O Alessandro Martins me tirou um peso da consciência. Sempre que escrevi algo sobre a editora Lote 42 no Trilhos Urbanos, passei por um conflito interno tremendo. Ao mesmo tempo que sentia a necessidade de botar para fora o que sentia nessa jornada como editor/empreendedor, acho meio egotrip falar da minha empresa no meu blog dos livros que eu edito e, de quebra, postar no meu perfil no Facebook. Para meu alento, o dono deste blog se mostrou interessado ao ponto de ceder um espaço aqui.

A Lote 42 está na iminência de lançar um livro diferente de tudo o que li até hoje. É difícil começar a falar do Seu Azul. Ele não tem uma porta de entrada clara. A obra é bem acabada como um círculo, porém cheio de texturas e vida. Pegue o aspecto que quiser do livro. Capa, título, texto, design gráfico, tipografia, etc.., todo elemento que constitui a obra tem uma abordagem inovadora. Não há virtuosismo gratuito. Tudo tem um sentido e um fim. O autor, Gustavo Piqueira, explica esses aspectos neste vídeo.

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Antes de viajar na maionese, vamos a descrição básica da obra para a gente se entender melhor. Seu Azul conta a história de um casal que quer animar a relação. Para isso, buscam um terapeuta que propõe um exercício de leitura de notícias de grandes portais brasileiros. Bastaria pegar qualquer chamada na home page e falar durante o jantar. Como são veículos de credibilidade, tudo o que estiver lá já atende a critérios de interesse público e, portanto, vai ajudar o casal a ter conversas racionais sobre assuntos relevantes. Só que eles acabam coletando e acreditando que são importantes notícias envolvendo dicas do Batman para a carreira, fofoca de celebridades, curiosidades banais, etc.

Jogada de mestre do autor Gustavo Piqueira. Com essa trama, ele atinge em cheio o problema do jornalismo de web. A busca sem critérios pela audiência virou de cabeça para baixo os critérios de noticiabilidade. Mas não se pode pôr a culpa só na mídia. A internet deixou claro qual é o interesse do público. As empresas de comunicação correm atrás disso. Portais como Terra e R7 sempre têm ao menos uma popozuda na capa porque o público vai lá e clica. Se o interesse fosse em música de orquestra, pode ter certeza de que falariam mais de John Neschling do que de Andressa Urach.

Portanto, a culpa também é sua, estamos falando do seu azul, cor associada à paz, harmonia e tédio. Sim, voltamos a encaixar na sinopse do livro. Então é por isso o nome do livro? Sim, mas há mais. “Seu” é usado como contração de senhor. No livro, há a explicação que Allyson, o filho do casal, queria escrever “Céu”, mas trocou o “C” pelo “S”. Ele acompanha também os diálogos do casal com desenhos e cria uma espécie de monstro azul. Há outras soluções para o título e cabe ao leitor encontrar.

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Deixe-me dar uma marcha a ré e seguir pelo caminho da capa, que expõe com grande destaque ao título. Se considerarmos a primeira linha de leitura do parágrafo anterior, do “Seu” como pronome possessivo, temos que Piqueira está apontando ao leitor diretamente. Não é a primeira vez que ele faz isso. Iconografia Paulistana, lançado no ano passado pela WMF Martins Fontes, tinha um espelho na capa. O livro tem como tema a feiura da cidade de São Paulo, uma obra conjunta de todos os que estão e estiveram na cidade.

Além do título, a capa traz areia nas bordas. A areia sai um pouquinho nos dedos do leitor. Piqueira faz uma metáfora poderosa da sensação de sujeira. Além disso, vejo algo de arte povera. A areia cai de pouco em pouco. Talvez um dia caia toda. O livro ganhou um caráter orgânico sensacional. Assim como os italianos que constituíram esse movimento artístico, Piqueira tem uma elegância ímpar. É tudo de muito bom gosto. O cara é um dos designers mais premiados do País. Acho que ele não consegue não ser assim.

(O Brasil também tem uma arte pobre para chamar de sua com Bispo do Rosário, Paulo Nazareth, etc., mas a gente leva de um jeito completamente diferente).

Aí você abre o livro e dá de cara com uma foto daquelas perfeitinhas de banco de imagem nas primeiras páginas. Há o oferecimento de publicidade para aquele espaço. De novo, temos o leitor em posição desconfortável. De novo, o encaixe com a sinopse ao lembrar do aspecto pecuniário do interesse dos portais em publicar notícias de interesse detestável.

O jogo semântico de Seu Azul prossegue com os desenhos de Allyson, que acompanha o diálogo dos pais; o formato sem narrador, só com diálogos, reforça um sentido fático da situação; o desenrolar da trama… e prefiro parar por aqui – esmiuçar o enredo mataria parte da graça.

Uma grande honra para a Lote 42 ter esse livro em seu catálogo. Espero que gostem. Para ler mais, acesse: lote42.com.br/seuazul/

Sobre o autor: João Varella

Jornalista formado e pós-graduado pela PUCPR, é repórter de tecnologia na IstoÉ Dinheiro e editor no El Economista América. Já colaborou com diversos veículos, entre eles o jornal Gazeta do Povo e portal R7. Em 2012, ganhou o 2º lugar no prêmio Sebrae de Jornalismo. Junto com Cecilia Arbolave, venceu o prêmio Proyectando Valores 2006 da Câmara Argentina de Anunciantes. Escreveu os livros "Curitibocas - Diálogos Urbanos" (Coração Brasil) e "A Agenda" (Novo Conceito)