Os ridículos e razoáveis conhecimentos astronômicos de Sherlock Holmes

Ultimamente, tenho me divertido lendo as aventuras deste renomado personagem de Arthur Conan Doyle.

Comecei com O Cão dos Baskervilles e estou decidido a ler tudo com o personagem de Sherlock Holmes e com seu amigo, o médico John H. Watson.

No momento, estou em Um Estudo em Vermelho e, a certa altura, Watson resolve fazer um apanhado dos conhecimentos de seu novo amigo para tentar adivinhar com que afinal ele trabalha.

O resultado é um interessante currículo. Pouco esclarecedor, porém. Só mais tarde Watson virá a saber que seu colega de apartamento é detetive-consultor.

No entanto, antes disso, acaba por descobrir a curiosa visão que tem Holmes a respeito do aprendizado, da astronomia e de outros ramos do conhecimento humano:

Sua ignorância era tão notável quanto o seu conhecimento. Sobre a literatura, a filosofia e a política contemporâneas parecia saber quase nada. Ouvindo-me citar Thomas Carlyle, perguntou-me com a maior ingenuidade quem era ele e o que tinha feito. Minha surpresa atingiu o máximo, no entanto, quando verifiquei por acaso que ele ignorava a teoria de Copérnico e a composição do Sistema Solar. Que qualquer ser humano civilizado neste século XIX desconhecesse que a Terra gira em torno do Sol me parecia um fato tão extraordinário que mal pude acreditar nele.

- Você parece atônito – disse ele, sorrindo ante a minha expressão de surpresa. – Agora que sei disso farei o possível para esquecer.

- Esquecer?

- Veja – explicou-me. – considero o cérebro do homem como sendo inicialmente um sótão vazio, que se deve mobiliar conforme se tenha resolvido. Um tolo atulha-o com quanto traste vai encontrando à mão, de maneira que os conhecimentos de alguma utilidade para ele ficam soterrados ou, na melhor das hipóteses, tão escondidos entre as demais coisas que lhe é difícil alcançá-los. Um trabalhador especializado, no entanto, é muito cuidadoso com o que leva para o sótão da sua cabeça. Não quererá mais nada além dos instrumentos que possam ajudar o seu trabalho; destes é que possui uma larga provisão, e todos na mais perfeita ordem. É um erro pensar que o dito quartinho tem paredes elásticas e pode ser distendido à vontade. Segundo as suas dimensões, há sempre um momento em que para cada nova entrada de um conhecimento a gente esquece alguma coisa que sabia antes. Consequentemente é da maior importância não ter fatos inúteis a ocupar o espaço dos úteis.

Claro que hoje se sabe que não é exatamente preciso pensar no cérebro humano como um quarto de paredes pouco elásticas.

Bem. Devemos reconhecer que na nossa espécie há diferentes qualidades de metro quadrado.

Prefiro pensar mais em questão de tempo.

Gostaria de ter precisado estudar menos Química (orgânica e inorgânica), tremenda perda de tempo para mim. Muito embora, reconheçamos, pudesse ser interessante para outro estudante.

Embora eu fosse muito bom em Física e Matemática, creio as que teria aproveitado melhor se as encarasse como passatempo (assim como Holmes encarava seu violino). No lugar delas, poderia ter colocado a Música, matéria que seria muito mais útil para mim (veja como a Música tem a ver com a Matemática e a Física).

Seria bom também ter estudado menos análise sintática e outras inúmeras matérias do currículo habitual das escolas e aprendido um pouco mais sobre latim, grego e sânscrito ou sobre qualquer outra língua viva ou morta.

Enfim, a escola, em geral, é uma autêntica perda de tempo, fonte do desperdício dos reais interesses e motivações de seus alunos.

Você é professor? Faça um favor para mim: passe menos lição de casa.

O tempo sim é uma sala com paredes menos elásticas do que mesmo Sherlock Holmes era capaz de imaginar.

Postado em Educação.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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