Eu também pensava em escrever alguma coisa sobre o jogador brasileiro de futebol Richarlyson. Mas um piá de 13 anos escreveu antes:

Ontem eu estava reclamando com meu pai da escola, dizendo que ela enchia o meu saco, que me sentia deprimindo com a “má fase” dos últimos tempos. Na lata, antes de desligar o telefone, ele me respondeu: “Tá triste? Pensa no Richarlyson.” Em um ato incomum nos últimos tempos, obedeci-o. E senti dificuldades em dormir. Porque fiquei pensando. E por bastante tempo. Confesso que caiu uma lágrima quando eu me lembrei do jogo entre São Paulo x Goiás, no ano passado, quando na comemoração pelo título, ao invés de gritarem o nome de Ricky (como gritaram o de seus 23 companheiros), entoaram um imbecil “Bicha! Bicha!” (leia o texto integral: Richarlyson, mais que um Homem, um exemplo)

Eu – ao saber da atitude das torcidas do São Paulo e das outras, por motivarem tais atitudes – poderia dizer que vivemos em um país atrasado, mas isso seria limitar geograficamente por demais um atraso que deve pertencer à humanidade inteira.

Olha o que disse o líder de uma das torcidas do São Paulo:

“Não pegou bem para a torcida algumas coisas da vida pessoal do Richarlyson, que acabam sendo atreladas a todos os são-paulinos. Por isso, a gente não grita o nome dele antes de cada jogo, mas também não xinga e não canta música sobre a vida pessoal dele” (fonte)

Um ornitorrinco facilmente consegue ter mais nobreza, coragem, hombridade e generosidade. Mas, de fato, dificilmente haverá algo da personalidade desse jogador Richarlyson que possa ser ligado a um são-paulino – a torcida é mera contingência, poderia ser outra – que pense assim.

Dizem que o verdadeiro humanista desapareceu: decidiu isolar-se em uma caverna depois de conhecer profundamente os tais humanos.

Detran

Acabo de frequentar um curso de reciclagem do Detran. A certa altura, foi sugerido por um dos alunos que homens e mulheres fizessem formações de condutores diferentes porque as fêmeas da espécie seriam as principais responsáveis pelos pequenos acidentes do trânsito no dia a dia. O sujeito disse isso a sério como uma sugestão para melhorar o trânsito, não foi um xiste ou uma ingênua brincadeira sexista.

Muito embora a maioria dos presentes naquela sala de motoristas infratores fossem homens (um placar de 23 contra 3), as mulheres presentes chegaram a concordar com a idéia.

O que, para mim, não fez muito sentido.

Se a motivação de separar homens e mulheres em cursos especializados pela natureza dos problemas causados na circulação urbana (aqueles que causam pequenos contratempos, supostamente fêmeas, e aqueles que causam mortes, supostamente homens) a divisão já estava feita: afinal aquela turma era quase que integralmente macha.

Não consigo entender mais essa briga entre meninos e meninas. Faz tempo que o que está entre as duas pernas do cidadão e que destino esse cidadão dá a isso não deveria fazer diferença.

O nome disso é virilhocentrismo: preocupação excessiva com o que há entre as duas pernas, proximidades e que uso se dá a esse aparato constituído de alguns orifícios e alguns tubos mais ou menos proeminentes.

Somos virilhocentristas, senhoras e senhores, e dizem que fizemos algum progresso desde a pré-história. Nossa consciência, nossa atenção e nosso foco ainda não conseguiram subir além da linha da cintura e queremos nos dizer civilizados.

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