eleições debate político

Todos defendem a saúde, a educação, o pleno emprego, a eficiência do transporte público e a redução dos índices de violência. Sem inclinação prévia bem definida, como então escolher um candidato, caso não se queira anular o voto nas eleições de outubro?

Não faz muito, os debates televisivos eram um auxílio divertido para a tarefa inglória. Claro, difícil relacionar o grau de eloquência no showzinho com eficiência administrativa e idoneidade, mas pelo menos havia um critério a se seguir, nem que fosse com sinal inverso: “vix, o cara fala muito bem, é espontâneo, cita dados com segurança, espirituoso, não pode prestar”.

Nem isso nos resta agora, com a superprodução dos debates. As regras são esmiuçadas em acordo prévio pela equipe dos candidatos, determinados assuntos são vetados, réplicas são coibidas, tudo para que um postulante não se distinga do outro e o evento possa ser o mais modorrento e enfadonho possível, não estragando os planos do marqueteiro de ninguém.

A morte de Plínio Arruda Sampaio, meio eclipsada pela copa do mundo, tem muita força simbólica nesse âmbito. Sem entrar no mérito de suas tendências políticas, é inegável que sua presença irreverente nos debates da corrida presidencial de 2010 foi o canto de cisne da era do debate romântico. Sabem como é: o debate arte, debate moleque, debate samba, debate bola de meia, debate Macunaíma.

Pilantras em nosso meio político sempre houve e sempre haverá, mas houve tempo em que pelo menos nos levavam a exclamações de entusiasmo pela força retórica, não apenas a esgares.

Já que qualquer questão mais incisiva é respondida ou com tergiversações, ou de acordo com um roteiro definido com base em pesquisas de opinião, sugiro mudança completa na formatação dos debates políticos. Inaptos para cuidar da coisa pública, podem os políticos nos entreter, já seria um começo.

Faz tempo a aventura política naufragada de Silvio Santos, já há distanciamento para que ele possa mediar debates, seria muito atraente. Mas não podemos colocar nas costas de uma só pessoa, vinculada a um só canal, a responsabilidade dessa reformulação do espetáculo. Seja quem for o apresentador, o importante é a revisão da postura: acabemos com questões pertinentes sobre política fiscal, economia, relações exteriores, inflação. Ninguém entende nada disso mesmo, fica fácil para nos enganarem.

Perguntemos sobre aquilo que realmente nos deixa intrigados: empadas podem ser só de frango e palmito, ou a diversidade de sabores é benvinda? Por que a qualidade do sorvete da Kibon caiu tanto? Por que as mulheres se maquiam tanto em festas de casamento para ficarem mais feias do que quando vão trabalhar? O que aconteceu com os suspensórios? Fred Astaire ou Gene Kelly? Valesca Popozuda ou Grace Kelly?

photo credit: jmtimages cc

Sobre o autor: André Simões

André Simões, 29, jornalista, cronista, mestre em Estudos Literários pela UEL e "cliente VIP número 1 do Santoíche", conforme atestado em condecoração solene promovida pelo proprietário da lanchonete. Em 2010, publiquei meu primeiro livro de crônicas, "A Arte de Tomar um Café" (AtritoArt Editorial/Promic). Interessados em adquirir esta pérola da literatura brasileira podem entrar em contato pelo e-mail adfsimoes@gmail.com. Esquema Radiohead de transação comercial: pague o quanto quiser mais as despesas de postagem.