direcao

Não lembro que filme eu estava assistindo quando vi o trailer de Hancock. Só sei que na hora eu decidi que veria aquele filme.

Meses depois, fui ao cinema e fiquei decepcionada. O trailer me fez pensar que veria uma comédia, com uma certa idéia de redenção. Quando o filme começou, ele realmente era muito engraçado. Mas pouco a pouco o filme foi mudando, passando para romance, depois para drama… Enfim, ele não apenas não correspondia ao trailer e tentava ser vários gêneros ao mesmo tempo. Tanto não foi bom que Hancock não causou o mesmo impacto que outros filmes de heróis.

Cito Hancock porque é um exemplo fácil, mas poderia também ter colocado alguns textos que eu li. Textos que começaram como uma coisa e parece que no meio do caminho o autor resolveu fazer outra. Não que não seja possível criar suspenses e misturar gêneros, mas qualquer mistura tem que ser muito bem feita. Ter um fio condutor com colocações interessantes é radicalmente diferente de começar com um assunto e terminar com outro. Eu sei como é: às vezes a gente pensa em escrever uma coisa, e à medida que vai escrevendo surge outra coisa que também gostaríamos de falar, também interessante… É uma vontade de dizer tudo ao mesmo tempo – e o risco de não dizer nem uma coisa e nem outra.

A lição que eu tiro de Hancock, agora pensando em literatura, é que um autor precisa saber para onde ele está indo. Se for o caso, que aquela outra idéia vire outro texto, outro projeto, outro livro. Lembro de uma tia que cozinha muito bem, e que faz bolos com tudo o que tem direito: de chocolate com cobertura de chantilly e morangos, recheio de damasco, côco e sonho de valsa. Fica horrível, não dá para aproveitar nenhum dos sabores. Ou seja, mesmo os melhores ingredientes ficam ruins se usados sem parcimônia. Um autor precisa saber para onde está indo e o que quer dizer. Ele pode se desviar aqui e ali, fazer umas paradas, visitar outras possibilidades, mas depois deve voltar para o que se propôs.

Sobre o autor: Caminhante Diurno

Caminhante tem casa, marido, cachorro, blogs (Caminhante Diurno e Caminhando por Fora), carteirinha da biblioteca. E não pode viver sem qualquer um deles.