Quase comemoro o fim da obrigatoriedade do diploma
18/06/2009Tenho diploma de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo há 11 anos (não está na parede).
E não lamento o fim da obrigatoriedade, mesmo porque a dinâmica da informação está mudando e dependerá cada vez menos de pessoas supostamente habilitadas e oficialmente autorizadas para propagar notícias.
Supostamente, pois o diploma nunca foi garantia de um bom empregado de um veículo de comunicação (atualmente é isso o que as Universidades formam: empregados). Quanto mais de um bom Jornalista.
E oficialmente porque era isso o que o diploma era: uma maneira de oficializar uma pessoa – capaz ou não – como jornalista.
Tive a sorte de começar a trabalhar em jornal antes mesmo de ser formado – antes de ter diploma portanto – e tive uma das melhores formações que um jornalista poderia ter em todos os aspectos profissionais: em uma redação. E ainda ganhando o salário de um profissional formado.
A única coisa que lamento é que em vez de uma faculdade de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, eu poderia ter feito um curso mais interessante – como culinária, relojoaria ou tricô – que me proporcionasse uma formação mais humanística e menos técnica. Ou mesmo não ter feito formação oficial nenhuma, aprendendo de acordo com o meu interesse!
A cultura geral de um jornalista (jornalista porque tem diploma e não porque o seja de fato) que sai de uma faculdade hoje, na média, é muito fraca. Fiquei certo disso depois que tive a curiosidade e dei uma olhada na comunidade do Orkut sobre jornalismo e nos textos que andam escrevendo por lá.
Não fui leviano a ponto de julgar a gramática ou a ortografia da coisa toda. Seria covardia e não levaria em conta a adequação do código ao ambiente.
A questão é a estruturação das idéias, a organização do pensamento. E precisei supor que os bons estudantes e os bons jornalistas, com algumas exceções, devem estar em outro site social, talvez em nenhum.
Senti, por exemplo, que há uma dificuldade em entender que não foi o fim do diploma, nem o fim do jornalismo. Foi o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. O diploma continua. O fim de sua obrigatoriedade, no entanto, seria muito mais difícil se o diploma de fato fosse um certificado da qualidade do profissional. Coisa que não é. Talvez nunca tenha sido.





9 comentários
“A única coisa que lamento é que em vez de uma faculdade de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, eu poderia ter feito um curso mais interessante – como culinária, relojoaria ou tricô” Hahahahaha!
Agora sério: é sempre muito complicado uma faculdade ter que gerar um profissional com uma boa cultura geral. É aquela velha diferença entre reconhecer a importância da leitura e gostar de ler – quem gosta de ler acaba se informando sem querer, porque isso faz parte da vida dele. Eu fico impressionada com a pobreza de certos textos de jornalistas. No mundo virtual acaba ficando bem claro a intimidade das pessoas com o texto escrito, e quase nunca os melhores textos são os de jornalistas (os teus são uma nobre excessão!).
Falou e disse!
Desde quando diploma é sinônimo de qualidade do profissional (principalmente no Brasil, levando em conta o nível das faculdades que temos)?! O que conta é a experiência, o talento, o profissionalismo, a ética e o conhecimento sobre determinado assunto.
A formação de jornalista que as faculdades oferecem hoje é realmente muito generalista e muito técnica, nada que não se possa aprender no dia a dia na profissão.
As qualidades essenciais para um bom jornalista não podem ser ensinadas na faculdade e com frequência, principalmente na internet, vemos pessoas altamente capacitadas para noticiar informações, porque elas têm o que falta a muitos profissionais do jornalismo: a especialização sobre o assunto em questão. Assim por exemplo, um médico fala com mais propriedade em uma revista sobre medicina, um advogado sobre um caso que esteja sendo julgado e com divulgação na mídia, etc.
O fim da obrigatoriedade do diploma, eu espero, irá tornar cada vez mais obrigatório a capacidade do profissional, e conseguentemente aumentar a qualidade da informação que é veiculada. Os que criticam seu fim são os pseudo-jornalistas que temem perderem seus empregos para pessoas mais preparadas.
(Desculpe por fazer no seu espaço de comentário um novo post rs)
Vou jogar umas idéias não cosmopolitas no assunto.
É fácil falar que diploma não é sinônimo de qualidade profissional, mas… que qualidade profissional pode ter qualquer recém-formado de 22 anos ou aspirante a jornalista, além da imensa vontade de trabalhar e da abertura em aprender?
O que é considerado uma boa cultura geral, tirar 10 na prova da Folha? E aqueles que não tiveram oportunidade de crescer em grandes metrópoles e só perceberam que sua cultura não era tão geral assim durante a faculdade?
Só existe emprego para os cosmopolitas de meia-idade?
Isso me perturba. Se emprego em muitos jornais, rádios e TVs já era por indicação, agora então que ferra tudo. É preciso ter qualidade, mas quem tem qualidade sem experiência? O próprio senhor dono do blog disse que entrou numa redação sem saber nada. Há quinze, dez anos atrás isso ainda era possível.
Alessandro disse: “E não lamento o fim da obrigatoriedade, mesmo porque a dinâmica da informação está mudando e dependerá cada vez menos de pessoas supostamente habilitadas e oficialmente autorizadas para propagar notícias.” E quem são esses oficialmente autorizados? Se não os cosmopolitas de meia-idade, os bem-nascidos que tem computador em casa e oportunidade de ir ao cinema nos fins de semana.
(Ah, na minha cidade não tem cinema. Fui ao cinema pela primeira vez quando fui pra faculdade. Agora joguem a culpa pra cima de mim, pessoa sem cultura geral. A biblioteca da minha cidade tem livros em que Goiás ainda é junto com Tocantins. Realmente, a culpa é minha, por ter nascido no interior.)
Desculpe se pareço grosseira, mas ainda estou sob efeito do Pigmaleão, que acabei de ler ontem. Desculpe, não quero ser agressiva, é que tem coisa que realmente me chateia.
Ps.: Adorei o comentário do Caminhante. Realmente, Alessandro, seus comentários são uma excelente “excessão”. É aquela velha diferença entre reconhecer a importância da leitura e gostar de ler.
…em vez de uma faculdade de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, eu poderia ter feito um curso mais interessante… “Esculachou” de vez e eu aqui só posso concordar com tudo.
Vejo que certos problemas são comuns a todas as faculdades. Mas na verdade, penso que se alguém forma alguma coisa é o indivíduo a si mesmo, não a instituição. É um erro de percepção generalizado. Ou talvez não seja um erro, mas uma consequência da natureza humana de se esquivar naturalmente das responsabilidades, ou de jogar a culpa nos outros, etc.
Acabei de escrever sobre no meu blog (não, não é propaganda, juro) e fui pesquisar para ver opiniões. Fiquei feliz de chegar à sua. Gostei especialmente da parte sobre não julgar a gramática e sim a qualidade. Isso me dá boas esperanças, sério.
(Não sou, nem pretendo ser, estudante ou jornalista. Minha área é outra, mas muito me interessa, como devia interessar a todos, né?)
Abraços!
Fico perplexo com a ideía de que digam que concordam com a não obrigatoriedade do diploma de jornalista. Nas faculdades de jornalismo, para quem não sabe, estudamos socilogia, antropologia, filosofia, língua portuguesa, técnicas de redação jornalísticas para todos os veículos, ética jornalística e tantas outras disciplinas. Tudo isso é uma bagagem forte para que não se cometa muitos dos erros gritantes que existe hoje dia nos meios de comunicação. Não estou querendo generalizar, mas embora exista muitos bons jornalistas que nunca cursaram uma faculdade, esses são a excessão e não a regra. A regra é que o jornalismo brasileiro é um dos piores do mundo, exatamente por que é feito sem compromisso e feito por pessoas despreparadas e/ou sem ética alguma, atreladas apenas aos seus próprios intereses e não aos da sociedade. Não é de se admirar, portanto, que tirem a obrigatoriedade do diploma para execer a profissão de jornalista em um país como o Brasil. Estou concluindo minha faculdade de jornalismo, onde em longos árduos quatro anos preparei-me para ser o porta voz da sociedade. Mas, penso que o ministro Gilmar, acha que liberdade de expressão é o mesmo que dá a um pedreiro um bisturí para que faça uma cesariana.
Cézar,
cito:
“A regra é que o jornalismo brasileiro é um dos piores do mundo, exatamente por que é feito sem compromisso e feito por pessoas despreparadas e/ou sem ética alguma, atreladas apenas aos seus próprios intereses e não aos da sociedade”
E até então o diploma era obrigatório. Vamos ver se, agora que o exercício da profissão está mais flexível, damos a chance para pessoas mais qualificadas. Diferentes dessas a que você se referiu, nossos colegas.
Por outro lado, você contrataria um pedreiro para fazer uma cesariana? Eu não.
Ainda que o diploma de Médico fosse desnecessário para o exercício da medicina, eu verificaria se o profissional tem a devida formação. Verificaria se ele é formado em medicina e não veterinária, por exemplo.
O fato é que as faculdades de medicina, bem ou mal, fornecem uma formação imprescindível.
O mesmo não se dá com as de Comunicação Social. Você tocou, de fato, em uma questão delicada. As faculdades de Comunicação Social não mostraram a que vieram. Se tivessem mostrado, ninguém cogitaria na possibilidade que se concretizou.
Os únicos ameaçados com o fim da obrigatoriedade do diploma são os maus cursos, as más faculdades. O jornalismo ganha, no entanto.
A propósito, você contrataria um pedreiro para fazer uma reportagem? Eu não.
Tenho certeza de que, se você for o cara bom e combativo que parece ser, terá seu lugar garantido no mercado de trabalho. Quem sabe até escreva seu nome na história do jornalismo nacional. Mas agora não é hora de mimimi. É hora de mostrar que os cursos e o diploma de jornalismo valem a pena. Não por que antes garantiam uma certa exclusividade nas redações, mas porque eles garantem que você tem conhecimentos que nenhum outro profissional tem.
Isso, hoje, é verdade? É o momento de mostrar que sim.
A propósito: sempre que for fazer um comentário dizendo que você é jornalista ou estudante de jornalismo, procure fazer a revisão de seu texto. Concordâncias erradas, embora ninguém esteja isento desse tipo de acidente ou até de coisa pior, podem pegar mal e denunciar desatenção.
Abraços do Alessandro e seja bem-vindo a meu blog.
Acredito que a ideia do ministro é boa: possibilitar a liberdade de expressão. Só que isso acaba influenciando negativamente quem tem um diploma de Jornalismo na mão; é ruim concorrer a um emprego de jornalista e perder para um filósofo ou historiador. Não foram eles que ficaram anos se preparando para ser aquilo ali e ponto final. Mas, como o amigo disse, quem sai ganhando é o Jornalismo em si.
Muitos dos formandos de Jornalismo acabam saindo incapacitados da faculdade, mas a culpa não é somente do curso, mas em grande parte da própria pessoa que não busca a informação o bastante e não se esforça o suficiente. E se formos analisar os formandos despreparados, não vamos esquecer dos novos advogados em todo o país que não conseguem passar no exame da OAB, ou de médicos que matam pacientes por passarem dosagens erradas de medicamentos. Se formos pensar assim, então que eliminemos todos os cursos que existem, já que também saem novatos desqualificados.
Jornalismo às vezes é bastante glamourizado. Conheço gente que está fazendo o curso espelhando-se em Fátima Bernardes e William Bonner, esquecendo que há muito mais por trás.
O certo é que essa mudança vai trazer algo novo. Resta esperar e vai no que dá.
Ótimo post, por sinal.
uma ótima alternativa, louvavel decisão.
o diploma em si, evidentemente, tem a sua importancia…se não tivesse, não seria tão almejado. Agora, você tornar restrito a capacidade, a qualidade de uma pessoa, justamente em cima de um papel não dá. Creio que com essa decisão, muitos iniciantes na área, terão suas oportunidades, cabendo aos mesmos mostrarem trabalho, competencia e muita dedicação!
parabéns pelos textos…
abraços!