Um dos sensos comuns mais usuais entre os intelequituais é que o cinema americano, de um modo geral, não presta. Discordo.

O primeiro diretor que me vem, ao lembrar dos ataques a esse gênero – que não é um gênero -, é o de Steven Spielberg, um dos maiores mestres da arte do entretenimento. A primeira reação de um intelequitual ao ouvir esse nome é virar o nariz ou se fingir de louco.

Lembro de, há alguns anos, ter cometido a insensatez de ter pago R$ 1 para assistir a um filme de GodardO Elogio do Amor – em que durante uns bons minutos os personagens se dedicam a espinafrar A Lista de Schindler. O argumento se limita, no entanto, às questões éticas dos direitos financeiros da história com os quais a viúva do industrial não foi contemplada. Contra o uso de Spielberg da linguagem cinematográfica para contar uma história, no entanto, não há argumentos.

Pois, se não me engano, o enredo do tal filme de Godard – se há enredo – não se importa exatamente em contar uma história. Está para um filme como uma tese de doutorado está para um romance. Não que uma tese de doutorado não possa ser interessante, mas não é o que eu costumo ler.

O que me levou a falar sobre isso foi um trecho da introdução do livro Desperta e Lê, de Fernando Savater, sobre o qual falei em outras ocasiões.

Em junho de 1997 realizou-se na Sorbonne uma jornada internacional sobre Bernard Groethuysen, para a qual contribuí com uma exposição que incluo na primeira parte deste livro. Depois houve um almoço presidido pela reitora dessa venerável da universidade, ao qual compareceram os mais destacaas participantes, entre eles Jean-Toussaint Desanti, professor octagenário de fenomenologia e filosofia da ciência, que fora amigo pessoal de Groethuysen. Em um certo momento da refeição, veio à baila o tema do cinema, e um professor italiano se pôs a defender o cinema culto europeu em face das aberrações do populismo comercial americano, para ele representadas pelo Jurassic Park. Como sempre disposto a me expor pelo que amo, saí em defesa dos dinossauros de Spielberg. Mereci olhares atônitos de comiseração, mas também o inesperado apoio de Desanti, que havia adorado o filme. “Até comprei uma gravata de dinossaurinhos e tudo”, ele comentou, sugando beatificamente seu cachimbo. Em me senti redimido. Se alguém tão respeitável como Desanti pode usar gravata de dinossauros, nós, que somos muito menos respeitáveis, não podemos fazer grande mal a ninguém elogiando-os…

Se eu usasse gravata, certamente, depois dessa, compraria uma com dinossaurinhos.

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