O imaginário popular consagrou a figura de Hamlet declamando o monólogo do Ser ou Não Ser (Ato 3, cena 1 – Hamlet) com um crânio na mão.

Na verdade, são duas cenas diferentes.

No momento do famoso solilóquio, Hamlet não segura necessariamente nada. Eventualmente uma adaga. Necessariamente, suas dúvidas existenciais.

Hamlet segura sim um crânio nas mãos na cena do cemitério, apenas no quinto ato.

Aliás, o coveiro dessa cena é daquelas figuras cômicas que sempre acabam aparecendo aqui e ali nas peças de Shakespeare. Na versão cinematográfica de Kenneth Branagh, é desempenhada por Billy Crystal.

Para mostrar isso, separei duas cenas extraídas da versão cinematográfica estrelada e dirigida por Sir Laurence Olivier.

Primeiro o monólogo:

Depois a cena do cemitério:

Eis o que ele diz à caveira:

Pobre Yorick! Conheci-o, Horácio; um sujeito de chistes inesgotáveis e de uma fantasia soberba. Carregou-me muitas vezes às costas. E agora, como me atemoriza a imaginação! Sinto engulhos. Era aqui que se encontrávamos os lábios que eu beijei não sei quantas vezes. Onde estão agora os chistes, as cabriolas, as canções, os rasgos de alegria que faziam explodir a mesa em gargalhadas? Não sobrou uma ao menos, parar rir da tua própria careta? Tudo descarnado! Vai agora aos aposentos da senhora e dize-lhe que embora se retoque com uma camada de um dedo de espessura, algum dia ficará deste jeito. Faze-a rir com semelhante pilhéria.

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