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Queda do avião: o cinismo é a nova hipocrisia

2 de junho de 2009 | Publicado na Categoria Outros assuntos | 16 Comentários »

As brincadeiras feitas em torno do acidente com o avião que voava do Rio de Janeiro a Paris (muita gente se achando esperta e original fazendo comparações em torno do seriado Lost) chamou-me a atenção para um fenômeno que não deve ser novo.

O atraso da minha observação certamente se deve mais a minha ingenuidade que à novidade da coisa, certamente.

Chamou-me a atenção não as brincadeiras em si. Depois de um tempo toda tragédia acaba virando piada. Somos assim, para bem ou para mal. Seria hipócrita, sim, dizer que nunca se fez algo do gênero.

Mas destaco as respostas de quem defendia a brincadeira frente àqueles que imediatamente a rejeitavam.

Alguém disse que não faz sentido se sensibilizar pela queda de um avião. Porque, afinal, morrem dúzias de crianças no exato momento em que digito esta frase. De fome, de doença, por violência, por absoluta falta de cuidado. E ninguém diz nada. O que é a queda de um avião diante disso, não é?, dizia esse sujeito e mais uns tantos.

O que estes estão fazendo é justificar sua insensibilidade quanto ao fato da queda de um avião através de uma suposta sensibilidade, de uma consciência quanto à morte de milhares de crianças, para ficarmos nesse exemplo. Suposta sensibilidade porque, evidentemente, sensibilidade não há.

Usar algo grave para justificar algo que se considera não tão grave não me parece tão nobre e consciente. O que esse discurso revela, em última análise, é: o mundo é uma tragédia, não há nada a fazer, vamos rir portanto da tragédia alheia. Temo que esta postura justificaria passar por cima de alguém esticado sobre a calçada, pois afinal o que é uma pessoa morrendo ao meu lado diante da morte de milhares de criancinhas? Esta seria sua valorosa contribuição na já não muito bem fadada jornada humana, uma espécie de hipocrisia ainda mais profunda.

A estes eu gostaria de dizer: há quem não ria nem da tragédia do avião, mas tampouco usa a tragédia das crianças e outras tragédias globais para justificar gargalhadas mais ou menos graves ou sua imobilidade.

Há quem faça, para ficar só neste exemplo.

Antes de escrever besteiras no Twitter ou em grupos de discussões mais valeria ficar quieto.

Se o mundo não precisa de hipócritas, precisa menos ainda de cínicos.

Se não pode ajudar, não atrapalhe. #ficaadica

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16 Comentários para “Queda do avião: o cinismo é a nova hipocrisia”

  1. SaintBr - 2 6 2009 às 12:35

    Alessandro,

    Seu texto veio como uma voadora com 2 pés nas costas, eu mesmo varias vezes fiz essas brincadeiras no twitter e detesto admitir, mas vc está certissimo.
    Peço desculpas por ter sido parte desse texto e mano, volta pra lista.

    Abraço

    Saint

  2. Argumento também usado para invalidar outros argumentos do tipo. “Olha vocês, reclamando da corrupçã no Congresso/do preço da gasolina/dos gráficos do Wii enquanto milhares de crianças morrem de fome na África!” Obviamente, não invalida nada a não ser o seu próprio contra-argumento…

    Não condeno piadas com tragédias, acho que é de direito de cada um fazer piada com o que quiser, e responder pela insensibilidade depois. Se esquivar assim, entretanto, já é tosco.

  3. Alessandro Martins - 2 6 2009 às 12:44

    Pô, Saint!

    as pessoas importantes sempre estarão por perto e, pra ser sincero, estava meio sem tempo de acompanhar tudo. De repente, na semana que vem eu volto, a lista é apenas uma lista e basta apertar um botão e contar com a boa vontade de quem a modera. A gente é meio volúvel mesmo. Já bons amigos são mais difíceis de conquistar. De maneira nenhuma tome este texto como pessoal. Gostaria de ter a sua coragem quando deparar com um texto que me pegue “como uma voadora com os dois pés nas costas” e admitir isso. Acho que quem me deu uma voadora, agora, foi você.

    Abraços do Alessandro!

  4. Carla Martins - 2 6 2009 às 15:33

    Não vejo como comparar desgraças ou desastres. Um não invalida o outro e nem hã mais um importante. O pais que perde um filho para a fome sente a mesma dor que um pai que perde um filho em um desastre de avião, certo?

    bjs!

  5. Adriana - 2 6 2009 às 16:11

    Sempre que “enfrento” piadas deste gênero penso no grau de sensibilidade das pessoas…
    O humor negro sempre permeará a humanidade…mas não compreendo!

  6. Caminhante - 2 6 2009 às 17:06

    Sorte minha, que não tive ninguém da minha lista fazendo isso. VIP, né?

  7. Robson - 2 6 2009 às 17:47

    Veja isso: http://livroseafins.com/2009/06/02/queda-do-aviao-o-cinismo-e-a-nova-hipocrisia/

    Foi uma sátira séria. Se me entende.

  8. Jorge Leberg - 2 6 2009 às 18:47

    Houve uma época em que eu pensei assim, que certas tragédias podiam e até deveriam ser comparadas, em termos de grau de sofrimento, vê se pode. Mas como a Carla disse acima, a dor de um pai que perde um filho pela fome é a mesma do que perde através de um desastre aéreo. Contudo, há realmente tragédias mais cruentas ou impactantes do que outras, uma coisa é uma pessoa morrer em um acidente, outra são várias morrerem bombardeadas, por exemplo. Mas confesso que é perigoso medir o grau de “importância” de uma fatalidade, de uma tragédia, etc, corremos o risco de sermos insensíveis e até mesmo fascistas. Lembra-me aquele velho dilema moral: você mataria uma pessoa para salvar várias, afinal uma é menos que várias e portanto o dano é menor?

    Lembra-me também aqueles dizeres, que até eu mesmo me pego soltando irritado de vez em quando: “que sofrimento que nada, sofrimento é a fome na África; sofrimento é na Guerra do Iraque”, e coisas do tipo.

    O humor negro é válido, por mais insensível que seja, porque de certa forma nos alivia das tensões do cotidiano, nos instiga a encarar melhor nossas próprias dores, a não encarar tudo de forma sentimentalóide ou fatalista. Humor negro é ótimo para evitar depressão, rsrs. Essa é a minha visão; contudo, extrair piadas de uma tragédia não é desculpa para subestimá-la ou anulá-la aos olhos das pessoas.

  9. Tatiana - 2 6 2009 às 20:30

    Também acho que as pessoas perderam muito a noção pelo twitter, inclusive eu acho que essa ferramenta contribuiu para as pessoas jogarem sues pensamentos na rede sem filtrá-los. Não sei qual é o mérito que as pessoas buscam com essas declarações, talvez elas queiram chamar a atenção, queiram “causar”.
    Só fico pensando se essas pessoas cínicas tivessem perdido parentes nesse acidente, como será que elas se sentiriam a respeito desses tweets de extremo mau gosto?

    Parabéns pelo post, boa noite! ^^

  10. Ivan Marinho de Souza - 2 6 2009 às 22:30

    Existe uma linha muito tênue que separa homens de moleques. Aqueles que agem com hipocrisia e sem conteúdo na cabeça, nada mais são do que crianças na escala evolutiva. O humor negro faz parte da nossa vida, ele até serve para nos inspirar a superar as dificuldades de certos momentos. Porém, para utilizar isto da melhor maneira, antes temos que nos tornar homens.

    http://eriolmala.blog.uol.com.br/

  11. Josafá Crisóstomo - 3 6 2009 às 12:59

    Alessandro,

    Parabéns por dizer tudo o que disse. Esse episódio lembrou-me um outro que assisti no trabalho. No início do ano o teto de uma igreja evangélica desabou matando e ferindo alguns fiéis.A única crítica que poderia ser feita sobre o episódio seria aos responsáveis pela manutenção do prédio, os “donos” da igreja. Enfim, ouvi uma pessoa dizer “também essa gente burra vai frequentrar esse tipo de lugar, o teto tem mais é que cair na cabeça dessas pessoas. Bem feito…” Como resposta ouvi uma amiga dizer a esse insensato: “Fulano, são seres humanos, Famílias estão chorando nesse momento.” A morte de qualquer homem me diminui, sou parte do gênero humano. Afinal é isso o que está em questão.

  12. léo mariano - 3 6 2009 às 14:32

    oi Alessandro ( Esse é o mesmo texto que escrevi lá nos comentários do Universo Tangente)

    O que me deixa sem chão nesse assunto é como as pessoas se negam a ficar surpresas.

    um barreira de indiferença nutrida com muito cinismo.

    Não se fica mais espantado.

    E ,não sei, quando se abandona o Espanto à favor de um “indiferença inteligente” me parece que se força a muchar todos os outros dons cognitivos, tais quais o medo, a esperança, a tristeza.

    Ferreira Gullar disse uma vez que o artista vive do espanto de viver. mas, pô, não deveria ser só o artista, mas todos.

    Isso eu acho.

    Abs

  13. Maria Fernanda - 3 6 2009 às 21:31

    Muito bem dito (ou escrito).
    Imagino que se algo do gênero (o acidente) acontecesse com essas pessoas que se dizem insensíveis por que se importam mais com as criancinhas e bla bla bla, não levariam as brincadeiras e piadinhas tão numa boa quanto querem que todos levem agora…

  14. fernanda fernades siva - 4 6 2009 às 14:03

    Acredito que nem um pai gostaria de ver seu filho em perigo!!! pois só quem é mãe e pai sabe o quanto que um filho representa nas suas vidas as pessoas andam muito mostruaosas e pensan só em si mesmas egoistas hipócretas se tivessem perdido um ente querido aposto que não variam piadinhas de mau gosto ou seriam tão cinicos… no entanto as pessoas precisam ée olhar um pouco para o lado e ajudar as pessoas necessitadas..ter um pouco de compaixão.. e solidariedade… acredito que é isso que Deus tento passar para nós e muitos fecham os olhos…. não é comigo não sei de nada … não é assim que agem os cinicosss….

  15. _Maga - 6 6 2009 às 22:39

    Outro dia eu li este texto http://incautosdoontem.opsblog.org/2008/12/29/o-pai-dos-argumentos-estupidos/

    acho que tem tudo a ver com a tematica abordada neste post.

    Um abraço

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