Razões para ganhar dinheiro com seu blog e sentir-se moralmente bem
25 de janeiro de 2007 | Publicado na Categoria O prazer de escrever | 11 Comentários »Os editores de blog que decidiram ganhar dinheiro com seus sites vêm sendo chamados de prostitutas. Isso indica que, por algum motivo, há um recalque moral com relação a ganhar dinheiro, sobretudo com algo que boa parte das pessoas faz de graça e com prazer. Estou referindo-me a conjugar o neologismo blogar. Não o que essa cabecinha pervertida acabou de pensar.
Em nossa sociedade vender serviços sexuais hoje é moralmente inaceitável. Em outras épocas e culturas, no entanto, já foi aceito e até incentivado.
Moral é uma questão de época e lugar, pois basicamente ela consiste de leis muitas vezes não escritas que fazem prevalecer a vontade de todos sobre princípios egoístas. Essas leis nem sempre são saudáveis, mas é assim que funciona.
Pesquisei algumas definições simples de moral e uma me agradou bastante. E é justamente a de um escritor: Ernest Hemingway. Disse o autor de O Velho e o Mar e Por Quem os Sinos Dobram:
Eu sei o que é moral apenas quando você se sente bem após fazê-lo e o que é imoral quando você se sente mal após.
Curiosamente, a frase está no livro Morte na Tarde, de 1932, que trata de touradas. E que não li. Mas ela me agrada justamente por que ela individualiza um pouco mais a noção de moral.
E ela me faz crer que ganhar dinheiro escrevendo sobre algo de que se gosta – ou seja, fazendo algo com prazer -, posicionando anúncios ou comerciando outros serviços, é perfeitamente aceitável.
E por mais algumas razões.
Trabalho deve estar ligado a prazer
Qualquer atividade humana deve estar ligada a prazer. Ler, escrever, cozinhar, ajudar os outros e, sim, ganhar dinheiro. Fazer essas coisas deve ser, na medida do possível, prazeroso, desde que outras pessoas não sejam prejudicadas e que isso não envolva mísseis intercontinentais. Creio que, ainda que você seja o presidente dos Estados Unidos, vai se sentir mal depois de acionar um míssil intercontinental. E isso, sob a definição de moral de nosso amigo Hemingway, vai fazer com que o seu jantar não caia bem.
Por algum motivo – vários motivos, todos se acumulando ao longo da história como hienas em torno de uma carcaça fedorenta – ainda se acredita que o homem (e as mulheres) devem comer do pão feito com o suor do rosto e ainda lavar a louça.
Não precisa ser assim.
Se você gosta de pipas a ponto de escrever sobre esses graciosos artefatos, faça um blog. Coloque anúncios, venda seus serviços e seja feliz.
Escolha seu assunto preferido, algo que vá lhe satisfazer e, com isso, satisfazer seus leitores, aquelas pessoas que buscam exatamente aquilo sobre o que você escreve.
Eu escolhi o assunto livros, coloquei anúncios e estou me sentindo muito bem com isso.
O produto que você vende são seus textos, não os anúncios
Você só estará se prostituindo – no sentido figurado e também sem julgar o mérito moral da prostituição de fato – se você se distanciar desse fato: o seu principal produto é o seu texto, o seu cliente é seu leitor e a moeda é o tempo que ele investe lendo. Tenha isso em mente.
Com isso quero dizer que o seu produto não pode ser adulterado em função de uma razão obscura, seja ela atrair leitores pára-quedistas – conhecidos por clicar com mais facilidade em anúncios -, seja para conseguir uma graça de São Tomás de Aquino. O tempo é o bem mais precioso de seus leitores mais fiéis. Não faça com que eles o percam.
Isso sim seria uma desonestidade com seu texto, com seu leitor e com você.
O seu produto secundário, no entanto, é o espaço que você disponibiliza para os anúncios e outras formas de ganhar dinheiro com seu blog. A não ser que o seu blog já tenha um bom ranqueamento e que você já tenha boa visitação, aquilo que vai garantir que esse produto secundário renderá alguma remuneração é você ter observado o produto primário.
Mas facilmente você descobrirá se está observando isso ou não. Afinal, você pode transformar um passatempo em fonte de renda, mas raramente o contrário. Ganhar dinheiro é bom, mas não deve ser um objetivo em si. Deve ser uma conseqüência de uma atividade agradável. Cabe descobrir a maneira mais inteligente e humana de fazer essa transmutação.
Na verdade, é simples. Observe-se com sinceridade. De acordo com a moral Hemingwayniana, acima citada: se você se sentir mal é porque está fazendo algo de errado.
Mas, ao se sentir bem, muitos editores que garantem que se manterão fiéis ao seu público estão aderindo à publicidade e muitos já estão fugindo da histeria geral que considera que escrever sobre o assunto da moda é uma obrigatoriedade.
Considero isso um bom sinal, de um tempo promissor para quem pretende viver daquilo que escreve e para quem considera a internet – aplicados os devidos filtros – uma boa fonte de informação.
De minha parte, gostei muito de ter escrito isto aqui. Sinto-me bem.
Espero que também goste de ler. E, como ensina Hemingway, sinta-se bem.
