Aos 83 anos você pode não esperar muito da vida ou do que lhe resta dela. O passado de glória, de avidez e esperanças está apenas na lembrança, o presente insiste em dar as regras a um futuro incerto, sem muitos anseios.

A vida daquele senhor de cabelos grisalhos tornou-se nos últimos tempos a simples repetição de atos sujeitos à rotina de dias de solidão. Vivia porque respirava, e respirava porque seu corpo teimava em fazê-lo. Se pudesse já teria aniquilado o tempo que restava. Acordar, escovar os dentes, comer, trabalhar, dormir, acordar novamente. Uma repetição de atos dia após dia.

Não tinha sido sempre assim. A juventude, agora somente na lembrança, trazia tons coloridos. O corpo saudável, o sorriso perfeito e a alegria de viver davam fôlego para seguir. O casamento aos 23 anos, depois a separação inesperada, e por fim, a solidão. A dedicação ao trabalho era o que lhe restava, mas mesmo tudo isso ainda era pouco.

Talvez aos 83 anos de vida você esteja apenas esperando pelo fim, ou simplesmente pode acreditar que o fim não é exatamente como fora planejado. E que tudo não termina ali, e pode realmente significar um novo começo, uma nova vida.

Eddie levava seus dias trabalhando dedicadamente num parque de diversões próximo ao mar. Aquela vista, as crianças e tudo de novo que podia surgir era o combustível que o mantinha vivo. Mas ele sentia-se imensamente sozinho, trancafiado num mundo sem perspectivas, sem esperanças. Apenas repetia atos como numa cena planejada de dias à espera do fim.

E o fim chegou numa tarde ensolarada diante de uma montanha russa desgovernada. Era o dia do aniversário de Eddie, do nascimento 83 anos atrás ao fatídico dia de sua morte. Ou seria apenas o recomeço?

Ao abrir os olhos, Eddie não encontrou o paraíso. Não era como nos filmes, nos livros nem nas pregações de sua Igreja. E uma nova vida se descortinou à sua frente, e muitas perguntas ansiavam por respostas. Mas as respostas não estavam ali, um longo caminho seria percorrido até que tudo fosse devidamente esclarecido.

Estaria louco? Teria mesmo morrido? Ou era apenas um sonho?

Eddie levantou-se, seguiu caminho na busca de respostas que o esperavam há anos, sua cabeça era um turbilhão de palavras, de dúvidas. O caminho percorrido parecia com muitas trilhas já  cruzadas durante sua vida, tudo era familiar.

Se estava vivo ou morto não tinha importância naquele momento. O vigor da juventude parecia retornar a cada passo dado, e a cada curva percorrida ficava mais forte que o fim pode realmente significar um novo começo.

Tudo estava apenas começando…

Crônica inspirada na leitura do livro As cinco pessoas que você encontra no céu, de Mitch Albom.

Sobre o autor: Amilton Costa

Amilton Costa é Dentista, Mestre em Saúde da Família , autor dos livros De Boca Aberta: crônicas de vidas na cadeira odontológica, e 20 Dias.