Andei folheando Sidarta, de Hermann Hesse. Júlia também o tem lido.
Agora vai ficar mais complicado pois os dois livros do Palahniuk que eu estava esperando chegaram e começamos a ler Assombro na cama e eu, por outro lado, comecei a ler Diário na padaria.
Mas deu para pescar um trecho interessante de Sidarta.
Tenho muito carinho por esse livro, embora eu saiba que a inquelequitualidade olhe para ele com olhos tortos.
É um livro que ligo à minha adolescência e que li lá pelos 13 anos, emprestado por minha prima por quem, na época, eu nutria um doce amor platônico (como nutria por outra dúzia de garotas… hormônios, hormônios).
Fiquei muito satisfeito quando, mais tarde, ele estava entre as indicações de uma lista passada pelo professor Cristóvão Tezza no primeiro ano da faculdade de Jornalismo.
De fato, ele tem muito a ver com a adolescência. Sidarta era um jovem cheio de certezas e dúvidas – dúvidas costumam ser certezas mudando de lugar -, que partiu em uma busca.
Depois de muitas aventuras, inclusive encontrando Buda em seu caminho, achou finalmente o que procurava em um rio, tornando-se assim balseiro. O balseiro mais velho, que lhe ensina os segredos da profissão, diz um dia sobre o filho que Sidarta teima em manter perto de si:
Pois é! Não o obrigas a nada; não bates nêle não lhe dás nenhuma ordem, porque sabes que a meiguice é mais forte do que a dureza e a água mais forte do que o rochedo. Muito bem! Aprovo a ua conduta. Mas não te enganas a ti mesmo quando pensas que não exerces coação alguma sobre ele e não lhe infliges nenhum castigo? Não o agrilhoas pelo teu carinho? Não o humilhas todos os dias e ainda lhe amarguras a vida, graças à tua bondade e paciência? Não obrigas êsse menino soberbo, mimado, a viver numa cabana junto com dois velhos comedores de bananas, para os quais o arroz já representa um quitute e cujo coração gasto, sereno, pulsa em outro ritmo que o dele? Não resulta tudo isso em constrangimento e punição?
Faz lembrar um outro texto muito conhecido – talvez você já o conheça – de Khalil Gibran:
Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem. Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, porque eles têm seus próprios pensamentos. Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe. Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria: pois assim como ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável.
É o tipo de coisa que, imagino, deve ser difícil de entender para um pai e uma mãe. E mais difícil ainda de ser colocada em prática.
Quem disse que era fácil o amor?











