idéias vêm, mas eu quero pesquisar, apresentar links, me aprofundar, e não encontro tempo! Como a gente se organiza pra trabalhar essa questão do “slow blogging”? ;-)

    Resposta: Aí é que está… acho que você precisa estabelecer uma metodologia e uma periodicidade. Depois que a disciplina se instalar, a organização vem sozinha… Beijo do Ale.

  6. Slow Food - 1 8 2007 às 12:18

    Oi Alessandro,
    Queremos te convidar para conhecer o novo site do Slow Food Brasil:
    http://www.slowfoodbrasil.com

    Se gostar, por gentileza ajude na divulgação.
    Atenciosamente,
    Equipe Slow Food Brasil

  7. André Julião - 20 5 2008 às 22:07

    Como eu nunca pensei em dar um nome a isto! Li sobre slow food no livro do Bill Bulford, “Calor”. Acho que a associação com blogs é perfeita. Estou dentro da “empreitada”, apesar do atraso (slow, very slow) com que chego a este post…

    Já pratico o slow blog há quase 5 anos…

  8. Alessandro Martins - 21 5 2008 às 12:18

    @André Julião: Pois é. Quem tem pressa é quem acaba chegando a lugar nenhum. E viva tudo aquilo que podemos fazer devagar… Abraços!

  9. JW - 18 8 2009 às 19:09

    bom post, companheiro! só discordo que Joel Silveira tenha sido “um dos fundadores” do JL (apesar de ter sido um dos nossos maiores representantes em sua época), que já havia sido praticado por gente como Euclides da Cunha ou mesmo Daniel Defoe.
    e um viva ao prazer da lentidão!

  10. Alessandro Martins - 18 8 2009 às 19:55

    JW,

    É verdade… se formos ver, Homero, ao seu modo, fundou a coisa, com direito a seção de fofocas

    Abraços!

  1. [...] à segunda, recorro ao livro Honrados Mafiosos, de Gay Talese, do qual falei recentemente.  Para fugir dos telefones grampeados, os mafiosos recorriam a um interessante expediente. [...]

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