selton mello

O mais recente boato intencionalmente espalhado pela internet foi a história de Selton Mello ter sido escalado para a série Game of Thrones.

Basicamente, ele usou o site Shturl. Ele permite que você escolha uma página qualquer da internet e edite título, texto e fotos.

Claro, o resultado final fica armazenado em uma URL que não é a original do site, mas quem liga para esses detalhes hoje em dia?

É muito fácil criar uma notícia falsa usando esse site.

Por exemplo, criei uma em que Dilma Roussef proclama a independência da Alessandrolândia.

Como o autor da história do Selton Mello explicou, bastou um perfil importante do Twitter e um site “sério” de notícias replicar a informação para que o boato se espalhasse como fogo em um canavial seco sem que ninguém se perguntasse se, afinal, aquilo era verdade ou mentira.

Mesmo um site “”””””bom””””””” (excesso proposital de aspas) como o Ego, sequer teve a capacidade de ligar para o ator para confirmar se isso era verdade.

Rapidamente, o termo “Selton Mello” era trending topic no Twitter e pipocava nas buscas do Google.

Talvez você mesmo tenha achado essa notícia:

  1. plausível
  2. positiva
  3. urgente

Três elementos que tornam a vontade e, principalmente, o impulso de espalhá-la quase que irresistível, somado ao fato de que o ator tem grande carisma e talento.

Gullible

Esse tipo de boato não é novidade nem aqui no Brasil nem em nenhuma parte do mundo.

Em 2004, um estudante de 19 anos chamado Kyle Stoneman percebeu essa disposição de as pessoas acreditarem em lorotas aleatórias que veem escritas na internet (ou em qualquer outro meio) e criou o site Gullible.

Trata-se de uma coleção de fatos, todos falsos, criados por ele.

Alguns exemplos que retiro do livro A Dieta da Informação:

  • Ao final de 2010, havia ao menos nove países em que a flatulência pública era ilegal. Punições por violações da lei variavam entre uma multa de valor equivalente a US$ 0,50, chibatadas públicas nas nádegas e 90 dias de prisão.
  • Aproximadamente metade de 1% da produção mundial anual de dióxido de carbono, um dos gases responsáveis pelo efeito estufa, ocorre em razão da carbonação de refrigerantes. Apesar da possibilidade de uma troca praticamente sem custos pelo nitrogênio, fabricantes de refrigerantes ainda se recusam a efetuar essa mudança.
  • Antes da descoberta dos antibióticos, urina de cavalo era comumente utilizada no tratamento da conjuntivite.
  • Ao contrário da crença popular, gatos nunca dormem de fato. Seus músculos relaxam e sua respiração desacelera, enquanto o cérebro permanece completamente alerta.
  • Em um dia da semana praticamente 16% das pessoas que assistem ao vivo à transmissão do Today Show já foram condenadas por ao menos uma contravenção. Apenas 3,5% foram condenadas por ao menos um crime.

Se você quer saber, na minha opinião você deveria tratar toda e qualquer informação que lê por aí como se fosse do site Gullible (que já em 2004 se tornou bastante popular).

Toda.

Em 2005, um editor da Wikipedia (ou seja: qualquer pessoa) resolveu, por algum motivo obscuro, copiar uma informação dali.

Em particular, esta:

Timothy Leary, guru do LSD, disse ter descoberto uma cor primária adicional, à qual se referiu como “gendale”.

Esse editor colocou essa informação no verbete de Timothy Leary.

Não demorou muito tempo para que o The Guardian publicasse o seguinte:

Ele encorajou os Estados Unidos a “turn on, tune in and drop out” (em uma tradução livre, “se ligar, entrar na onda e cair fora”) e disse ter descoberto uma nova cor primária – que chama de “gendale”. Agora, Timothy Leary, o excêntrico porta-voz da contracultura, está prestes a se tornar o tema de um filme de Hollywood.

A cor fictícia “gendale” saiu do site de informações falsasa de Stoneman, passou pelo processo editorial da Wikipedia, foi aprovada pela verificação de fatos do The Guardian e permaneceu online por três meses nos dois sites tidos como confiáveis.

O autor de A Dieta da Informação nos dá pistas de como podemos enfrentar as informações falsas:

A busca por si só não ajudará se formos incapazes de encontrar as fontes de informação mais confiáveis e precisas ou se não pudermos formular conclusões corretas a partir dos dados que encontramos. Também devemos ser capazes de refletir de forma crítica sobre a informação que recebemos e de utilizar as melhores ferramentas disponíveis para processá-la efetivamente. A internet é o maior criador individual de ignorância já inventado pela humanidade, assim como o maior eliminador individual dessa mesma ignorância. É nossa habilidade de filtrar que elimina o primeiro e fortalece o último.

Vacina

Quando nunca tivemos contato com algum tipo de vírus e o contraímos, eventualmente ficamos doentes.

Na segunda vez, a tendência é que nosso sistema imunológico já esteja previnido e não fiquemos mais (caso não venhamos a morrer da primeira vez).

Acho bom quando caímos nesse tipo de engano, pois nos tornamos mais céticos e cuidadosos quanto às informações que recebemos.

Assim, na segunda, na terceira e na quarta vez em que depararmos com algo assim, haverá mais dificuldades para que se ultrapasse nossos filtros.

Claro, assim como os vírus, as maneiras de propagar uma informação errada evoluem de forma espontânea ou até mesmo proposital a fim de vencer essas barreiras

Na dúvida, esteja protegido.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!