Em entrevista à revista literária The Paris Review, na edição do inverno de 1981, o colombiano Gabriel García Márquez (à época já consagrado por muitos livros, entre eles o “Cem Anos de Solidão”, e que no ano seguinte veio a receber o Prêmio Nobel de Literatura) foi perguntado sobre como começara a escrever e ele respondeu algo como:

“Na universidade em Bogotá [Gabriel cursou Direito e Ciências Políticas na Universidade Nacional da Colômbia, mas não chegou a se graduar], eu comecei a fazer novos amigos e conhecidos, que me iniciaram nos escritores contemporâneos. Uma noite um amigo me emprestou um livro de contos de Franz Kafka. Eu voltei à pensão onde eu estava morando e comecei a ler ‘A Metamorfose’. A primeira linha quase me fez cair da cama. Eu fiquei muito surpreso. A primeira linha dizia ‘Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.’ Quando eu li essa linha, pensei comigo mesmo: não sabia que alguém que poderia escrever coisas assim. Se eu soubesse, eu teria começado a escrever há muito tempo. Então imediatamente eu comecei a escrever contos.”

Dizer que Gabriel García Márquez, em 1947, decidiu ser escritor após ler o primeiro parágrafo de “A Metamorfose” talvez já pudesse ser o bastante para expressar a genialidade, a importância e a influência deste livro. Mas podemos ir além. Se você ainda não leu, provavelmente já tenha pelo menos ouvido falar deste livro de Franz Kafka. Este pequeno livro, que na maioria das edições tem algo em torno de cem páginas, foi concluído em 1912 e publicado somente em 1915 e é, sem dúvida alguma, um dos melhores e um dos mais influentes da literatura moderna.

O texto pode ser acessado e baixado na íntegra através do Domínio Público – não cheguei a ler esse texto inteiro, mas confesso que ver logo no começo que traduziram “Gregor” por “Gregório” é no mínimo estranho. Para a leitura deste primeiro parágrafo, é possível acessar a tradução de Marcelo Backes, pela L&PM Pocket, que é hoje um dos mais conceituados tradutores do alemão para o português ou, aos que tiverem condições, ler o texto em alemão. Colocarei aqui o primeiro parágrafo de “A Metamorfose” conforme a tradução de Modesto Carone, pela Companhia das Letras, principal tradutor e comentarista da obra de Kafka para o Brasil:

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.”

 

Se Heinz Politzer escreveu que “depois da metamorfose de Gregor Samsa, o mundo onde nos movimentamos tornou-se outro”, podemos ter certeza de que não foi à toa. Ainda hoje Franz Kafka é visto por muitos como um pessimista, mas o que ele fez mesmo foi romper com o realismo do século XIX ao escrever de maneira realista sobre o homem do século XX (cabendo aqui lembrar o contexto). Sem exagero se pode dizer que Kafka inaugura o século XX. O despertar de Gregor Samsa é o despertar do homem deste século: homem que é antes a sua profissão e que vive apenas o seu cotidiano (levando uma vida regulada pelo relógio); o homem moderno que vê a sua vida não se desenvolver de acordo com essa suposta modernidade – parado enquanto o tempo corre.

Esqueça o tradicional e os clichês literários. Diferentemente do que ocorre em muitos livros, “A Metamorfose” (assim como “O Processo”, por exemplo) não apresenta um cenário calmo e tranquilo que depois será abalado para enfim voltar à normalidade, o livro começa já pelo choque, pela brutal descoberta após uma noite de sonhos intranquilos. Kafka não apresenta um mistério a ser desvendado, não há explicação. Modesto Carone define essa característica com precisão ao dizer que “aqui a coisa narrada não caminha para o auge, ela se inicia com ele – e com isso a novela se sustenta mais sobre as decorrências de um fato fundamental do que numa progressão rumo a ele”.

O que ocorre após esse primeiro parágrafo? No livro “Kafka: pró & contra” Günther Anders escreve que “não é a circunstância de Gregor Samsa acordar de manhã transformado em inseto, mas o fato de não ver nada de surpreendente nisso – a trivialidade do grotesco – que torna a leitura tão aterrorizante”. Por exemplo: uma das primeiras preocupações de Gregor é com o fato de estar atrasado para o trabalho – fato que, obviamente, deveria tornar-se irrelevante para alguém que acabou de acordar metamorfoseado em um inseto monstruoso. Na continuidade do livro podemos ver como ocorrem paradoxal e simultaneamente a ruptura e a manutenção na vida de Gregor Samsa: a ruptura ocorre a partir do momento em que ele simplesmente acorda e se vê como um inseto; mas ao mesmo tempo essa metamorfose, de certa maneira, nada mais significa do que a manutenção de condição de vida de um ser humano que já vinha deixando de sê-lo. A ruptura é a possibilidade de se ver livre do trabalho que só exerce por obrigação; a manutenção está no fato de que a liberdade não pode existir de fato para um inseto que passa a viver nas limitações de um quarto. Mas isso já é conversa para um outro post.

Sobre o autor: Raul Maciel

Estudo Ciências Econômicas e não descobri qual é o meu grande talento (sim, ainda espero ter algum). Cheiro livros, jogo futebol e gosto do ponto e vírgula; ainda que não saiba utilizá-lo. Andando sozinho me policio para não pisar nas linhas da calçada enquanto penso em alguma coisa sobre coisa nenhuma.