Refuseniks: quando há mais honra em não lutar
13 de fevereiro de 2009 | Publicado na Categoria Outros assuntos | 5 Comentários »Todos estão vendo as cagadas que estão acontecendo em Gaza, que só não é conhecida como o Novo Gueto de Varsóvia pela falta de suásticas nos entornos.
Mas seria de ficar admirado se, entre o povo judeu, conhecido por sua grande cultura e história, não existisse o pensamento independente – quero crer que esse seja o da maioria -, mesmo nas Forças Armadas.
Trata-se de quase uma tradição israelense, na verdade, haver na própria frente de batalha aqueles soldados que se recusam a lutar, entre outros motivos por considerarem que, ao atacar os palestinos, oprimir e expandir as fronteiras, o seu exército extrapola o objetivo para o qual foi criado: defender as linhas fundadas, com o estado de Israel, em 1967.
Esses soldados passam a ser conhecidos como refuseniks, homens e mulheres determinados a não guerrear, a não fazer parte de algo que consideram corrupto, desnecessário, sujo.
Para explicar o surgimento desse termo, no entanto, empresto as palavras de uma autora muçulmana, Irshad Manji, que, sem ser da caserna e sem ser israelense, se diz uma refusenik, num ato que desafia os fundamentalistas do Islã e os totalitaristas de Israel.
Escreve Manji em seu livro Minha Briga com o Islã:
Sou uma refusenik muçulmana. Isso não significa que me recuso a ser muçulmana: significa que só que me recuso a entrar para um exército de autômatos em nome de Alá. Tirei esse termo dos refuseniks originais – judeus soviéticos que defenderam a liberdade religiosa e pessoal. Seus chefes comunistas recusaream-se a deixá-los emigrar para Israel. Por suas tentativas de deixar a União Soviética muitos refuseniks pagaram com trabalhos forçados e às vezes com a própria vida. Mas, com o tempo, sua recusa persistente em se submeter aos mecanismos de controle mental e desumanidade ajudou a acabar com um sistema totalitário.
No exército israelense, o termo refusenik ganha outro sentido e designa aqueles que se recusam a entrar na briga. Em 2002 já foi assim, quando oficiais da reserva publicaram e assinaram um manifesto contrário às ordens de seu comando:
(…)
Nós, oficiais e soldados combatentes que servimos ao Estado de Israel durante longas semanas, todos os anos, apesar dos altos custos que isso implicou para nossas vidas privadas, cumprimos tarefas nos Territórios Ocupados, e recebemos ordens e comandos que nada tinham a ver com a segurança de nosso país, mas o propósito único de perpetuar nosso controle sobre o povo palestino.
(…)
Nós aqui declaramos que continuaremos a servir às FDI em qualquer missão que tenha como objetivo defender Israel.
As missões de ocupar e oprimir não servem a esse propósito – e por isso não faremos parte delas.
Em 2003, o comandante da Força Aérea israelense puniu e ameaçou com prisão e expulsão 9 pilotos de combate que se recusaram a participar de missões de bombardeio contra alvos palestinos.
Refusenik, assim, é um termo que ganha, para mim, o significado que há naqueles que se recusam a executar tarefas em desacordo com suas convicções éticas, seja lutar uma guerra que não é sua, seja fazer um trabalho que não deve ser feito. A qualquer momento se pode ser um refusenik. Ou seja lá qual for nome que você queira dar a isso.
Recentemente, foi criada em Israel uma organização chamada Courage to Refuse, segundo leio no blog coletivo Amálgama:
Uma organização de apoio aos que se recusam a combater, “Courage to Refuse”, publicou manifesto em vários jornais, condenando a matança de centenas de civis palestinos e conclamando os convocados a recusar-se a combater em Gaza. “A violência brutal, sem precedentes, contra Gaza é chocante. É falsa a esperança de que tanta brutalidade trará alguma segurança aos israelenses, e é esperança perigosa. Não podemos nos manter passivos, quando centenas de civis são assassinados na carnificina promovida pelo exército de Israel” – dizia o manifesto.
Coragem para recusar. Não ser um autômato, como diz Irshad Manji. Questionar o que é simplesmente imposto. Nas forças armadas, isso é especialmente difícil.
Tenho um grande amigo que diz que, durante a guerra, se vê o que há de mais nobre e o que há de mais podre no ser humano. Concordo em parte com ele, embora também ache que o mais nobre e o mais podre possa ser visto a qualquer momento.
Mas, no caso de Gaza, creio que não pode haver coisa mais nobre que se recusar as armas. Mas não há medalhas para refuseniks.

Olá Alessandro:
Não conhecia o termo, mas já tinha lido alguma coisa sobre isto antes. Penso que em qualquer guerra há este tipo de comportamento. E as pessoas não aprendem nunca. E se repetem inefinidamente. Que coisa mais triste. Então:
Refuseniks! C om certeza.
Alessandro:
O endereço da sua amiga, não foi encontrado.
Anny,
qual dos endereços… testei os links e estão todos funcionando.
Beijos do Ale.
Alessandro:
Fui ver o blog dela. Uma pena que não tenha tradutor para português. Embora isto não resolva completamente, ajuda.
Obrigada,
Beijos,
Annny
Olá Alessandro..
É a primeira vez leio sobre isso dessa forma, eu já havia comentado com um conhecido que eu considerava a atitude dos Judeus de Israel parecida com a atitude de Hitler para com eles nas Guerra Mundias, o genocídio… As terras do planeta todo são nossas e todos os outros seres vivos ou não…
Tenho um ótima dica nesse caso, assistam Paradise now, é um filme que retrata de uma forma suave o lado palestino da história, e também como é estranho o conceito todo relacionado aos Martires.
Obrigada por nos proporcionar isso…